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09/01/2018 | domtotal.com

Bitcoin. Bom para você? Bom para o planeta?

Com a velocidade de adoção atual, calcula-se que em 2020 a mineração Bitcoin exigiria toda a energia gerada no planeta.

As cripto-moedas não possuem valor intrínseco, da mesma forma que as cédulas de papel não o têm. O que importa aqui é o contexto do mercado.
As cripto-moedas não possuem valor intrínseco, da mesma forma que as cédulas de papel não o têm. O que importa aqui é o contexto do mercado. (Reprodução)

Por Euler Timóteo Alves* e Jose Antonio de Sousa Neto**

Antes de tudo, tenha em mente que o Bitcoin é a mais antiga moeda digital atualmente em uso, mas não a única. Não foi a primeira, mas tem sido a de maior durabilidade e também a de maior valor de mercado. Além do Bitcoin existem 1.354 cripto-moedas[1], cryptocoins, sendo negociadas ativamente em dezembro de 2017. São também conhecidas como alt coins, moedas alternativas, por se tratarem de uma opção ao Bitcoin. No entanto, existem mais de 4.541 cripto-moedas[2] documentadas. A maioria destas moedas é pública, isto é, seu conteúdo não é protegido por senha. Através do endereço de uma transação, public key, você pode consultar livremente seus valores. No entanto, para movimentar seu conteúdo, é preciso possuir o endereço privado respectivo, private key, e em determinados casos a senha associada.

Pelo mesmo motivo, novamente ao contrário do que se divulga, as transações envolvendo a maioria destas moedas não são anônimas. São pseudônimas. Todas as transações são públicas e cada fração de moeda pode ser rastreada a cada movimentação até o ponto de sua criação. O desafio está em ligar o pseudônimo ao operador de carne e osso. Só é preciso que uma única operação seja associada a uma identidade real para descobrir a pessoa por trás dela. São poucas as cripto-moedas com elevado grau de anonimato.

A grande inovação das cripto-moedas está na tecnologia da blockchain, ou corrente de blocos em tradução livre. A blockchain envolve todas as cripto-moedas:

Criptografia assimétrica. A criptografia assimétrica envolve uma chave pública, public key, que pode ser abertamente divulgada, e uma chave privada, private key, que deve ser mantida secreta e é frequentemente protegida por senha adicional. Os públicos das cripto-moedas podem ser livremente divulgados e qualquer um pode enviar valores para eles. O endereço privado, no entanto, serve para “sacar” valores ali armazenados.

Sistema descentralizado p2p, peer-to-peer, ou ponto a ponto. Não há um servidor central de blockchain. Não existe um provedor ou data center a ser desligado. Basicamente, todos usuários do sistema hospedam partes ou toda a blockchain. Para impedir o uso de uma cripto-moeda, é necessário bloquear cada um dos seus usuários.

Registro irreversível. Todas as transações, partindo da primeira desde a criação da moeda, são armazenadas irreversivelmente nos blocos de registro, à semelhança de um livro contábil, ledger, que apenas cresce. Não há possibilidade de apagar uma transação. Existem somente movimentações.

Validação descentralizada. As transações quando criadas ficam temporariamente “pendentes” até que determinado número de usuários as “assinem” como válidas. Isto impede a falsificação de transações. Um bloco da blockchain é na verdade um grupo de transações assinadas.

As cripto-moedas não possuem valor intrínseco, da mesma forma que as cédulas de papel não o têm. O que importa aqui é o contexto do mercado. Você não irá conseguir fazer compras no supermercado usando uma lâmina de ouro, ou cédulas de yen, ou cartão de crédito quando as máquinas não estiverem funcionando. Da mesma forma é impossível fazer compras na internet quando tudo o que você possui são cédulas de reais. Se um meio de troca não é aceito naquele mercado, ele não possui valor neste mercado. Se você oferecer a lâmina de ouro para o gerente deste supermercado será diferente. Para ele, não para o supermercado, ela terá valor e certamente ele ficará feliz em conceder-lhe crédito que envolva algum ágio equivalente ao risco da operação que está se envolvendo.

O Bitcoin surgiu como uma experiência entre “nerds” da informática e não possuía qualquer valor de troca. Com o passar do tempo, curiosos começaram a trocar por dinheiro real o privilégio de ser detentor deste indicador. Em 18 de maio de 2010, Laszlo Hanyecz colocou um anúncio oferecendo a transferência de 10.000 Bitcoins para qualquer um que lhe comprasse duas pizzas em Jacksonville, Florida. O anúncio histórico pode ser visto em https://bitcointalk.org/index.php?topic=137.0.

