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Religião

12/01/2018 | domtotal.com

Fundamentalismo religioso: quando a fé se torna intolerante

O fundamentalista defende agressivamente sua verdade de fé cristalizada e imutável, fechada em sua própria auto interpretação doutrinária.

O fundamentalista contesta e rejeita o que não se encontra de acordo com o que ele acredita.
O fundamentalista contesta e rejeita o que não se encontra de acordo com o que ele acredita. (Reprodução/ Pixabay)

Por Alex Kiefer*

A pouco tempo dissertei sobre a questão dos direitos humanos e das suas relações com os aspectos religiosos, demonstrando a grande importância que as religiões possuem no que tange à promoção e salvaguarda da integridade física, mental e emocional do ser humano. Mas quando se trata de falar do indivíduo que desrespeita os valores religiosos do outro, alegando que a verdade de sua crença é superior e dominante, temos aí não só um ataque ao direito individual de liberdade de fé, mas a abertura a problemas mais complexos, como violência, discriminação, bulliyng e até conflitos armados. A este processo chamamos de fundamentalismo religioso.

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O fundamentalismo existe em praticamente todas as expressões religiosas da humanidade, mas não é um fenômeno causado pela instituição religiosa em si, mas sim pelo fiel. Ele está diretamente ligado a interpretação equivocada dos livros sagrados e das verdades da fé por parte dos indivíduos que praticam a religião, mais do que aos ensinamentos da própria religião. O fundamentalismo se encontra escrito na experiência do próprio fiel, que não consegue dialogar com outras formas de pensar, dentro ou fora do seu contexto religioso e, por isso, defende agressivamente sua verdade de fé cristalizada e imutável, fechada em sua própria auto interpretação doutrinária.

Atualmente, fala-se muito do fundamentalismo islâmico, mas não se pode esconder a existência de um fundamentalismo cristão, que se processa abertamente tanto no âmbito do catolicismo quanto do protestantismo, e tem sido muito observado no mundo, principalmente com o advento do protestantismo neopentecostal por toda a América.

O fundamentalismo cristão também surge da interpretação equivocada das próprias verdades da fé pelo indivíduo, que contesta e rejeita o que, segundo ele, não se encontra de acordo com o que acredita. De todo modo, não tem relação direta com o cisma ocorrido na Igreja Católica com a reforma protestante, uma vez que a união das igrejas cristãs em prol do diálogo é uma ação real e verdadeira.

Diariamente acompanhamos pela mídia as notícias de ataques a cultos religiosos por fundamentalistas cristãos. A sociedade brasileira tem sido impactada nos últimos anos por demonstrações de intolerância de grupos e ou indivíduos que, pretendendo-se superiores ou “mais abençoados e escolhidos por Deus”, provocam ataques a igrejas, centros espíritas e centros de umbanda e candomblé.

No Brasil, a triste realidade das relações conturbadas entre algumas igrejas e denominações religiosas dentro do próprio cristianismo tem exposto exemplos de intolerância que, na sua maioria, desrespeitam a própria natureza e elementos do culto. O caso mais famoso e que foi responsável por repercutir numa onda de intolerância se deu em 1995, quando o pastor da Igreja Universal do Reino de Deus, Sérgio Von Helde, chutou uma imagem de Nossa Senhora Aparecida durante um culto televisionado. Em janeiro de 2017, circulou pela mídia um vídeo no qual, durante uma cerimônia religiosa, na cidade de Botucatu (SP) uma pastora evangélica quebrou imagens religiosas de santos católicos, atitude esta que foi condenada por um Conselho de Pastores.

Um dos mais recentes, do final de 2017, mostrava um chefe do tráfico de drogas no Rio de Janeiro obrigando uma sacerdotisa da Umbanda a destruir as imagens e utensílios sagrados de seu próprio terreiro, alegando ser evangélico e usando o nome de Cristo para justificar o ato e punir a mulher.

Diariamente, fatos como estes chocam fiéis em todo o Brasil. Esta face destruidora do fundamentalismo religioso se processa tanto por parte dos cristãos que não aceitam as outras religiões como também daqueles que rejeitam a doutrina dentro do próprio cristianismo, por ignorância ou por terem pontos de vista discordantes.

Percebe-se que a questão doutrinal é ponto central na problemática do fundamentalismo cristão, principalmente no que tange à visão mais conservadora ou mais progressista que os adeptos têm de sua religião. Um exemplo disso vem a ser as formas de fundamentalismo encontradas em algumas correntes pentecostais e neopentecostais existentes dentro do catolicismo e do protestantismo. A não aceitação de algumas ideias ou práticas religiosas consideradas ofensivas à visão do fundamentalista são o motivo simples que dispara o confronto, que gera o ódio e a violência.

O neopentecostalismo, na visão de alguns fundamentalistas, deve se sustentar pela presença e atividade do Espírito Santo nas almas, que move ao encontro íntimo e pessoal com Jesus, mas extirpando-se formas exteriores de devoção que são consideradas por eles tradicionalistas e supersticiosas. Por isso, o fato de muitos cristãos católicos rejeitarem as concepções doutrinais da Nova Era e o diálogo inter-religioso que ela propõe, ou não aceitarem aspectos da religião popular cristã, que está muitas vezes imerso num universo mágico-religioso.

Nas igrejas evangélicas, principalmente nas neopentecostais, o ataque às formas exteriores de devoção popular está em primeiro lugar, combatendo o mal presente na veneração das imagens e nas formas de culto tradicionais das religiões africanas. Esta forma de rejeição e combate das tradições de matriz africana também se encaixa no aspecto do fundamentalismo cristão, uma vez que a presença de Jesus e muitos do ícones e preces católicas, como os santos e seus atributos, também se encontram nos cultos e doutrina da Umbanda.

O caráter segregador do fundamentalismo cristão não é muito diferente das outras formas de segregação religiosa que se observam em várias religiões do mundo, mas é totalmente incoerente com os ensinamentos de amor, perdão e libertação de Jesus de Nazaré. O importante aqui é salientar que o processo é demais complexo e, neste aspecto, se faz necessário um maior esclarecimento por parte dos líderes religiosos e das associações que congregam as igrejas cristãs, como o CONIC (Conselho Nacional das Igrejas Cristãs), que tem buscado uma maior unidade entre ambas, visando coibir os abusos e os erros doutrinais que alimentam o fundamentalismo. É uma tarefa árdua, porém possível.

*Alex Kiefer é doutorando em Ciências da Religião – PUC Minas.

EMGE

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