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Religião

15/12/2017 | domtotal.com

Festivais de milhões

Os diversos caminhos dentro do hinduísmo são considerados autênticos entre si quando estão alicerçados no tripé guru-shastra-sadhu (mestres, escrituras e santos).

Ratha-Yatra de Puri é o maior festival anual da Índia e também um dos mais antigos.
Ratha-Yatra de Puri é o maior festival anual da Índia e também um dos mais antigos. (Krupasindhu Muduli)

Por Romero Carvalho*

As imagens multicoloridas das imensas festividades ligadas às diversas tradições do hinduísmo encantam e chocam o planeta. A quantidade de pessoas aglomeradas é distinta de qualquer outro local, em festas de rua populares, milenares, porém, mesmo com toda a inevitável secularização, ainda profundamente religiosas. A festa, a celebração do encontro com o divino, é o cume em todas as tradições hindus, que antecipa o êxtase da meta última de iluminação nesta vida e libertação do ciclo de nascimentos e mortes, considerado o cativeiro da alma.

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A Índia tem 1,2 bilhão de habitantes, reunidos em uma porção de terra menor que o Brasil, sendo que mais de 80% se declaram hindus. É importante destacar que isso, contudo, não representa uma unidade, visto que o que chamamos de “hinduísmo” compreende uma vasta gama de tradições religiosas milenares − das quais se destacam o vaishnavismo, shaivismo, shaktismo e smartismo −, seitas e cultos ligados de alguma maneira à literatura védica, que possui hoje cerca de 18 mil livros. Contudo, muitos dos grandes festivais conseguem reunir todas as tradições, e alguns ainda congregam jainistas, budistas, sikhis e até muçulmanos. Um exemplo neste caso é o maior festival anual do país e também um dos mais antigos: o Ratha-Yatra de Puri. Reunindo cerca de oito milhões de pessoas, anualmente, a festa é a mais antiga procissão de rua do mundo, quando devotos puxam três imensos carros de madeira com as deidades do antiquíssimo templo de Jagannatha, um dos nomes de Vishnu. A festa se mantém integralmente voltada a este encontro com Deus fora de seu templo, numa possibilidade de contato íntimo e irrestrito com a deidade. O Ratha-Yatra acontece em julho em seu local original, mas desde 1967 é realizado também fora da Índia, quando teve sua primeira edição na cidade de São Francisco (EUA), organizado pela ISKCON – Sociedade Internacional Para a Consciência de Krishna. Atualmente, o Ratha-Yatra ocorre nas principais capitais do mundo, congregando centenas de milhares de pessoas de todos os credos.

Datas ligadas a divindades régias, como Krishna e Shiva, possuem imensos festivais celebrados por milhões de pessoas. Antes, é importante destacar resumidamente que há uma hierarquia interessante entre as 33 milhões de divindades védicas. De acordo com a escritura Bhagavata Purana, Krishna é o Absoluto, a fonte de todas as manifestações divinas, sendo a Personalidade Suprema da Divindade, a intimidade de Deus. Dele, manifesta-se Vishnu, de onde emanam os múltiplos universos materiais. Vishnu manifesta-se em diversos avatares (encarnações divinas) − como Ramachandra, Narasimhadeva, Vamanadeva, Varahadeva − e também realiza a função de mantenedor em cada um dos universos criados. Shiva é uma categoria especial de divindade, pois é eterno e supremo, mas não está na mesma posição transcendental de Vishnu por tocar a matéria. É também o responsável pela renovação de cada universo após um ciclo cósmico. Por fim, fechando as divindades em destaque, Brahma surge de Vishnu como o responsável pela criação de tudo que há em cada universo. Este é um tema cosmológico complexo, que geraria todo um novo texto, mas é necessário para entender a lógica da grandiosidade histórica de determinados festivais e entender a natureza henoteísta de grande parte do hinduísmo.

A noite conhecida como Maha Shiva-ratri, a Grande Noite de Shiva, que acontece geralmente em fevereiro, seguindo o calendário lunar, é a principal celebração do shaivismo, também observada por outras tradições do hinduísmo. Em Varanasi, a mais antiga cidade do mundo, encontra-se o maior Shiva-ratri da Índia. Milhares de fiéis passam a noite em vigília, recitando mantras em glorificação a Shiva e banhando cerimonialmente sua esotérica deidade, chamada Shiva-linga, com leite, iogurte, ghee (manteiga clarificada) e água. Pela manhã, eles quebram juntos o jejum com alimento que foi oferecido à deidade. Para Krishna, o maior festival é o Sri Krishna Janmastami, em agosto, celebrando a noite em que Krishna veio à Terra. O seu epicentro ocorre na cidade de Mathura, local do nascimento de Krishna, reunindo hindus de todas as tradições, sobretudo vaishnavas, que dançam alegremente e realizam apresentações culturais até a meia-noite, horário do nascimento da Divindade. Neste momento, é realizada uma grande adoração às deidades de Krishna e sua consorte Radha, e todos se reúnem para a ceia.