Nos dias atuais, as cripto-moedas são majoritariamente especulativas. Seus valores em moeda corrente sejam em reais, dólares, yens ou mesmo outras cripto-moedas, são determinados pelas trocas feitas em bolsas de valores virtuais. Você faz uma transferência de dinheiro corrente, reais, por exemplo, para a conta bancária da bolsa, seja no Brasil ou no exterior. Em troca, a empresa registrará um crédito equivalente em seu sistema informatizado, site ou aplicativo, para que você negocie suas próprias trocas com outros usuários. O contrário ocorre quando você decide sacar este crédito, uma vez que tenha liquidado suas cripto-moedas. A empresa depositará na sua conta bancária o valor correspondente. Desta maneira o Bitcoin chegou em passado recente próximo de US$ 17000 sendo negociado em bolsas brasileiras próximo de R$  57.400. O equivalente pago por aquelas duas pizzas valeriam 574 milhões de reais se negociado hoje.

Na maioria dos países estas operações são conduzidas por empresas de tecnologia da informação e não são reguladas, ainda que legais, o que significa que não envolvem pagamento direto de impostos e possuem pouca ou nenhuma proteção contra perdas financeiras. No entanto, ao longo de suas existências, os roubos registrados não têm sido de dinheiro real, mas de cripto-moedas. Estas bolsas vão à falência devido à capacidade limitada de restituírem tão somente parte dos valores em moeda corrente, pois, como esperado neste tipo de negócio, fazem seus próprios investimentos em outras bolsas e porque seus usuários também fazem depósitos não somente em dinheiro real, mas também em cripto-moedas.

Além das vantagens óbvias como investimento especulativo e seus riscos inerentes e adicionais, as cripto-moedas podem ser vantajosamente utilizadas como meio de remessa internacional de valores, dentro dos parâmetros certos. É preciso que seja possível adquirir a cripto-moeda que será usado como ponte no país de origem. É preciso que seja possível vender esta cripto-moeda, ou outra negociada intermediariamente, no país de destino. E é preciso que os valores finais sejam vantajosos. Alguns países já regulamentam sua negociação como ganho de capitais e por isso sujeitam-na a recolhimento de impostos. Há que se lembrar que a venda e compra de cripto-moedas, bem como o depósito e saque de moeda corrente, envolve taxas e tarifas. As transações puramente de cripto-transferências também possuem um custo matemático, algumas vezes desprezível.

Frequentemente sua oscilação de valor é muito maior que a flutuação cambial, o que implica em maior risco, mas permite uma margem maior para absorver os gastos adicionais, além do fato de que você é o detentor de toda a operação, sem uma agência de câmbio ou banco como intermediários. O risco é seu tanto quanto os ganhos. O benefício social das cripto-moedas é algo inesperado. Elas não são controladas de forma centralizada ou por agentes governamentais. Assim, não sofrem com manobras econômicas e políticas.

Diante da recente crise da Grécia, seus bancos limitaram amargamente os saques da população, tanto devido ao fato de que não teriam dinheiro para atender a todos quanto para evitarem a desvalorização da moeda. Foi quando alguns recorreram a caixas eletrônicos de cripto-moedas instalados estrategicamente por ocasião do ocorrido. Estes caixas, de empresas não financeiras, algumas vezes de propriedade privada, já existem em diversos países. Há relatos semelhantes na Venezuela. Quando o governo impossibilitou o câmbio internacional e a inflação consumiu totalmente o valor da moeda, famílias que resolveram deixar o país puderam levar parte de seu patrimônio na forma de cripto-moedas.

Elas não surgem do nada. Apesar de algumas poucas serem pré-programadas, a maioria é criada através de mineração, mining, um processo matemático que usa poder computacional para resolver uma fórmula criptográfica tão complexa que a forma mais rápida de encontrar sua solução, que envolve números primos extremamente grandes, é através de tentativa e erro. Em outras palavras, força bruta, brute force. Vários mineradores, miners, executam algoritmos de teste em busca da solução. Quando um minerador encontra o nounce, ele recebe uma recompensa por isso, que serão novas cripto-moedas no sistema. O nounce é usado para validar um bloco de transações juntamente com as novas moedas. Contando com a evolução constante dos equipamentos de computação, a cada determinado número de blocos validados, consequentemente, a cada número de nounce encontrados, a dificuldade é aumentada, exigido mais poder computacional.

Devido à popularidade do Bitcoin, a dificuldade atual encontra-se tão grande que somente hardware altamente dedicado é capaz de minerá-lo de forma viável, o que significa que o valor negociado pelas moedas geradas é marginalmente superior ao dinheiro gasto com eletricidade e equipamento. Estes equipamentos ASIC (application-specific integrated circuit - circuito integrado para aplicação específica) são incapazes de executar outro algoritmo além do que o desenhado em seus circuitos. Um ASIC para determinada cripto-moeda só funciona com outra de algoritmo idêntico. Assim, quando uma cripto-moeda deixa de existir por qualquer que seja motivo, estes super-computadores não servem para nada mais. Não poderão ser usados para sequenciamentos genéticos, pesquisas moleculares, cósmicas, procurar vida extra-terrestre, estudar o bóson de Higgs ou encontrar a matéria escura. Não servirão sequer para uma partida de xadrez. Não existe software que possa ser trocado, só existe hardware, e ele não faz outra coisa. Eles se tornarão simplesmente lixo tecnológico. Não bastasse o desperdício de recursos, estes aparelhos utilizam elementos químicos tóxicos em sua construção, como qualquer computador, causando impacto ambiental para serem construídos, para serem utilizados e para serem descartados.

