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18/12/2017 | domtotal.com

Futurismo

Quais habilidades você quer treinar? Quem você quer ser daqui a dois anos?

A tecnologia tem promovido avanços significativos no aprimoramento da inteligência artificial.
A tecnologia tem promovido avanços significativos no aprimoramento da inteligência artificial.

Por Rodrigo Miranda*

Vou tentar responder aqui a uma pergunta que, quando me questionam, sinto um frio na espinha: “o que você espera para o futuro do trabalho?” Prever o futuro sob qualquer ponto de vista é algo perigoso e nossa história está aí para nos lembrar de alguns prenúncios fracassados: três dias antes do crack da Bolsa de Valores de 1929, foi anunciado que as ações haviam atingindo um platô permanentemente alto e estável; Bill Gates, em 1994, via pouco potencial comercial para a Internet e houve até quem colocasse a mão no fogo ao garantir que se tratava apenas de um sucesso passageiro. Então, vamos conversar sobre um futuro mais palpável, cujos sinais já podemos observar. Assim, podemos nos preparar para as mudanças que estão por vir.

Aliás, já parou para pensar como os bancos mudaram? Quem tem mais de 30 anos, como eu, conviveu com filas enormes para fazer qualquer transação bancária. Com o tempo, apareceram os caixas eletrônicos, a internet se tornou um meio de realizar transações, os smartphones e seus aplicativos trouxeram a comodidade para um toque… hoje já temos bancos que não têm agências, basta mandar sua identidade digitalizada e pronto: um cartão de crédito chega em sua casa em poucos dias.

Esse é apenas um exemplo de vários e mostra, claramente, que a tecnologia é o agente responsável por essas mudanças. Na área da computação, ela tem promovido avanços significativos no aprimoramento da inteligência artificial (IA). As IAs são especialistas em realizar tarefas padronizadas e repetitivas (estruturadas), o que acaba por possibilitar a automatização de várias funções. Aliás, quando foi a última vez que você foi atendido por um atendente telemarketing humano? Ou já observou como nos estacionamentos e mesmo em pedágios as cancelas são automáticas? Além dessas, é fácil pensar em outras funções que poderão ser substituídas pelas IAs, como motoristas, vendedores e mesmo os médicos… Se ainda não acredita em mim, procure a Narrative Science que usa IA para escrever artigos para portais, como a Forbes por exemplo.

Inclusive, uma pesquisa realizada em 2013, pela University of Oxford, examinou como os trabalhos estão suscetíveis a automatização, ou seja, serem substituídos por IA. Uma das conclusões é que 47% dos trabalhos analisados têm uma alta probabilidade de desaparecerem entre 10 a 20 anos!

É fato que estamos vivendo um momento de mudanças bastante significativas. Só que estas mudanças estão acontecendo muito rapidamente, diria até que, além de rápidas, estão aceleradas! O que me leva a acreditar que não estamos presenciando apenas uma era de mudança, mas também uma mudança de era. Passamos pela era digital que, com o advento da internet, mudou completamente a sociedade, possibilitando maior acesso a informação. Hoje, já vivemos um momento que o mundo digital deixou de amedrontar e passou a ser cotidiano. A nossa era tem sido aclamada como pós-digital o que, na minha opinião, mais do que uma mudança social é uma mudança da condição humana… já parou para pensar que existem gerações que não conhecem o mundo sem internet?!

A Teoria das Mudanças Aceleradas descreve um crescimento exponencial do progresso tecnológico. Sempre que uma tecnologia encontra algum tipo de barreira, uma nova tecnologia vai ser inventada para que possa atravessar essa barreira. Em termos práticos, hoje, a cada dois dias, a humanidade cria mais informação do que o total somado dos 100 mil anos de civilização até 2003. Além disso, o custo financeiro da tecnologia reduziu sensivelmente em um curto prazo de tempo; por exemplo, o custo para o sequenciamento do DNA humano caiu em 10.000 vezes em 7 anos! E quais as consequências desse progresso tecnológico? Nos últimos 50 anos, a expectativa de vida aumentou em 25 anos, ocorreu um aumento na renda financeira (apesar da população ter aumentado em dois bilhões de indivíduos), o analfabetismo caiu de 50% para 25% da população mundial…

Enfim, como encarar essa evolução tecnológica, principalmente a inserção de IA nos postos de trabalho? Consideramos um futuro apocalíptico ou um futuro abundante? Eu sou um entusiasta do futuro abundante. Um mundo onde a impressora 3D poderá imprimir órgãos humanos e aparelhos nos auxiliarão em nossa saúde e segurança.

Você pode estar se perguntando: “qual vai ser o diferencial do ser humano?”. A resposta não poderia ser mais simples… SER humano. Naquele mesmo artigo que aponta a extinção de determinados trabalhos, também há a descrição das principais características que reduzem a possibilidade de outros trabalhos não desaparecerem. Trabalhos que exigem habilidades descritas como percepção, sociabilidade e criatividade. Essas são características que o computador ainda não consegue realizar.

Infelizmente, ainda convivemos em um sistema educacional criado na época da revolução industrial, que tinha como objetivo criar mão de obra para suprir a demanda das indústrias nascentes. Um sistema que teve sua importância, mas que mudou muito pouco desde então. Ainda hoje, é um sistema concebido para funcionar de maneira linear e padronizadora, com objetivo de formar alunos idênticos, todos com os mesmos conhecimentos. Além de nivelar por baixo, esse sistema é justamente o contrário do que o mundo precisa hoje: criar pessoas diversas para resolver os problemas diversos.