O shaktismo tem no Durga Puja sua principal festa, sendo Calcutá a cidade com mais tradição neste festival, que celebra a deusa Durga, esposa de Shiva, mãe e protetora da criação material. O filho do casal, o popular Ganesha, é imensamente celebrado no seu aniversário, o Ganesha Caturthi, sobretudo na cidade de Mumbai, onde as imagens de milhões de pessoas carregando gigantescas deidades de Ganesha para o mar percorrem o mundo pela Internet.

Poucos festivais hindus ultrapassaram as fronteiras da Índia como o Holi, a celebração da chegada da primavera e também da vitória do avatar de Vishnu, Narasimhadeva, sobre Holika. Com tintas multicoloridas jogadas uns nos outros, esse festival originalmente de rua é realizado em todo o mundo hoje em festas com música eletrônica e outras atrações, geralmente distantes do significado original do evento. Contudo, mesmo na Índia esta data hoje está longe do seu significado milenar, com celebrações que muito lembram o carnaval brasileiro. É fácil afirmar que nenhum festival sagrado hindu se dessacralizou tanto quanto o Holi. Outro que se aproxima disso, no entanto, é o Diwali, o festival das luzes, tido como o Ano Novo Hindu. Neste dia, muitas datas sagradas são comemoradas, com eventos escriturais que “coincidentemente” aconteceram no mesmo dia. O mais lembrado é a chegada do avatar Ramachandra à sua terra natal, Ayodhya, após 14 anos de exílio, para governar o seu povo, em história descrita no Ramayana, o mais antigo e popular épico hindu. Na ocasião, os habitantes da cidade iluminaram as praças, ruas e casas do reino para celebrar a comitiva com o futuro monarca e sua esposa, Sita. Até hoje, todas as cidades são iluminadas e os templos ficam repletos de velas. Apesar de ser tido como o Ano Novo, em uma comparação com as festas da tradição cristã, os costumes são mais próximos ao atual Natal, pois as famílias se reúnem, trocam presentes e jantam unidas.

Nenhuma festa no planeta, todavia, pode ser equiparada em popularidade ao Maha Kumbha Mela. O maior evento de peregrinação do mundo, que acontece de 12 em 12 anos, reuniu em sua última edição, em 2013, estimadas 80 milhões de pessoas. É como reunir toda a população do Reino Unido e Austrália em um só lugar, algo absolutamente inconcebível para qualquer outro povo que não seja o indiano, já acostumado a imensas multidões. Transcendentalistas, yogis, ascetas reclusos, místicos, monges de diversas escolas filosóficas e teológicas e demais peregrinos se congregam na confluência dos rios sagrados Ganges e Yamuna, em uma gigantesca e diversificada celebração da espiritualidade.

Os diversos caminhos dentro do hinduísmo são considerados autênticos entre si quando estão alicerçados em um tripé, chamado em sânscrito de guru-shastra-sadhu, ou mestres, escrituras e santos. Todo caminho espiritual em qualquer linha de pensamento hindu deve ser comprovado simultaneamente pelos três. Essa diversidade é considerada natural, tendo em vista as distintas naturezas dos seres humanos e a infinitude de Deus, o que gera inúmeras possibilidades de iluminação espiritual. Contudo, mesmo os caminhos mais reclusos, onde místicos se isolam em florestas, cavernas e picos, ainda mantém a possibilidade do encontro festivo, como expressa o Kumbha Mela. Isso revela a importância central da festa dentro das revelações espirituais do hinduismo, como uma possibilidade coletiva de antecipar o encontro festivo com Deus, associar-se com outros praticantes e santos, e celebrar as inúmeras atividades transcendentais Dele descritas pelas escrituras védicas. Uma oportunidade única de lembrar-se, ainda que por uma noite, da verdadeira identidade espiritual humana e seu real propósito elevado nesta passagem por este mundo.

*Romero Carvalho é Jornalista, formado em Comunicação Social pela UNI-BH, com Pós-graduação em Jornalismo Cultural. Mestrando em Ciências da Religião, pela PUC-Minas. É praticante de bhakti-yoga (vaishnava) há 17 anos. Trabalhou na BBT, editora dedicada ao conhecimento védico, e na Sankirtana Books como editor-chefe também.

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