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30/01/2018 | domtotal.com

Desperdício na construção civil: investir em sustentabilidade para evitar que tudo acabe em lixo

É preciso valer-se de tudo para erradicar áreas de disposição inadequadas de resíduos sólidos urbanos, assim como recuperar áreas degradadas

O caminho a ser seguido na resolução de todas essas questões, envolve Incentivar o empreendedorismo e a sustentabilidade.
O caminho a ser seguido na resolução de todas essas questões, envolve Incentivar o empreendedorismo e a sustentabilidade. (Reprodução)

Por Rafael Augusto Rodrigues Aleixo*

Resfriamento da terra, explosão solar, asteroides, vírus, guerra nuclear, enchentes e falta de água são algumas teorias sobre o fim do mundo, mas se não dermos um jeito o mundo vai acabar é em lixo.

O que é desperdício? A essa palavra os dicionários atribuem significados que remetem a despesa, gasto exagerado, uso sem proveito e perda. No entanto, o grande questionamento está relacionado ao destino e as consequências de todas essas coisas!

Atualmente existem, em um contexto bem amplo, diversas ações e iniciativas para combater ou ao menos minimizar os efeitos causados pelo desperdício. Por exemplo, ações essas que são baseadas na reciclagem, coleta seletiva, compostagem e mesmo em campanhas visando a sustentabilidade e a diminuição do consumismo. Medidas como estas, entretanto, ainda não são suficientes e tão pouco populares. Como a produção de resíduos, infelizmente, aumenta a cada dia, as medidas citadas são ineficazes e por esse motivo podemos estar diante de um verdadeiro colapso. Para demonstrar a caótica situação, apresento alguns dados referentes a esse tema:

Em 2014 o jornal O TEMPO fez uma matéria sobre o aterro desanitário  macaúbas, localizado no município de Sabará (região metropolitana de Belo Horizonte). Naquela ocasião o aterro sanitário que já recebia diariamente cerca de 3.000 toneladas de lixo produzido em Belo horizonte, passaria a receber os resíduos provenientes de mais 44 cidades, totalizando em um montante de aproximadamente 6.000 toneladas de lixo recebidas diariamente. O grande problema é que o local foi construído para receber de 4.000 a 5.000 toneladas diárias e com essa alteração a vida útil do aterro sanitário pode ser drasticamente afetada. A situação pode ser ainda mais desesperadora se analisarmos os dados do jornal Estado de Minas onde é relatado que a quantidade de lixo recolhida no Centro de Belo Horizonte cresceu 65% em 11 anos (2005-2016), e que de acordo com a Superintendência de Limpeza Urbana (SLU), são coletadas diariamente 4.700 toneladas de lixo só na capital mineira.

Saindo de Belo horizonte e abrangendo todo o estado de Minas Gerais pode-se citar a reportagem da revista EXAME, que se baseou nos dados da décima edição do estudo Panorama dos Resíduos Sólidos no Brasil, realizado pela Associação Brasileira de Empresas de Limpeza Pública e Resíduos Especiais (Abrelpe), para  informar que no estado, das 17.592 toneladas de lixo  produzidas diariamente,apenas 10.277 toneladas possuem destinação adequada. Esse problema de ineficiência de descarte de materiais transcende os limites mineiros e abrange todo o Brasil, de acordo com a mesma reportagem, “Das 64 milhões de toneladas de resíduos gerados no ano passado (2013), 24 milhões seguiram para destinos inadequados, como lixões. Isso equivale a 168 estádios do Maracanã lotados de lixo, sendo que outras 6,2 milhões de toneladas sequer foram coletadas. Em média cada brasileiro gerou 383 kg de lixo por ano, um aumento de 1,3% de resíduos por habitante em relação a 2011”.

Gostaria então de trazer o debate para o contexto da peculiar indústria da construção civil, que é extremamente importante para a economia brasileira, e contribui com expressivos números no PIB, gerando empregos e fornecendo a infraestrutura necessária para o crescimento. Isto porque esta indústria é também uma grande geradora de resíduos. O desperdício na construção civil é claramente visível e palpável a partir da observação dos “entulhos” ou formalmente falando, RCD– resíduos de construção e demolição.

Digo que a engenharia civil é peculiar pois se trata de um ambiente conservador e ao compararmos com outras engenharias, infelizmente observamos grandes disparidades de desenvolvimento e um cenário de despreparo. Basta olhar um carro da década de 60 e um carro de hoje (engenharia mecânica) 60...


e, da mesma maneira, uma construção da década de e uma de hoje (engenharia civil).


Não estou falando que deveríamos mudar tudo, mas é notório que o índice de desenvolvimento e principalmente a aplicação de novas tecnologias produtos e métodos na construção civil ainda é baixo. À essas variáveis citadas, deve-se acrescer também o fato da pouca qualificação dos operários no ambiente da construção civil. Tudo isso e mais alguns fatores e variáveis contribuem para que ocorram inúmeros e indesejáveis desperdícios. E dentro do contexto de empreendimentos no âmbito da construção civil os desperdícios vão além da geração de resíduos, atingindo equipamentos e mão de obra. Retrabalhos, improvisos e a falta de planejamento são característicos da engenharia sequencial, (que atualmente ainda é muito utilizada), gerando onerosidade, ou seja, tempo improdutivo. Com isso entramos em um quesito fundamental para o sucesso de qualquer negócio, pois como já disse Benjamin Franklin, “Time is Money”. Assim sendo faz-se obviamente necessário um rigoroso gerenciamento de obras e projetos, analisando a saúde das edificações, o controle de resíduos e a questão financeira.

