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Religião

15/12/2017 | domtotal.com

Festa de Candomblé: um ordenamento existencial via o religioso

A festa para o Candomblé é em primazia o momento de inter-relação entre os mundos físico e espiritual.

A festa no candomblé é a consagração de uma mensagem de agradecimento ao divino.
A festa no candomblé é a consagração de uma mensagem de agradecimento ao divino. (Amanda Oliveira/ GOVBA)

Por Guaraci M. Santos*

Uma festa é sempre uma festa, um lugar de novos encontros e reencontros, construções e reconstruções de sentidos, realizações existenciais ou não. No cenário das religiões afro-brasileiras não é diferente, tomemos como exemplo a dinâmica de uma festa de Candomblé. Contudo, sem nos atermos a uma tradição (nação / origem) específica para refletirmos sobre a importância da festa para ele e seus adeptos.

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A festa se inicia respeitando a direção litúrgica do manso (ilê / terreiro / casa) de candomblé, com a entrada de seu Tatetu Ria N’inkise ou Mametu Ria N’inkise, designações usadas para sacerdote ou sacerdotisa, respectivamente. Abrindo um parêntese, preferimos zeladores e zeladoras, como usado antigamente e pelos mais velhos. Enfim, esses sentam-se em suas cadeiras especificas, geralmente de onde se tem melhor visão de todo o barracão, espaço dos terreiros, destinados às festas públicas. Ao lado dos zeladores e zeladoras existem as cadeiras destinadas aos filhos de santo que têm cargo no manso e aos visitantes de honra e graduados. Forma-se uma roda (gira), obedecendo-se a hierarquia: os mais velhos na frente. Para cobrir o chão, são usadas folhas de aroeira, são gonçalinho ou outra folha que a direção do manso achar mais apropriada para o dia. Lembramos que as festas no Candomblé sempre têm um caráter específico e, sendo assim, a folhas devem ser as mais indicadas energeticamente para tal. O ritual se inicia com a saudação ao inkise N’kosi, na tradição Bantu e ao orixá Ogum quando o terreiro é de origem Yorubá / Nagô. É neste momento que, indiferente das tradições, todos vão saldar a porta do barracão, as ngomas (os atabaques) e tomar a bênção ao zelador(a) do manso e na sequência aos mais velhos da família de santo ou visitantes. Momento esse que é de muita importância para a religião Candomblé, pois ao mesmo tempo que se abre a festa pedindo a proteção ao N’inkise N’kosi, cria-se uma interação mística e social entre as pessoas que ali estão. O fato da tradição religiosa ser igual ou diferente, não compromete a efetivação do empoderamento religioso, subjetivo e social dos adeptos do candomblé presentes ali.

Religioso porque há neste momento da invocação do N’inkise do manso festeiro, por meio do tomar a bênção do zelador(a) deste, a intenção de pedir a sua permissão e proteção para a festa do dia. O que acontece, também, entre todos os adeptos do Candomblé, indiferentes da tradição, presentes. Isto, respeitando a hierarquia candomblecista.

Subjetivo, visto que o tomar a bênção e as trocas dessas entre os participantes da festa os permite assumir a posição para qual estão designados, são preparados e confirmados dentro da sociedade do candomblé. Dinâmica que os convoca à responsabilidade diante de seus sagrados, divindades e toda a festa.

E social, uma vez que as festas não são só o lugar da satisfação, mas, sim, da consagração do que foi feito dentro manso, algumas vez, por dias a fio. Seja uma iniciação, uma renovação desta ou um recebimento de cargo, por ter o iniciado alcançado a maior idade. O que o dimensiona ao lugar de ter que responder com responsavelmente pelo N’gunzo (axé, força) que recebeu de seu zelador(a), perante a toda a sociedade candomblecista, indiferente de tradição. 

Retomando a dinâmica da festa, esta agora continua a partir dos devidos posicionamentos e reconhecimentos dos participantes e suas funções e oyê (cargos) legitimados. A solenidade segue por meio de um conjunto de zuelas (cantigas), um mínimo de três, máximo de sete para cada N’kise (Orixá), numa ordenação pré-determinada, em geral, de N’kosi (Ogum) à Lembaranganga (Oxalá). Isto têm a finalidade de homenagear e invocar as divindades do candomblé. A chegada de alguma delas, já que nem sempre todas se manifestam no mesmo dia, é saudada com palmas. Os toques das ngomas produzem os ritmos específicos para cada N’kise (orixá) e suas zuelas, como o Barra Vento, para as danças mais rápidas da N’kise Matamba (Oyá) ou o Jexá, para as mais lentas da N’kise Dandalunda (Oxum).

No ápice da festa têm-se o N’kise homenageado devidamente vestido com sua roupa de gala, com cores insígnias indicativas de suas características de poder e domínio na natureza. Momento que acontece somente com os filhos já iniciados. Visto que, em virtude disto, há uma simbiose entre o N’kise e o filho, pois este se torna a própria divindade manifestada, assumindo suas características físicas e emocionais. O que pode ser identificado por meio das danças, gestos e comportamentos durante o transe.

Ao término da festa o N’kise é recolhido para o interior do barracão, a fim de que se desvincule do filho e este possa sair do transe, tirar suas roupas, suas indumentárias. E, assim, possa retornar à festa para receber os cumprimentos de seus convidados, os quais são devidamente recepcionados, com comidas que variam de acordo com as preferências e os tabus do N’’kise homenageado. O que é feito com a sensação de uma missão existencial, religiosa e social cumprida.

Pelo exposto, entendemos que a festa para o Candomblé é em primazia o momento de inter-relação entre os mundos físico e espiritual, quando por meio dessa religião há a possibilidade de comunicação via transes, cantigas, danças, vestes, etc... de seus adeptos com suas divindades. Ao mesmo tempo que, propicia a interação entre tradições religiosas africanas como as Bantu, Yorubá e Jeje entre outras, que constituem o campo religioso afro-brasileiro, quando seus adeptos exercitam pelo viés do compartilhamento e da vida comunitária valores humanos, existenciais, religiosos e espirituais que buscam promover a religião, o respeito ao outro e a preservação não só da cultura afro, como também dignidade humana. Em suma, a festa no candomblé é a consagração de uma mensagem de agradecimento a N’zambi (Deus) pela vida cotidiana de fé e de amor, na esperança dias melhores.

*Guaraci M. Santos. Sacerdote no Candomblé, psicólogo, mestre em ciências da religião / Puc-Minas.

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