Pense que, ainda nos dias de hoje, os testes de QI ou os testes de inteligência são baseados em raciocínio lógico-matemático, linguístico e espacial. Gardner, em seu livro “Estrutura da Mente”, descreve a teoria das inteligências múltiplas que, além das três citadas, ainda aponta as inteligências: emocional, social, corporal-cenestésica e musical.

Aqui cabe uma reflexão, será que, na verdade, grande parte das empresa e empregos são mais o passado do que o presente? E muito do que dizemos hoje como futuro não seria o presente? Então, gostaria de mudar aquela pergunta com a qual abri o texto para: “estamos nos preparando para o futuro ou para o passado?”. E se as profissões de hoje forem habilidades de amanhã? Afinal, datilógrafo já foi profissão. E não vejo uma hiper-especialização como alternativa, pois penso que uma rede colaborativa associada a uma IA pode gerar resultados melhores do que essa alternativa. Provavelmente, os prêmios Nobel do futuro serão ganhos por redes colaborativas integradas com redes de IA.

Tudo isso me faz acreditar que o aprendizado contínuo se torna imprescindível e, dentro de um contexto mais amplo, as habilidades do futuro que precisam ser trabalhadas são as interpessoais, intrapessoal e criatividade. Além disso, é preciso que nos adaptemos a tecnologia. Como dizia Toffler, “O analfabeto do século 21 não será aquele que não consegue ler e escrever, mas aquele que não consegue aprender, desaprender e reaprender”. As habilidades interpessoais estão ligadas com a inteligência social, pois é ela que te permite trabalhar em equipe, ter empatia ou mesmo saber negociar. Já as habilidades intrapessoais estão intimamente ligadas a sua inteligência emocional, já que ela define o quão bem você está resolvido. O patinho feio dessa história são as habilidades criativas, já que muitas pessoas não a buscam por puro preconceito. E a criatividade é uma habilidade para resolver problemas… Se você precisa resolver problemas novos, a criatividade é a chave para novas soluções. Eu procuro sempre lutar contra a fixação profissional e tento buscar o Conhecimento em Formato T que, simplesmente, consiste em buscar a especialização da minha área juntamente com o conhecimento de outras.

Acredito que, no futuro, iremos trabalhar com sistemas cada vez mais complexos e isso vai abalar os sistemas hierárquicos. Conseguimos observar organizações menores tendo tanto ou mais sucesso do que empresas grandes, que acabam sendo lentas. Cada vez mais, as empresas percebem isso, até mesmo as indústrias caminham para esse lado. Não é à toa que vemos empresas como a Vale e Votorantim implementando projetos startup dentro de suas organizações. Precisamos mudar essas concepções ainda atuais de trabalho para lidar com os sistemas complexos. “Ser bem-sucedido” não pode mais ser sinônimo de “entrar em uma grande empresa e trabalhar lá até aposentar”. A tendência atual é termos organizações cada vez menores, com agentes livres que fazem o que faz sentido naquele ciclo de aprendizado. Possivelmente, em um futuro muito próximo, teremos cada vez mais profissionais liberais e menos empregados com trabalhos fixos registrados na carteira de trabalho.

No meu caso, já não me cabe mais dizer: sou engenheiro químico. Agora estou professor, amanhã estarei como pesquisador e, quando visitar meu cliente, estarei como engenheiro. Mas, para atingir isso, devemos parar de nos perguntar: “o que eu preciso?”; e buscar: “o que quero alcançar?”. Se não sabemos o que queremos atingir não tem como saber como chegar. Estamos mais preocupados com o currículo do que com o nosso potencial. Seu currículo fala do seu passado, mas depois disso o que pretende fazer? Quais habilidades você quer treinar? Quem você quer ser daqui a dois anos? Qual seu sonho? E a cada passo que damos para atingir nossa essência nos tornamos únicos e incopiáveis.

Vamos lembrar que, 30 anos atrás, quando se criou o estatuto do idoso, imaginou-se a velhice aos 65 anos de idade. Hoje, eu espero viver bem até os 85 anos. Mas daqui a 30 anos? Talvez os mais jovens estarão falando de 110 anos! Aliás, antigamente, era notícia do Fantástico quando se encontrava algum centenário. Hoje em dia, não é nada difícil encontrá-los. Ou seja, cada vez mais estaremos trabalhando por mais tempo. E, infelizmente, a maioria das pessoas trabalha oito horas por dia, no emprego que odeia, em uma empresa sem propósito, com um chefe que não admira, para ganhar mais do que precisa, com o objetivo de comprar coisas que ela não necessita, para impressionar pessoas que ela não gosta…

*Rodrigo Miranda é mestre em engenheira química pela UFMG e sócio fundador da Optimus Engenharia. Tem mais de 10 anos experiência com pesquisa e trabalho na áera industrial, principalmente em inteligência artificial. Também é professor universitário, incentivando o empreendedorismo e a criatividade na engenharia e buscando uma maior interação universidade-empresa. Contato: rodrigo@optimus.eng.br | www.optimus.eng.br

EMGE

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