;
Brasil Cidades

14/01/2018 | domtotal.com

Hildoberto, um médico exemplar

Dia desses tocou a campainha e quando atendi deparei-me com Hildoberto.

O Beto era – e continua sendo – uma pessoa bastante agradável.
O Beto era – e continua sendo – uma pessoa bastante agradável.

Por Evaldo D' Assumpção*

Morando à beira-mar, nesses dias claros e quentes de verão costumamos receber em nossa casa a visita prazerosa de amigos que aqui veem para merecido descanso. Programa predileto dos mineiros como eu e minha esposa.  

Dia desses tocou a campainha e quando atendi deparei-me com Hildoberto. Antes de continuar, explico o seu nome: quando nasceu, seus pais resolveram homenagear os avós. Para isso tomaram parte da avó materna, D. Hilda, e juntaram com parte do avô paterno, Adalberto. Com isso, moldou-se o nome Hildoberto. Mas, para simplificar ele adotou o apelido de infância, Beto. Dr. Beto, uma vez que se formou em medicina no final dos anos 60, pouco tempo depois da minha própria formatura na mesma Faculdade. Fomos, portanto, contemporâneos no curso médico, e também bons amigos na então pacata Belo Horizonte.

Há muito já não nos víamos, apesar de que nos tempos de intensa atividade profissional, encontrávamos com frequência em hospitais e na Associação Médica. O Beto era – e continua sendo – uma pessoa bastante agradável: culto, ético e otimista, e sua companhia sempre nos dava grande satisfação. Sendo um pouco mais novo do que eu, adotou-me como uma espécie de consultor em alguns questionamentos que lhe surgiam, fosse na medicina, fosse na vida social ou política.

Contou-me então que estava para se aposentar, seguindo minha filosofia de que os cirurgiões deveriam parar de operar aos 70 anos, e que o bom artista sempre deixa o palco enquanto todos o aplaudem, e não quando começam a apupá-lo. Como eu, tinha conseguido chegar até aqui sem qualquer processo jurídico vindo de clientes, o que hoje é, sem dúvida, uma façanha admirável. E não pretendia correr riscos.

Sentamos na varanda – era uma tarde bem agradável – e ficamos conversando sobre amenidades incluindo o futebol, do qual ele, tanto como eu, é aficionado, sendo genética e sadiamente atleticano. Afinal, é um erro dizer que existem “atleticanos doentes” ... Inclusive ficou muito alegre vendo a bandeira alvinegra permanentemente desfraldada em minha casa, na Praia dos Castelhanos, e o galo carijó, sempre altaneiro, em sua entrada. Entretanto, como sempre acontece quando dois médicos se encontram, resvalamos para a atual prática profissional.

– Os médicos parecem que se esquecem rapidamente do juramento hipocrático que fizeram em sua formatura, disse ele. Fico impressionado com a péssima relação médico-paciente, onde a profunda confiança e respeito que se tinha pelo profissional, foi trocada pela desconfiança, e até mesmo hostilidade. Por sua vez, os médicos pouco ou nada conversam com os pacientes e seus familiares, deixando-os inseguros e quase sempre sem saber o que eles estão sentindo. Nossos colegas, que trabalham em empregos públicos ou privados, são muito mal remunerados, levando-os a se desdobrarem em múltiplos empregos para conseguir o necessário para sua subsistência. E correndo de um lado para o outro, por vezes faltam ao serviço ou atrasam bastante, deixando seus clientes em longas esperas, o que os irritam, com toda razão. E tudo fica ainda pior quando os profissionais de saúde se juntam em greves, coisa com que não concordo, pois os maiores prejudicados são os enfermos, e não os responsáveis pela remuneração indigna. Isso acaba por criar uma imagem nossa, bastante negativa. Já propus, em várias reuniões de nossas associações, que busquemos outras formas de lutar pelos nossos legítimos direitos. Formas que sejam mais eficientes, e menos danosas para quem nada tem a ver com a nossa má remuneração, além de nada poderem fazer pela nossa luta por melhores salários. Além disso, se defendemos nossos direitos, não podemos deixar de lado nossos deveres. Esta, aliás, é uma situação que a cada dia se agrava mais em nosso país: todos, em todas as áreas, defendem seus justos direitos, mas muito poucos se recordam de que também têm deveres a cumprir. E que alguns desses deveres, são bem mais importantes do que os seus direitos.

Concordei plenamente com ele, pois quando em atividade também lutava pelo equilíbrio entre a defesa dos nossos direitos e o rigoroso cumprimento dos nossos deveres.

Nessas digressões enveredamos pela saúde pública no Brasil, lembrando a questão da indústria farmacêutica. E ele questionou de que adiantava socializar o atendimento médico, se não havia uma contrapartida eficiente na disponibilização de medicamentos. De que adianta consultas gratuitas, se os medicamentos prescritos quase sempre ficam além do alcance da família do enfermo? Criou-se farmácias populares, todavia nelas muitos medicamentos essenciais não estão disponibilizados. Por outro lado, não conseguíamos entender a lógica de uma mesma empresa fabricar um remédio original, e ter uma linha de produção do mesmo medicamento sob a denominação de genérico. Se as duas apresentações têm sais e dosagens iguais, por que são vendidos por preços tão díspares? E como explicar os chamados “equivalentes”, teoricamente com os mesmos sais e dosagens, porém com preços ainda mais baixos? Não há uma fiscalização uniforme para se confirmar a exatidão da formulação em todas as três apresentações? Será que há uma absurda permissão para fabricar remédios sem controle absoluto de dosagem e qualidade? Afinal não se trata de roupas ou sapatos, mas de produtos para restaurar a saúde, para salvar vidas, e que mal produzidos podem até matar!

Silenciamo-nos por alguns instantes para escutar as ondas quebrando na praia, e contemplar o sol que se punha no horizonte. Ocaso de mais um dia, contudo sem que nossas esperanças também se apagassem no lusco-fusco de nossas aposentadorias.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas