;
Religião

12/01/2018 | domtotal.com

Os perigos do dogmatismo patológico

No âmbito religioso, o dogma é entendido como verdades refletidas, fundamentadas, necessárias e reveladas pela divindade que norteiam os princípios e as ações dos crentes.

Teologia entende os dogmas como 'faróis' capazes de guiar a argumentação da fé como elementos basilares da 'revelação divina'.
Teologia entende os dogmas como 'faróis' capazes de guiar a argumentação da fé como elementos basilares da 'revelação divina'. (Reprodução/ Pixabay)

Por Daniel Couto*

“Aquele que começa a amar o cristianismo mais que a verdade irá depois amar sua própria seita ou igreja mais que o cristianismo, e terminará por amar a si mesmo mais que tudo.”
Samuel Taylor Coleridge, 1825
 

O problema do conhecimento é uma constante na investigação filosófica desde a antiguidade, tendo como representantes importantes Platão, Aristóteles, Descartes, Hume, Kant e outros filósofos que, em sua busca pelo “mecanismo do conhecimento”, desenvolveram o que chamamos hoje de “teorias epistemológicas”. Essas teorias nos apresentam possibilidades distintas, com suas análises argumentadas em um ou outro princípio, para compreender como os seres humanos conhecem o “mundo real” e, a partir disso, relacionam-se entre si e com o universo.

Leia também:

A pergunta por trás dessas investigações pode se desdobrar na seguinte indagação: podemos conhecer a verdade do(as) mundo/coisas? Teríamos dois caminhos diretos possíveis: sim, podemos conhecer a verdade; ou não, não conseguimos conhecer a verdade. Os filósofos e estudiosos que pensam na impossibilidade de conhecer a verdade do mundo são chamados, de maneira ampla, de céticos. Os céticos não são um grupo homogêneo, nem de opiniões infundadas, mas, em sua perspectiva, as coisas e o mundo não podem ser conhecidos pelos nossos aparatos cognitivos, seja porque estão inacessíveis; seja porque nossos sentidos estão constantemente nos enganando; seja porque nossa linguagem é incapaz de expressar a totalidade das coisas e só conseguimos pensar a partir da construção linguística. O ceticismo coloca o conhecimento em questão, e nos diz que não há uma verdade sobre as coisas, e, se há, ela não nos é acessível. Apesar dessa incapacidade, existem vertentes céticas que negam apenas a verdade, mas admitem “conhecimentos possíveis” ou “esferas inferiores de certeza”.

Em contrapartida aos pensadores céticos, temos os que assumem a responsabilidade com a certeza. A esse tipo de pensamento damos o nome de dogmatismo. Assim, a filosofia que argumenta a favor de uma verdade sólida e cognoscível, capaz de ser acessada pelos seres humanos a partir das suas capacidades sensoriais, cognitivas e intelectuais, ou pela “iluminação” de poderes superiores, coloca fundamentos chamados de “verdades” que, para a progressão dos sistemas desenvolvidos por eles, precisam ser tomadas como alicerces. As verdades não precisam ser, necessariamente, irrefletidas ou reveladas, mas, em grande parte, são tomadas como resultado da argumentação racional/investigativa.

Etimologicamente, a palavra dogma tem origem no termo grego δόγμα, que pode ser definido como “o que se pensa ser verdade”, aqueles fundamentos do “senso-comum” que se solidificam para estruturar o pensamento, ou o processo diferente, os princípios que subjazem às opiniões “comuns” e que são utilizados por todos como “verdade inquestionável”. No âmbito religioso, o dogma não é entendido como uma postulação inocente, mas como verdades refletidas, fundamentadas, necessárias e reveladas pela divindade que norteiam os princípios e as ações dos crentes. A teologia, no desenvolvimento de sua ciência, coloca os dogmas sempre em questão para que eles sejam “faróis” capazes de guiar a argumentação da fé como elementos basilares da “revelação divina”. Por outro lado, o dogmatismo filosófico, a partir do séc. XVIII, utilizou-se muito do “postulado da razão” para demonstrar que o ser humano, por sua capacidade racional e pela análise crítica, é capaz de acessar as verdades. Desta maneira, o dogmatismo não é, em si, algo ruim, mas tornou-se um termo pejorativo a partir da crítica de Kant e, em especial, uma enfermidade decorrente do fundamentalismo religioso.

