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Religião

12/01/2018 | domtotal.com

Fanatismo religioso: um fetiche

No fanatismo o que se cultua não é Deus mesmo, mas sim a religião.

Em nome de um deus, de uma igreja e de uma fé, o fanático busca impor aquilo que acredita para toda a sociedade.
Em nome de um deus, de uma igreja e de uma fé, o fanático busca impor aquilo que acredita para toda a sociedade. (Reprodução/ Pixabay)

Por César Thiago do Carmo Alves, fmi*

O fanatismo religioso tem se tornado cada vez mais explicito no cenário contemporâneo. Nota-se um apelo excessivo a Deus por meio da religião. Na verdade, o que se cultua não é Deus mesmo, mas sim a religião. Desse modo, pode-se perceber a força e influência que ela exerce sobre a vida das pessoas. Muitas são capazes de se desfazerem de bens necessários para sobrevivência simplesmente pelo fato de que o líder religioso aponta isso como o caminho para a prosperidade. Além da ideia da prosperidade, existiria algo que vincula a pessoa fiel de forma fanática à religião que está para além da prosperidade? Essa é a pergunta fundamental que se impõe para se entender o fanatismo que se descortina cada vez mais forte em nosso meio eclesial. Em busca da resposta para a pergunta que se impõe, faz-se necessário considerar dois aspectos. São eles: 1) psicológico; 2) sociológico.

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No aspecto psicológico, o fanático religioso tende a fazer da religião um fetiche. Atribui-se a elementos da religião forças mágicas. No âmbito católico isso é perceptível. Ultimamente, no Brasil, tem se voltado com muita força entre pessoas jovens, que não viveram o pré-Vaticano II, a ideia da missa em latim como a única e verdadeira forma de celebrar. A língua latina e o rito da celebração são envoltos numa aura que descredencia a beleza da reforma litúrgica postulada pelo Concílio Vaticano II (1962-1965). Nega-se até mesmo a obra graciosa do Espírito Santo no Vaticano II. Os jovens ministros ordenados que estão nessa linha, fazem dos paramentos seu fetiche. Busca-se nos armários das sacristias, paramentos utilizados anteriormente à reforma da liturgia. Isso sem contar o uso da batina. O que está em jogo aqui não são as roupas em si ou determinada forma de celebração. O que se questiona é o que está por trás de tudo isso. Numa rápida conversa com alguém que se insere nesse contexto religioso pode-se perceber que se fala muito de Igreja e sua estrutura, pouco de Deus e quase nada de comunidade e comprometimento com os mais pobres. Desse modo, a religião está acima do próprio Evangelho. Além disso, não se admite questionamentos. Afinal, o errado é sempre quem vai contra esses princípios. Ir contra eles é ser apóstata, herege!

Esse exemplo católico indica que o fanático religioso não está preocupado com Deus mesmo e as causas que o Evangelho propõe. O que está no imaginário são as fantasias. Essas fantasias do sagrado, por vezes, estão vinculadas à ideia de poder e de uma pseudo-segurança institucional. Assim, cria-se um deus segundo à nossa imagem e semelhança para satisfazer o prazer do fetiche. A fantasia religiosa levada ao extremo causa doença psíquica. Ou, ainda, a fantasia religiosa pode ser apenas a ponta do iceberg de algo mais sério, psicologicamente falando, que a pessoa trás consigo e que precisa ser trabalhada. Nesse sentido, é urgente a procura de um psicólogo para ser ajudada. O problema é que a pessoa fanática nunca admite essa doença. É como alguém viciado em alguma droga que afirma não estar no vício.

Do ponto de vista sociológico, o coletivo tende a influenciar no particular. As mídias católicas têm colaborado muito nesse campo. Ao exibirem programações com líderes religiosos profundamente fundamentalistas, as pessoas, consumidoras daqueles programas, vão sendo moldadas naquela perspectiva. Eles são tidos como gurus. São inquestionáveis. Suas palavras são palavras de salvação. Tudo o que vem desses lideres deve ser aplicado. Curiosamente, como no caso psicológico, uma vez que ambos os aspectos estão correlacionados, essas lideranças falam muito de instituição, pouco de Deus e quase nunca de comprometimento com os pobres e com a comunidade. O problema é que vão se formando legiões de seguidores que desejam impor determinadas visões que estão no lado contrário à proposta de Jesus.

Não se pode deixar de considerar que esse fanatismo tem repercussões na vida pública. Em nome de um deus, de uma igreja e de uma fé busca-se impor aquilo que se acredita para toda a sociedade. Desse modo, o que vai contrário ao que se professa como fé, não pode ser aceito pelo Estado. Assim, o fanatismo religioso tende a minar o Estado laico. Usa-se o bordão: “o Estado é laico, mas o povo não”. Por um lado, essa frase tem sua razão. O povo brasileiro em sua maioria é religioso. No entanto, nem todos acreditam da mesma forma. Esse bordão tem servido para promover a discriminação e o ódio e frear acesso a direitos para as minorias sociais. Portanto, urge a necessidade de salvaguardar o Estado da doença do fanatismo religioso para que todos e todas tenham acessos aos seus direitos, crentes e não crentes.

 Uma palavra de esperança. Mesmo em meio ao fanatismo, existem pessoas sérias nas igrejas, comprometidas com o reinado de Deus proposto por Jesus. Não estão pautadas no fetiche que as prendem cegamente à religião. Muito pelo contrário. São pessoas criticas a ela quando esta não está em consonância com o Evangelho. O Papa Francisco tem demonstrado o que significa ler o mundo através das lentes da Palavra de Deus e não por meio de fundamentalismos ou verdades que se tornaram caducas pelo fato de serem relativas. Desse modo, ele revela que a única verdade absoluta é Deus revelado por Jesus Cristo e as outras todas são passíveis de serem questionadas. Sinal de saúde religiosa.

*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas.

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