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17/12/2017 | domtotal.com

Jingle Bells at a shopping center

Porque a maioria dos anúncios em suas lojas, estão também em inglês: Sell, Off, etc?

As vitrines multicoloridas enganam os incautos transeuntes, que sonham em se apresentar como deslumbrantes príncipes e Cinderelas.
As vitrines multicoloridas enganam os incautos transeuntes, que sonham em se apresentar como deslumbrantes príncipes e Cinderelas. (Reprodução)

Por Evaldo D' Assumpção*

O título em inglês foi colocado propositada e provocativamente. Porque os nossos Centros Comerciais (vulgarmente conhecidos como como Shopping Centers), não podem ser denominados pelo idioma oficial do Brasil? Porque a maioria dos anúncios em suas lojas, estão também em inglês: Sell, Off, etc? Fico bastante incomodado com essa submissão, verdadeiro complexo de inferioridade dominando o povo brasileiro, em diversas áreas de atividade. Será que um idioma tão rico como o nosso, precisa de apêndices de outros idiomas para se fazer entender?

Mas vamos ao tema principal desse texto. Confesso que para mim os melhores dias e horários para passear pelos Centros Comerciais são aqueles em que as lojas estão fechadas, porém continuando iluminadas para atrair os consumidores. Gosto de ver as vitrines, na certeza de que não irei, nem terei oportunidade para comprar nada. Gosto de apreciar a criatividade dos profissionais vitrinistas, que são capazes de vestir os estáticos bonecos, com tal habilidade, que os transformam em verdadeiras damas e nobres exibindo padrões de elegância. Com isso, passam a ter o efeito das falsas iscas, aquelas que nos anzóis substituem as suculentas minhocas e minhocuçus por insetos de plástico multicolorido, enganando os pobres e famintos peixes que sonham com uma lauta refeição, mas avançam para a morte em fisgadas fatais. De forma idêntica, as vitrines multicoloridas enganam os incautos transeuntes, que sonham em se apresentar como deslumbrantes príncipes e Cinderelas, vestindo aquelas roupas expostas nas vitrines. E como estamos em tempos natalinos, tudo é feito de maneira ainda mais sedutora. Estrelinhas imitando flocos de neve, ideais para um país tropical como é o nosso, combinam com os obesos Papais Noéis vestidos com grossas roupas vermelhas, golas de pele, gorros peludos, brancas luvas e, “Rô! Rô! Rô!”, dando sonoras gargalhadas no trenó que jamais deslizará no asfalto esburacado de nossas ruas. Buracos que nunca são obturados pela municipalidade, muito mais preocupada com a visibilidade dos luminosos adereços e enfeites das ruas e praças. Como sempre, o cultivo da beleza é prioritário diante das necessidades funcionais e de segurança.

E as lojas de eletrônicos e eletrodomésticos? Estas sim, verdadeiras redes de arrastão para os peixes bípedes que transitam pelos corredores coloridos, iluminados e perfumados dos Centros Comerciais. Novos aparelhos de som, novas televisões, novos telefones celulares, novas geladeiras, novos, novos, novos, tudo novo, últimos lançamentos! Como é possível você, consumidor inteligente e de bom gosto, atualizadíssimo em todas as áreas, e que acabou de receber o 13º salário, pode continuar com aqueles equipamentos obsoletos, com quase um ano de uso, e que entulham seu apartamento alugado, ou a casa comprada através dos planos paternalistas do governo? Afinal você os comprou no Natal do ano passado e já é hora de trocá-los. Tudo em 12 pagamentos, para passar o ano inteiro relembrando suas ações inconsequentes numa semana pré-natalina. Ah! Existem também os créditos consignados, empréstimos com desconto automático em seus míseros contracheques. Juros nas alturas e dinheiro na mão!

Dia desses fui a um desses enormes e oníricos palácios encantados da sociedade consumista, em tempo de plena função, acompanhando minha esposa. Como costumo fazer, fiquei sentado num dos corredores enquanto ela percorria as lojas. Ali fiquei observando a multidão em movimentação frenética, alguns muito apressados, outros falando ininterruptamente em seus sofisticados celulares, fascinados pela telinha multicolorida. Curiosamente muitos só falam usando o sistema de viva voz, talvez para chamar a atenção dos circunstantes, mostrando que sabem falar e até conversar, apesar de toda a tecnologia colocada à sua disposição. De vez em quando passavam alguns tipos exóticos, exibindo estranhas vestimentas, maquiagens supercoloridas ou verdadeiras obras de arte moderna em sua cobertura capilar. Mas o que prendeu minha atenção foi uma família que sentou-se ao meu lado, carregada de sacolas com embrulhos para presente, comentando a reunião que tinham programado para comemorar o Natal e fazer a clássica trocar presentes. O marido ponderava que não deviam gastar tanto com os presentes, pois fulano e fulana só davam bugigangas inúteis. Já os presentes dados por cicrano, dizia ele, eram sempre de terceira categoria, tudo bem baratinho. A aquiescência era geral. Como chegou alguém que certamente esperavam, levantaram-se e saíram para prosseguir na “via crucis” típica da época natalina, buscando os presentes mais adequados para a tal reunião. Fiquei matutando: o Natal, para quem crê é a comemoração do nascimento do Menino Deus, do Salvador da humanidade. Para os que não creem, trata-se apenas de uma festa a mais onde comemora-se o que quiser, e na qual, por tradição, trocam-se presentes. E perguntei para mim mesmo: se as pessoas querem dar presentes, por que não o fazem para o aniversariante do dia, que mesmo não estando fisicamente presente entre nós, é muito bem representado pelas crianças carentes, abandonadas, hospitalizadas? E por que não pensam também nos idosos esquecidos em asilos, nas pessoas que não têm quem lhes dê carinho, afeto verdadeiro, atenção em sua solidão? Será que todos sabem que é alta a ocorrência de suicídios nessa época, exatamente porque é nela que mais dói a solidão e o abandono?

Quem sabe neste ano se possa fazer um Natal ligeiramente diferente? Fica a sugestão, juntamente com meus votos para um SANTO E FELIZ NATAL para todos!

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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