As religiões possuem alguns dogmas que são necessários para o entendimento da fé, uma vez que o objeto principal da crença é o divino, um ser que em sua totalidade está além das categorias cognitivas humanas e, de alguma maneira, precisa de verdades sobre si para fundamentar a teologia. Acontece que esses dogmas são frutos de uma experiência antropológica, comunitária, vivencial do povo com a divindade. Tratando-se especificamente do cristianismo, algumas das verdades da fé são fruto da tradição milenar de escuta, reflexão e expressão da “Palavra de Deus”. Construídas com o tempo, questionadas, refutadas e defendidas pelos mais diversos teólogos, filósofos e crentes, inseridas em seu tempo e buscando responder problemas da “fé no mundo”, essas verdades são colocadas como “inquestionáveis”, mas não se tratam de monumentos expostos para a contemplação e a obediência, e sim fundamentos nos quais os fiéis podem buscar as respostas para as “grandes questões”[1]. Se os dogmas são “virtuosos frutos da fé”, o que torna, então, o dogmatismo uma enfermidade perigosa?

Atrelado ao fundamentalismo, alguns movimentos têm se agarrado aos dogmas de maneira irresponsável. Eles encontram no dogma uma “revelação inquestionável” e, tendo posse dessa “verdade irrefutável”, deixam de lado o processo de busca do conhecimento. Os dogmáticos patológicos chamam a seu favor essas “leis da fé” e ignoram toda a contextualização, toda a reflexão e pulsão da religião. Colocam o conhecimento dado como o único possível e perpetuam o ciclo autorreferencial quando utilizam os próprios dogmas, e a “solidificação deles pela história”, para justificar o dogma. Isso impede todo tipo de diálogo e, fechados em si mesmos, tornam-se intransigentes, totalitários, prepotentes e detentores da verdade.

Essa enfermidade é, claramente, contrária aos valores cristãos pregados no Evangelho, e se assemelha aos escribas e fariseus no movimento contra Jesus. Dogmáticos patológicos condenaram o Cristo à cruz, porque ele questionava os “valores” e algumas das verdades que eram para eles irrevogáveis. De certa maneira, Jesus questionava, argumentava, utilizava os mesmos pressupostos da fé judaica, para ressignificar a prática e a verdade do povo. Os dogmáticos, na contramão, negam o pluralismo e querem impor uma “doutrina oficial” e, convencidos da verdade, utilizam todos os meios possíveis para “eliminar o mal/mentira”. Fazendo a alusão com o “inimigo, pai da mentira”, como se fossem os autênticos combatentes da fé, esses movimentos recorrem à práticas de censura e repressão, para fazer valer a “verdade divina”.

Fica claro que esses “doentes religiosos” não entenderam a natureza dos dogmas, a natureza da igreja e a natureza da fé. Com o pressuposto de que a única oposição à verdade é a mentira (esquecem, por exemplo, do engano, do desconhecimento, da incerteza e etc), e a convicção inocente de serem os detentores da “verdade última do universo”, a ruptura que ocasionam na caminhada evangélica é significativa, tomando como estandarte uma fé simples, direta e “milagrosa”, e desconsiderando a multiplicidade da natureza humana e o mistério da divindade.

O dogmatismo é o nosso impulso primeiro, que desenvolvemos desde criança, como atitude de acreditarmos que o mundo é da forma como aprendemos, como nos disseram e ensinaram, sem que precisemos questionar, descontruir e reconstruir, colocar problemas temporais, implicar-se na vida comum e argumentar criticamente. Depois de muita caminhada alguns grupos querem o retorno de uma fé infantil, irrefletida e aderida sem críticas, em um tempo onde a igreja tem respirado os novos ares das janelas do Concilio Vaticano II e o impulso filosófico/teológico renascendo nas “grandes questões”. O dogmatismo patológico é o retrocesso no pensamento crítico da fé.

[1] Neste artigo chamamos de “grandes questões” as perguntas sobre: a natureza divina; a origem da vida; o sentido da vida/morte; e etc.

*Daniel Couto, Mestrando em Filosofia pela UFMG. É bacharel em Filosofia pela mesma instituição. É pesquisador nas linhas de filosofia antiga e medieval, retórica e filosofia da religião.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas