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21/01/2018 | domtotal.com

Três espécimes de médicos

O médico por vocação, é aquele que quase nunca sabe precisar quando decidiu ser médico.

O oportunista, nem sempre tem vocação para a medicina.
O oportunista, nem sempre tem vocação para a medicina. (Reprodução)

Por Evaldo D' Assumpção*

Minhas caminhadas matinais sempre terminam num dos pontos que defini para meditação, e também para contemplar a natureza, o mar, e o infinito misterioso que se esconde além da linha do horizonte. Esta foi, com certeza, uma das razões mais fortes para deixar as montanhas de Minas, lindas, porém limitantes do olhar que busca o infinito. Contemplando o horizonte infinito que inclusive me permite imaginar a curvatura do nosso planeta Terra, fico a refletir sobre a vida e para a vida. E numa dessas reflexões, emergiram pensamentos sobre a profissão que escolhi aos oito anos de idade, e que assumi ao terminar o curso médico em 1963. Ocorreu-me então que existem três espécimes de médico: aquele por vocação, o profissional, e o oportunista.

O médico por vocação, é aquele que quase nunca sabe precisar quando decidiu ser médico. Sabe apenas que tal ideia sempre esteve em suas fantasias, em seus pensamentos. Nas brincadeiras infantis, exercia imaginária função de médico, cuidando de pequenos animais, de bonecos quebrados. E quando lhe perguntavam o que seria quando crescesse, respondia sem titubear: médico! Passam-se os anos, e sua vontade nunca arrefece. Percorre com persistência, segurança e força de vontade, os caminhos que o levarão ao objetivo ideado. A especialidade, nem sempre vem de imediato, mas em suas falas já se vislumbra o que deverá ser. Vencidas as etapas formativas, recebe o diploma como a realização fundamental de sua vida. Passa então a dedicar-se ao seu trabalho com profundo amor e respeito, muitas vezes sacrificando momentos de lazer e de vivência familiar, pois aliviar sofrimentos, curar feridas e doenças, salvar vidas, não tem dia nem hora marcada. Cuida e consola com profundo respeito, dedicação e carinho. Sabe ouvir os que sofrem e aos seus familiares, e cuida-se para nunca demonstrar cansaço, ou qualquer menosprezo e desatenção. Nesse processo, muitas vezes sacrifica seus ganhos financeiros, valorizando mais o cuidar do outro, do que a si próprio. É chamado de idealista, às vezes até pejorativamente, mas isso não o abala. Sua vocação é sua convicção. E é feliz, mesmo enfrentando dificuldades e desconfortos. É MÉDICO, totalmente escrito com maiúsculas.

Já o profissional, este também tem a vocação para a medicina, com obstinada preocupação para se tornar o melhor. Todavia, sua força propulsora vem especialmente da denodada busca pela fama e fortuna. Trata com perícia seus pacientes, contudo impõe sempre uma rotina de trabalho que lhe permite maiores oportunidades de reconhecimento e remuneração. Sua disponibilidade para os enfermos é restrita ao necessário para a execução primorosa do seu trabalho. Para tal, logo forma uma equipe, o que não lhe é difícil pela notoriedade conquistada, e pela pletora de médicos recém formados, ávidos por uma formação de qualidade. Logo ele transfere a parte rotineira e burocrática para seus assistentes, tornando-se quase inaccessível para seus clientes, uma vez ultrapassada a fase crítica do tratamento. Aos auxiliares caberá a parte supostamente secundária, e ele somente voltará à cena se razões extremamente imperiosas o exigir. Daí ouvirmos constantes queixas de que o Dr. Fulano é muito competente, porém seus clientes, e especialmente os familiares, raríssimamente conseguem acessá-lo. Procurado, ou está com a agenda lotada e sem tempo para atender, ou viajando para congressos e reuniões médicas, dando aulas, apresentando trabalhos quase sempre realizados por sua equipe, que tem apenas a sua supervisão, e no final sua assinatura como autor. Poucos se dão conta de que as casuísticas por ele apresentadas, com frequência possuem números estratosféricos, humanamente impossíveis de serem alcançados por um único profissional, por mais competente, rápido e longevo que seja. A notoriedade, porém, fica sempre para ele, e lhe proporciona soberbos rendimentos, além de posição privilegiada nos ambientes que frequenta. Quase sempre é, sem dúvida, um ótimo profissional médico, mas como humanista hipocrático, fica muito a desejar, sendo alvo fácil de espertos advogados e clientes insatisfeitos.

O oportunista, nem sempre tem vocação para a medicina. Geralmente o que têm é um pai, um tio, um sogro médico, ou então um mecenas que possui hospital, clínica, laboratório ou qualquer estrutura médica já montada, na qual ele terá um emprego garantido, fazendo-o supor que não haverá obstáculos a vencer. Geralmente forma-se em uma escola de medicina de segunda ou terceira categoria, onde não se faz muitas exigências. A ele, só importa o diploma que legalizará o seu futuro, e depois o dinheiro que irá ganhar, não importando o que, e o como, irá fazer para tal. Alguns acabam deixando a prática médica para se tornar administradores, burocratas ou funcionário público bem remunerado, geralmente em áreas de saúde. Quase sempre contribuem, de modo significativo, para a péssima qualidade da assistência médica que impera em nosso país, e pelo quase total desprestigio dos bons profissionais desta área. Contribui também, e muito, para a judicialização cada vez maior da medicina.

Concluo com uma verdade que deve ser dita e bem explicitada: essas categorias não são absolutamente determinantes e fechadas. Há exceções, há quem se inicia numa delas, mas reorienta seu caminho, podendo até tornar-se um MÉDICO. Cada um, ao se olhar no espelho, sem venda nem peia, certamente saberá onde se situar.

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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