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Religião

12/01/2018 | domtotal.com

"Black Mirror": ficção científica com importantes questões morais

No mundo em rápida mudança em que vivemos, e os eternos enigmas morais de nossas vidas, não há fim no material interessante para as histórias do "Black Mirror".

As melhores histórias do seriado se basearam em uma pergunta ou sofrimento concreto.
As melhores histórias do seriado se basearam em uma pergunta ou sofrimento concreto. (Divulgação)

Por Jim McDermott

AVISO DE SPOILER: Caso você ainda não tenha visto a série, o texto contém spoilers.

O seriado de ficção científica da Netflix, "Black Mirror", inventou um nome para si mesmo imaginando distopias próximas ao nosso mundo de hoje. Seu impacto, no entanto, tem sido menos uma questão de pesadelos raramente conscientes sobre as implicações da tecnologia atual do que suas ideias sobre os medos e as aspirações da humanidade.

O seriado quer contar a história de um mundo em que as classificações das redes sociais se tornaram a moeda das classes e do acesso aos bens, e inclusive da tentativa de uma viúva em luto usando a presença on-line do marido morto para recriá-lo. As melhores histórias do seriado se basearam em uma pergunta ou sofrimento concreto: posso manter meus filhos seguros? Posso confiar no meu parceiro? Será que algum dia encontrarei a minha "metade da laranja" - e se a encontrar, o mundo nos permitirá sermos felizes? Esses contos da "Quinta dimensão" dos últimos dias podem ser sobre a vida humana mais atual, mas eles são sempre sobre a vida humana.

Ou assim se espera. Assistindo a temporada mais recente de "Black Mirror", que estreou em 29 de dezembro, o foco nem sempre é tão claro. Alguns dos seis episódios, incluindo o esquema de vigilância do monitor de bebê embutido chamado de "Arkangel" e o app de namoro extreme "Hang the DJ" se encaixam muito bem no Mirrorverse, ou na outra cara do espelho, atualizando e inovando os descontentamentos e pesadelos do mais profundo dos nossos anseios humanos. (Se você quiser apenas assistir um episódio este ano, assista: "Hang the DJ", tanto as atuações quanto a história de duas pessoas que se desejam um ao outro acompanhados dos algoritmos determinantes de relacionamento da sua sociedade podem oferecer um episódio atraente e doce).

"Crocodile" também se aproxima, desenhando a ideia de armazenamento de memória através da lente inesperada de ajustadores de sinistros de seguros para criar um fantástico Hitchcock-meets-O. A moralidade de Henry, um dos personagens, fala sobre as consequências aparentemente infinitas de uma terrível decisão.

Os outros episódios da temporada, porém, parecem deixar de lado qualquer exploração real da humanidade para explorar o tema de grandes instalações. Charlie Brooker, o criador do programa, tem sido fascinado pelas possibilidades de downloads de memória ou personalidade. E casado com preocupações profundamente humanas como o sofrimento, o medo ou o amor, esse interesse criou alguns dos momentos mais poderosos da série. ("Toda a história de você", "Certifique-se" e "San Junipero" são episódios obrigatórios).

Mas na nova temporada, conseguimos o download de pessoas reais para um mundo virtual, o que tenho certeza de que não era uma ideia nova quando a Disney fez isso em 1982 em "Tron". Outro episódio postula a digitalização de uma pessoa em um holograma, baixando-os para um ursinho de pelúcia ou, de forma mais absurda, para um espaço do cérebro não utilizado. (Como Willa Paskin aponta em Slate, um dos maiores problemas com "Black Mirror" é que seus personagens têm tão pouco ceticismo real sobre as tecnologias mais invasivas).

O episódio "USS Callister", sobre um gênio programador tímido que rouba o DNA de seus colegas de trabalho e cria cópias digitais deles em uma recriação virtual da série "Star Trek", onde os atormenta, é a maior decepção da temporada. As atuações são ótimas, mas o episódio fica profundamente preocupante quando começa a desdenhar o programador. Depois que ele acrescenta uma cópia do novo membro da equipe, Nanette (Cristin Milioti), -que mostrou interesse por ele antes que seus colegas de trabalho o pintassem como um ser patético - em sua estranha série de ficção científica de 1960, em que recria o seu padrão de "vingança dos injuriados" através de personagens de massinha em um conto de pessoas comuns encontrando uma maneira de lutar contra os perdedores Gamergate do mundo.

Além de Nanette, ninguém em "USS Callister" é inocente. Para colocar as coisas de outra forma, como o Brooker faz, permitindo que os vitimadores do programador se desculpem de qualquer responsabilidade. Numa altura em que a sociedade americana está finalmente mostrando vontade de ouvir e enfrentar as histórias de homens que se comportam atrozmente, essa escolha é satisfatória, mas é tratada com uma simplificação excessiva.

No mundo em rápida mudança em que vivemos, e os eternos enigmas morais de nossas vidas, não há fim no material interessante para as histórias do "Black Mirror". E o seriado continua sendo um dos poucos lugares onde você pode encontrar uma verdadeira exploração das questões morais e sociais de nossos dias.

Infelizmente, muito da temporada 4 mergulha menos profundamente na condição humana da era moderna do que a nova e desnecessária atualização do iPhone. Vivemos na esperança de OS 5.


America Magazine - Tradução: Ramón Lara

EMGE

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