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Religião

15/12/2017 | domtotal.com

A festa na tradição cristã

O sentido da festa e o desejo da sua celebração acompanham a existência de toda pessoa.

Os sacramentos tornam cada festa cristã um 'evento' para a salvação.
Os sacramentos tornam cada festa cristã um 'evento' para a salvação. (Reprodução/ Pixabay)

Por Washington Paranhos*

A redescoberta da dimensão festiva constitui um dos maiores sinais indicadores da capacidade de memória e de celebração da existência humana e do seu mistério na história de um povo. Participar a uma festa significa, ao mesmo tempo, reinvocar a sua mensagem ideal e comprometer-se em realizá-la. O fazer festa se torna para uma comunidade um ato unificador, capaz de conjugar simbolicamente nos sinais colocados, o passado, o presente e o futuro. Festejar “juntos” ajuda a reencontrar os fundamentos últimos da participação comum ao suceder da história, e impele a redescobrir as razões da unidade e do progresso de uma comunidade.

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O sentido da festa e o desejo da sua celebração acompanham a existência de toda pessoa. Trata-se da exaltação das potencialidades e das fontes de riquezas (tradicionais e sapienciais, psicológicas, sociológicas e espirituais) juntas na dinâmica da vida cotidiana que conduz cada um a sair do ritual (rotina) comportamento de trabalho (o homem como protagonista do produto de trabalho) para exaltar espiritualmente o sentido de pertença à comunidade e abrir-se de modo novo à experiência do sagrado (o homem como intérprete do mistério doado). A festa constitui, portanto, um momento particularmente privilegiado também em sentido religioso: chamando o ser humano a sair de si mesmo e do próprio quadro ordinário de existência, abrindo-o de forma nova à experiência do sagrado, do divino, da fé.

Como categoria bíblica, a festa compreende diversos âmbitos de reflexão que têm consequências na vida social e na orientação pastoral das comunidades cristãs e sobretudo nas transformações das gerações futuras. Ninguém escapa do valor litúrgico-sacramental da celebração festiva e à urgência de uma renovação de perspectiva. Esta reflexão foi amplamente apresentada na Carta Apostólica Dies Domini, de João Paulo II, com uma particular atenção à centralidade da Eucaristia dominical e ao valor religioso e social da dimensão festiva e do repouso do trabalho.

O valor simbólico e expressivo das festas presentes no calendário judaica revela a importância da dimensão festiva na tradição bíblica. A festa nas suas articulações litúrgicas e históricas é memória dos gestos de Deus na criação e na história do povo eleito. Toda a comunidade judaica, celebrando a festa, vive o encontro com Deus como um momento privilegiado de graça e de bênção. Considerando os aspectos da categoria bíblica da festa, presente na grande tradição hebraica e relida na sucessiva experiência cristã, podemos compreender o valor existencial da experiência festiva no contexto eclesial contemporâneo.

A riqueza temática e experiencial da dimensão festiva é acolhida na comunidade eclesial e reelaborada nos escritos do NT. Dos testemunhos evangélicos e da práxis litúrgica das primeiras comunidades cristãs evidencia-se uma certa continuidade com a tradição festiva do mundo judaico, juntamente com um processo gradual de transformação do significado da festa, a partir do evento pascal da morte e ressurreição de Jesus Cristo. Em geral, pode-se afirmar que o sistema religioso e a estrutura cronológica das festas cristãs seguem o percurso da tradição judaica, reinterpretada em chave cristológica.

Os indícios que provêm dos testemunhos bíblicos mostram como o próprio Jesus observava as festas judaicas do seu tempo, dando-lhes, com a sua pessoa e a sua obra, um significado pleno e definitivo. Jesus frequenta os lugares de culto dos judeus, para a oração sabática (Mc 1,21; 3,2; 6,2; Jo 5,9; 6,59; Lc 4,16-21; 13,10), a festa das tendas (Jo 7,37ss.; 8,12; Mt 21,1-10.), a festa da Dedicação (Jo 10,22-38). Particularmente dois são os contextos festivos ligados à missão de Jesus: o debate em torno ao sábado, ocasião de revelação e motivo de contraste com os fariseus (Mc 2,23-28; Mt 12,1-8; Lc 6,1-5; Jo 5,16; 9,16) e sobretudo a celebração pascal judaica, no contexto no qual coloca-se a “Ceia do Senhor” que antecipa e reassume o evento do mistério pascal (Mt 26,2.17ss.; Jo 13,1; 19,36; 1Cor 5,7ss.).

