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02/01/2018 | domtotal.com

Vem ai uma verdadeira revolução

Queremos tratar de mudanças que transformarão radicalmente nossa realidade em um prazo de aproximadamente 5 anos.

A tendência de descentralização da produção para auto-produção se mostra bastante promissora.
A tendência de descentralização da produção para auto-produção se mostra bastante promissora. (Reprodução)

Por Mateus Bernardes* e Jose Antonio de Sousa Neto**

Vamos conversar aqui sobre o futuro da energia e dos meios de transporte. Quando dizemos futuro, não nos referimos  a um período de 50 anos daqui pra frente. Queremos tratar de mudanças que transformarão radicalmente nossa realidade em um prazo de aproximadamente 5 anos.

Antes disso, voltemos nosso olhar algumas décadas atrás.  A foto abaixo, da esquerda, é a cidade de Nova York em 1900. Nossa sociedade usou cavalos como principal meio de transporte por centenas de anos. Nessa mesma foto, temos apenas um automóvel à combustão, que marcamos propositalmente de vermelho. Menos de 15 anos depois, em uma foto também de Nova York, à direita, podemos ver a grande diferença. Nova York passou de um contexto de apenas um carro (foto da esquerda) para praticamente 100% carros (foto da direita) em apenas 13 anos. Isso é o que chamamos de disrupção tecnológica.

Nova York, 1990                                                                                  Nova York, 1913


Dado essa rápida ilustração de disrupção tecnológica, podemos agora citar outros exemplos de situações interessantes ao longo da história. Em 1985 a maior empresa de telecom do mundo,  AT&T, teve acesso ao que chamaram, na época, de telefone celular. Eles contrataram uma grande consultoria que lhes fizessem uma previsão de adoção daquele produto pela sociedade. Segundo a consultoria, seriam necessários 15 anos para que o número de usuários de celular chegasse a 900.000. Bom, não é difícil imaginar que a previsão estava subestimada. O número apurado foi 109 milhões de usuários nos anos 2000. Isso nos mostra o poder e velocidade em cenários que temos tecnologias disruptivas. Em outras palavras, significa enormes oportunidades para empresas globais (de todos os tamanhos incluindo Startups), mas também potencialmente fatais para empresas que param no tempo.

Um clássico exemplo desse último caminho é a Kodak.  O ano 2000 foi o ano recorde para o setor de fotografia ao redor do mundo todo. Em vários aspectos, como vendas, lucro e número de fotos impressas. Apenas 12 anos depois, a Kodak decretou falência, pois a maior fabricante do mundo de papéis fotográficos, não soube  acompanhar a curva de disrupção proporcionada pela câmera digital. Assim surge uma curiosa pergunta: porque grandes empresas globais fracassam em antecipar disrupções no mercado? Vamos comentar algumas questões relacionadas antes de mergulharmos das disrupções no mercado de energia e transporte.

A primeira questão a observarmos é a curva de custo de novas tecnologias. Por exemplo, vamos pegar a base teórica da Lei de Moore, que postula que a capacidade computacional duplica a cada 2 anos no mundo. Isso é a mesma coisa de dizer que com o mesmo dólar, você consegue 41 % a mais de rendimento a cada ano. Se pegarmos o Iphone atual de $600, este tem a mesma capacidade computacional de um hardware de 20 anos atrás que custava $600.000, e a mesma capacidade de um computador de 40 anos atrás ao custo de $600 milhões de dólares. Pois é, esse é o poder de tecnologias que melhoram exponencialmente.

No mercado de energia, temos algumas curvas de custo de tecnologias que possibilitam disrupções. Dois importantes exemplos são: baterias de íon-lítio e as células fotovoltaicas. Para entender melhor como essas disrupções acontecem, quero falar sobre o conceito de Convergência Tecnológica. Os paradigmas tecnológicos acontecem quando temos, não somente, uma tecnologia melhorando, mas sim várias outras convergindo. Por exemplo, o sucesso transformador de uma era de smartphones e aplicativos só foi possível porque tecnologias como rede de dados, baterias, novos materiais condutores, caminharam para o mesmo norte. Mais do que isso, para realmente ter sucesso financeiro no mercado, aliado a todas as tecnologias, as empresas precisam ter um modelo de negócios vencedor. Em resumo, todos esses fatores convergindo nos mostram curvas exponenciais de custo em contextos disruptivos, e não modelos lineares como se faz na maioria das previsões tradicionais. Podemos citar empresas que fazem isso muito bem, como Uber e Airbnb, que por sua vez tiram vantagem de mercados costumeiramente ineficientes.