Estima-se hoje que são utilizados mundialmente 32 TWh[3] de energia elétrica por ano para a mineração de Bitcoins. Para se ter ideia, a usina de Itaipu é capaz de gerar 122 TWh. Cada transação causa um impacto de carbono, carbon footprint, liberadas no ar por ano para gerar números digitais sem qualquer utilidade intrínseca. Observe que estes números refletem somente a produção de energia elétrica, sem levar em consideração a massiva quantidade de calor gerado. Cada transação Bitcoin gasta 235 kWh de energia elétrica para ser validada, o suficiente para manter-se uma casa em funcionamento por nove dias.[4] É uma corrida sem vencedor. O algoritmo de mineração garante que quanto mais rápido seja executado, maior a dificuldade, assim cada bloco levará sempre 10 minutos para ser solucionado, não importa quanto mais rápida seja a tecnologia da época.

Alguns países já lidam com problemas de racionamento e elevação de tarifas. Com o Bitcoin valorizando astronomicamente, os custos para sua geração caem, o que levará ao surgimento de mais mineradores, acréscimo de equipamentos e a consequente elevação do consumo mundial de energia.  No momento, para cada dólar gasto com energia dirigida a mineração, são gerados 10 dólares em Bitcoins.[5]

Há argumentos frágeis que comparam estes gastos energéticos com a extração do ouro e produção de outros commodities. No entanto, é muito claro que o ouro resultado deste gasto tem inúmeras aplicações tecnológicas e médicas além do valor financeiro. O que se pode fazer com um Bitcoin, além de trocá-lo de mãos? Com a velocidade de adoção atual, calcula-se que em 2020 a mineração Bitcoin exigiria toda a energia gerada no planeta. Obviamente, muito antes disto acontecer, os custos elevados o tornarão desinteressante, eliminando-o por final. Ainda que o Bitcoin esteja fadado a desaparecer no longo prazo, suas alternativas são mais resistentes ao tempo, certamente mais verdes e candidatas certas a prosperar.

O algoritmo de mineração por prova de trabalho, proof-of-work, descrito anteriormente como energeticamente ineficiente, foi melhorado como proof-of-stake, ou prova de participação. Neste sistema os mineradores comprometem moedas de sua propriedade para a validação de um novo bloco. Como resultado da validação, recebem suas moedas de volta e uma remuneração repartida proporcionalmente ao valor comprometido. Aqui não há supercomputadores rodando 24 horas por dia a 14.000 PH/s (14 quintilhões de instruções por segundo, 14 x 1012, calculado como pode computacional mundial dedicado ao algoritmo BitCoin), causando a destruição de vales inteiros e até mesmo áreas agrárias para a construção de novas hidrelétricas. Infelizmente as moedas PoS (proof-of-stake) não são populares e correspondem a apenas 3% do mercado em valor investido. Um dos motivos está no poder econômico acumulado pelos pioneiros que investiram na mineração PoW (proof-of-work). Grandes negócios foram criados voltados para este mercado, como a venda e aluguel de equipamentos ASIC e poder de processamento. Seu maior capital está em Bitcoin e assemelhados. Quanto mais eles promovem a mineração PoW, mais estas moedas ficam populares, mais valorizam, e maiores são seus ganhos.

Até mesmo os desenvolvedores do Ethereum, atualmente uma cripto-moeda mineirada por PoW que tem desafiado a supremacia do Bitcoin, a segunda do mundo em valor global de mercado, pretendem trocar seu algoritmo para PoS em breve. É previsto que outros o seguirão num claro esforço de manter a moeda a prova do tempo (future-proof). Como é difícil eliminar o uso destas moedas antiecológicas devido à grande aceitação no mercado, recomendamos que se faça o mínimo possível de transações com elas. Pesquise sobre a origem do que está comprando, pois existem outros algoritmos além do PoS que não fazem uso de elevado poder computacional. Exemplos são o PoI (proof-of-importance), moedas pré-mineiradas e soluções mistas PoW/PoS que não são tão nocivas ao meio-ambiente. Algumas das cripto-moedas não PoW com maior valor de mercado são (acima de 40 milhões de dólares cada): NEO, Lisk, IOTA, NEM, BitShares, Dash, ChainCoin, BitcoinDark, Factom, Nxt, Peercoin, Pivx, Stellar Lumen. Suas posições estão constantemente mudando, portanto não é possível apontar uma líder. Guarde bem estes nomes e quando for possível escolher entre eles, faça a opção certa. Pelos seus filhos, pelo planeta.

[1]https://coinmarketcap.com/all/views/all/

[2]https://cryptocoincharts.info/coins/info

[3]https://digiconomist.net/bitcoin-energy-consumption

[4]https://arstechnica.com/tech-policy/2017/12/bitcoins-insane-energy-consumption-explained/

[5]https://digiconomist.net/bitcoin-energy-consumption

* Euler Timóteo Alves – Mestrando da FPL educacional

** Jose Antonio de Sousa Neto – Professor da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais)

EMGE

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