Toda a riqueza do simbolismo pascal, em que a memória judaica evoca a libertação de Israel da escravidão, a salvação do povo à semelhança de Isaac e a nova criação messiânica, é levada a cumprimento no sacrifício cruento de Jesus sobre a cruz. Tem-se, dessa forma, a páscoa do Filho Unigênito, que inaugura o “novo templo” e a “nova festa”. Esta nova páscoa se realiza por meio do “pão multiplicado” que será a sua carne oferecida em sacrifício da “nova e eterna aliança” (Jo 6,51). É a páscoa do novo cordeiro, em que Jesus assume o lugar da vítima pascal e cumpre o próprio êxodo desse mundo ao reino do Pai (Jo 13,1).

A centralidade do mistério eucarístico é muito bem evidenciada nas narrativas evangélicas, como cume de toda a missão salvífica do Cristo. A nova Páscoa, que os cristãos celebram a cada domingo, recordando a ressurreição de Cristo como o “primeiro dia” da semana, o Dies Domini (Ap 1,10), une todos os fiéis na comunhão com Deus e os coloca à espera da sua vinda derradeira. Além da páscoa dominical, a festa cristã é constituída pela celebração anual da Páscoa, na qual se revive, na fé em Cristo, a “libertação do pecado e da morte” e partilha-se a alegria da vida eterna e a esperança da parusia gloriosa do Ressuscitado.

A práxis das primeiras comunidades cristãs segue o estilo pastoral de Jesus mesmo. Paulo e os seus colaboradores frequentam os lugares de culto judaicos (At 13,14; 17,2), participam da oração (At 16,13) e celebram a Páscoa (At 20,6). Em todo o NT, as festas judaicas vêm reinterpretadas em chave cristológica e assumem uma estruturação eclesial e litúrgica, em descontinuidade com a tradição dos judeus. A Igreja desenvolve a missão do anúncio cristão e as suas celebrações são contextualizadas no horizonte do evento pascal por excelência, realizado uma vez para sempre (Rm 6,10; 1Pd 3,18; Hb 727; 9,12.28; 10,10) como memorial da nova e eterna aliança (1Cor 11,26), à espera da parusia (1Cor 16,22; Ap 22,17.20). Portanto, a páscoa de Jesus, memória e realização, se torna o protótipo de toda festa cristã.

No entanto, assim como as festas judaicas, também as festas cristãs permanecem sujeitas ao ritmo do tempo e da terra, mesmo coligando-se aos principais fatos da existência de Cristo. Sem querer entrar nos problemas históricos da formulação litúrgica dos primeiros séculos do cristianismo (ano litúrgico, rituais e sacramentais, calendários, etc.), permanece fundamental o fato de que o objeto de cada festividade são: anuais (páscoa, natal, pentecostes; festas marianas; festas dos mártires e dos santos) ou semanal (domingo), coletivas, públicas e implicam um tempo de repouso e um contexto festivo.

Podemos sintetizar os significados da categoria bíblica da festa segundo a tradição cristã, sinalizando as seguintes peculiaridades:

  • A festa cristã segue uma concepção linear do tempo segundo um processo histórico “como espiral”, que se projeta em direção à realização do “projeto salvífico”, da criação à parusia;
  • A centralidade da páscoa cristã é o memorial sacramental entendido como o ponto de síntese entre evento do passado, a atualidade do presente e a esperança da realização final;
  • A categoria bíblica da festa exalta a centralidade cristológica, chave de leitura de todo o calendário festivo cristão;

Os sacramentos tornam cada festa cristã um “evento” para a salvação, não uma simples comemoração – a festa cristã não é uma pausa, mas, antes uma emergência. O tempo festivo é caracterizado pela radical novidade da festa cristã, que intersecta a linha temporal da história humana e a vida dos fiéis, marcadas pelo evento da morte e ressurreição de Jesus Cristo. É Ele o protagonista da festa cristã, o ponto focal sobre o qual apoia-se a esperança da festa sem fim.

*Washington Paranhos é sacerdote jesuíta. Bacharel em Filosofia (2004) e Teologia (2008) pelo Centro de Estudos Superiores da Companhia de Jesus - CES - (Belo Horizonte, MG), atual Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia - FAJE; mestre em teologia pela Università Pontificia Salesiana de Roma (2015); e doutor em teologia pela mesma Universidade (2017); Atualmente é professor no Departamento de Teologia da FAJE. Dedica-se à pesquisa e ao ensino da Liturgia e sacramentária, com projetos de pesquisa nas duas áreas: liturgia e sacramentos.

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