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Meio Ambiente

15/12/2017 | domtotal.com

Algo de estranho no ar

Nos últimos 30 anos nada menos de três quartos da população de insetos do mundo desapareceram.

O declínio das abelhas nos EUA, de cerca de 2,4 milhões de colmeias, começou em 2006.
O declínio das abelhas nos EUA, de cerca de 2,4 milhões de colmeias, começou em 2006. (Divulgação / Pixabay)

Por Fernando Fabbrini*

A ciência é mesmo uma coisa fantástica. Assim como a penicilina foi descoberta por acaso, numa distração providencial de Mr. Alexandre Fleming, outro episódio interessante ocorreu recentemente – mas pouca gente ficou sabendo.

Um entomologista – estudioso de insetos – começou a perceber algo de estranho quando viajava de férias ou a trabalho pelas rodovias da Alemanha. O tal cientista notou que, a cada ano, seu carro sujava-se menos com insetos; aqueles que costumam lambuzar o para-brisas, exigindo esforço extra do limpador para remover o melado orgânico. Que diabos era aquilo?

O sujeito resolveu investigar o fenômeno. Mexeu daqui e dali até chegar à Krefeld Entomological Society, entidade alemã que há anos vem estudando os insetos em todo o mundo. A Krefeld já tinha pronta uma pesquisa com dados de 63 reservas naturais do território europeu. E os resultados explicavam a redução de insetos pelas estradas e os para-brisas menos sujos.

Nos últimos 30 anos nada menos de três quartos da população de insetos do mundo desapareceram. Isso inclui principalmente insetos alados, como algumas espécies de besouros, abelhas, borboletas, grilos e gafanhotos. No geral, a média de extinção gira em torno de 76% e, no verão, quando deveriam ficar mais ativos, registram-se picos que alcançam 82% de insetos “ausentes”.

Outro cientista, Dave Goulson, da Universidade de Sussex, lembra que os insetos representam dois terços das espécies vivas do planeta. Diz ele: “Estamos tornando a Terra cada vez mais inóspita para a maior parte dos seres vivos. Os insetos estão em amplo declínio, e se forem embora de uma vez, tudo vai desabar. Estamos no limiar de um Armagedom ecológico” – afirma.

Não é preciso muita pesquisa para imaginar o terrível cenário previsto por Dave Goulson. Ora: além de polinizarem, os insetos fazem parte da cadeia alimentar dos pássaros e o “efeito dominó” se alastra de forma assustadora. No ano passado, descobriram mais um sinal de alerta nas reservas estudadas. Mesmo com a biodiversidade preservada nesses locais, o número de insetos extintos continua a crescer. De 1989 a 2015, já sumiram 80%.

De quem é a culpa? Não resta dúvida: os vilões já foram identificados. São eles: as variações climáticas das últimas décadas; a interferência do homem modificando o ambiente; o desaparecimento de áreas verdes; alguns vírus novos e - é claro – os agrotóxicos. A esses fatores ainda se somam a urbanização galopante das áreas rurais e o excesso de iluminação gerado pelas grandes cidades.

O caso das abelhas é particularmente apavorante. Elas são os agentes mais eficazes e perfeitos para a polinização, frequentando quase 100 tipos diferentes de culturas de alimentos. Assim como a maioria das frutas e vegetais – incluindo as maçãs, laranjas, morangos, cebolas, cenouras – as abelhas polinizam nozes, girassol, canola, café, soja, algodão e até alfafa, que é usada para alimentar o gado.  

O declínio das abelhas nos EUA, de cerca de 2,4 milhões de colmeias, começou em 2006. Um fenômeno apelidado de Desordem do Colapso da Colônia (CCD), fez sumir centenas de milhares de enxames. O Brasil também já vem sendo afetado de maneira alarmante.

Definitivamente, há algo de estranho no ar. Ou melhor: falta alguma coisa na ordem dos céus.

* Fernando Fabbrini é roteirista, cronista e escritor, com quatro livros publicados. Participa de coletâneas literárias no Brasil e na Itália e publica suas crônicas também às quintas-feiras no jornal O TEMPO.

EMGE

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