Assim sendo, apresentaremos a seguir tecnologias combinadas com modelos de negócio que estão rompendo com os paradigmas atuais do mercado de energia e transporte. As razões para essa expectativa são puramente econômicas.  A primeira tecnologia é a bateria de íon-lítio. Essas melhoraram em termos de performance 14%-16%  ao ano desde 1995. Perceba que essa evolução possibilita o avanço tecnológico de indústrias bilionárias como a telefonia, computação e mais recentemente, a de automóveis com o carro elétrico (EV). Esse último merece nosso destaque, pois o carro elétrico é disruptivo em muitas dimensões. No aspecto ambiental, o veículo se mostra como eco-friendly, com impacto zero na poluição do ar. No lado de performance, os motores elétricos são 4x mais eficientes quando comparados com o de combustão interna.. E por fim, na dimensão de custos, essa tecnologia proporciona uma redução de até 10x o custo de manutenção e operação por quilômetro rodado. Por todos esses fatores, concluímos que a indústria automobilística está na iminência de uma verdadeira revolução. Se vamos ter veículos com 250 peças e não com mais de 3000 como em um carro tradicional a combustão e se somarmos a isso o fato que um veículo elétrico pode rodar até 1.000.000 de quilômetros contra uma média de 150.000 quilômetros (e olhe lá, dependendo da marca...) de um veículo tradicional, já imaginaram o impacto disso na cadeia de valor de todo o setor automotivo? Imaginem como isto vai impactar os fornecedores de peças! E as redes de concessionárias?  E olhem que não falamos ainda sobre os veículos autônomos em um contexto de transporte compartilhado.

A segunda tecnologia disruptiva nos mercados de energia e transporte é exatamente a automação de veículos ou veículos autônomos. Trata-se de uma realidade em alguns países asiáticos e o futuro próximo no ocidente. A base por de trás dessa tecnologia está no grande avanço em inteligência artificial e machine learning. A ciência nesse campo cresceu nos últimos 5 anos mais do que todos os últimos 30 anos somados. Ou seja, estamos caminhando a passos largos para transformar esse mercado, com menos carros na rua e mais segurança. Sabe-se que uma família que possui um carro, utiliza-o em média apenas 4% do tempo. Não é difícil imaginar que existe uma grande oportunidade de melhoria de eficiência nesse modelo sistêmico. Não teremos dúvida no futuro sobre os benefícios do carro elétrico e autônomo, mudando assim o nosso modelo mental da posse para o uso. Os impactos também serão sentidos em setores correlatos. Por exemplo, como ficaria o setor imobiliário que oferta grandes áreas de estacionamento urbano? E o setor de seguros? E o mercado de vendas de carros usados? Não temos todas as respostas ainda, mas com certeza sabemos que o mercado não será o mesmo. Em outras palavras vamos ter uma inversão! Teremos neste caso menos veículos nas ruas. O planejamento e a engenharia das cidades terão parâmetros diferentes. Vão sobrar vagas nos estacionamentos daqueles que imaginavam ter uma renda garantida e “tranqüila” para sempre. No mercado imobiliário áreas vazias nas cidades que terão de buscar nova aplicação econômica e/ou social.

Por fim, vamos falar sobre a tecnologia disruptiva associada a energia solar. Trata-se uma matriz energética antiga e cada vez mais barata. Em 1970, uma unidade produzida custava em torno de $100. Atualmente, esse custo está próximo de $0,30. Isso é uma melhora de 300x. Nesse ritmo, a adoção desse tipo de tecnologia para geração de energia atingirá sua plenitude por volta de 2030. Isso é incrível! Quando comparada com outras fontes energia, por exemplo, carvão e petróleo, a energia solar está se tornando cada vez mais competitiva. Já parou para pensar que esse fato tem potencial para causar uma transformação geopolítica no mundo também?  A tendência de descentralização da produção para auto-produção se mostra bastante promissora. O paradigma de armazenar a energia solar produzida vem sendo rompido, deixando assim o modelo tradicional de geração + transmissão caro e pouco competitivo.  A tecnologia de blockchain que já é usada para criptomoedas também permite um eficiente sistema de geração e compra de energia descentralizada. Usinas peakers (utilizadas em momentos de pico de consumo) e que normalmente levam anos para serem construídas e produzem uma energia cara e poluente (por serem a gás na melhor das hipóteses ou a óleo ou carvão na pior) começam a ser substituídas nos EUA por usinas combinando geração fotovoltaica com armazenamento em baterias com novas tecnologias.  Recentemente uma foi construída nos EUA em menos de 90 dias com custos competitivos e como uma exemplo de referência do que é realmente engenharia sustentável.

E as várias tecnologias visitadas nesse texto representam apenas 1% de um mercado global. Talvez em alguns países, como Austrália e Alemanha, esses números cheguem a 30%. Por essa razão, alguns analistas mais conservadores desacreditam que uma verdadeira revolução acontecerá. Eles provavelmente estão enganados, pois não estamos falando aqui de uma transição, mas sim de uma disrupção, sendo que essa acontece muito, mas muito rapidamente. O ponto de inflexão dessa curva está prestes a acontecer, novos mercados surgindo e um novo profissional também será demandado. Engenheiros, cientistas, pesquisadores, com competências e atitudes cada vez mais alinhadas como esse novo mundo.

Para acesso ao vídeo inspirador desse texto, clique aqui:

Texto adaptado da palestra de Tony Seba: Clean Disruption - Energy & Transportation, em junho de 2017.


* Mateus Bernardes é empreendedor, engenheiro de produção pela UFMG, pós graduado em gestão com ênfase em finanças e mestrando em administração. Leciona também na EMGE disciplinas de Empreendedorismo, Estatística e Probabilidade.

** Jose Antonio de Sousa Neto é professor da EMGE


Agência Estado

EMGE

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