Uma reportagem de 2013 divulgada pela Globo Ciência e que teve como embasamento entrevistas com o professor Vahan Agopyan da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo,apontou: que “a construção civil é responsável pelo consumo de 40% a 75% da matéria-prima produzida no planeta”. A reportagem ainda indica que “atualmente o consumo de cimento é maior que o de alimentos e o de concreto só perde para o de água”. Isto sem falar no próprio consumo de água em si mesmo para este tipo de finalidade.

Basicamente e de maneira bem resumida, a fabricação do cimento começa com a extração das principais matérias primas, o calcário e a argila. Após o processamento desses materiais obtém-se a farinha, que é colocada em um forno rotativo que atinge altas temperaturas para formar o clínquer, que é o ingrediente principal para a produção do cimento. Depois disso acrescenta-se gipsita e aditivos como por exemplo a escória e a pozolana. A mistura é triturada, ensacada e sai para distribuição. Até aí tudo bem, mas você vai se espantar ao saber que para cada tonelada de clínquer produzido, também se produz de 800kg a uma tonelada de Co2, que vai para atmosfera. Como se trata de um gás que quase não tem massa, realiza-se o cálculo estequiométrico da química para chegar ao volume aproximado de 407.254 litros ou se preferir 407 m3.

A equação química que representa muito bem essa situação é a da calcinação.

CaCO3+CALOR → CaO+ CO2

PERDA DE MASSA = 44%


Dentre as principais causas relacionadas a todos esses problemas citados, de poluição ambiental e de excesso de resíduos, podemos apontar a falta de educação e de consciência, mas principalmente a ausência de incentivos a adequadas soluções relacionadas ao lixo e o descaso do poder público. A somatória de tudo isso culmina em um quadro de dificuldade de gerenciamento de resíduos urbanos e gerando inúmeras consequências, que afetam a saúde pública e o meio ambiente. Além da falta de espaço para descartes,existem doenças que são causadas, agravadas ou prosperadas por meio dos resíduos. Enchentes, queimadas, desmatamento, utilização de combustíveis fósseis, indústrias poluidoras e falta de saneamento básico também contribuem para o agravamento desse quadro. E evidentemente não apenas nós, seres humanos, somos reféns da poluição ambiental, mas todo um ecossistema.

Nossas crianças representam o futuro, mas este futuro pode estar ameaçado. De acordo com uma pesquisa da Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgada pela BBC Brasil, “Anualmente, 1,7 milhão de crianças com menos de 5 anos morrem no mundo devido a problemas ligados a poluição ambiental”. Vale ressaltar que muitos dos dados apresentados estão próximos de nós, mas o desafio de reduzir a produção de resíduos e sobre o que fazer com os mesmos é mundial.  A engenharia pode ser uma grande geradora de resíduos, mas também aparece como uma dádiva no auxílio para a resolução dos problemas. Novas alternativas para a geração de energia, logística mais efetiva, novas tecnologias, planejamento, aumento de produtividade com sustentabilidade, engenharia simultânea e inteligência artificial são termos que estão atrelados á solução das demandas apresentadas e estão intrinsecamente ligadas a diversos ramos da engenharias.

Para termos um país mais limpo não existe apenas uma solução, mas um conjunto de ações onde é imprescindível a cooperação de toda a sociedade. Cooperação essa que depende muito do auxílio público, promovendo ações de conscientização e ações que visam evitar o desperdício, inclusive na construção e efetiva aplicação de legislação adequada. O caminho a ser seguido na resolução de todas essas questões, envolve Incentivar o empreendedorismo e a sustentabilidade, reduzindo a burocracia para a criação de startups e empresas do segmento de gestão de resíduos e o incentivo a novas tecnologias. É preciso valer-se de tudo isso para erradicar áreas de disposição inadequadas de resíduos sólidos urbanos como os lixões, assim como promover a recuperação de áreas degradadas, construir locais eficientes para o descarte de resíduos, incentivar a reciclagem e a transformação de toda essa poluição em riquezas para o país. Grandes exemplos já foram dados. Vejam por exemplo o documentário "Going for Green -- Britain's 2012 Dream" (faz parte da disciplina Introdução à Engenharia da EMGE e pode ser acessado no You Tube) que retrata a construção do parque olímpico para os jogos olímpicos de Londres em 2012. Toda a construção foi pensada e planejada Np contexto da engenharia sustentável e de um grande legado para as gerações futuras.

Albert Einstein disse que tolice é fazer as coisas sempre do mesmo jeito e esperar resultados diferentes. Para haver a mudança de todo esse cenário toda a sociedade deve refletir e mudar. Mudar sua postura na esperança de um futuro melhor. Estamos iniciando o ano de 2018, Um ano de muitos eventos para o Brasil. E não podemos nos esquecer que no meio disso tudo temos uma eleição e a votação de reformas e projetos que certamente terão enorme influencia na saúde do país. A política (Eu quero dizer a boa política! Alias eu nem sei se o que existe fora dela pode ser chamado de política...) está atrelada a todos assuntos abordados nesse texto. Assim sendo é a hora de observar as intenções de cada possível representante, de cada possível projeto, olhar quem pode fazer diferente, quem pode trazer a ordem, o progresso e promover o desenvolvimento sustentável. Por fim, uma sugestão: ir às urnas com consciência e escolher representantes ficha limpa, assim como queremos nossas cidades.

Contribuindo para um mundo melhor, a Escola de Engenharia de Minas Gerais sai na frente e está de parabéns, pois muda um pouco de contexto e não forma apenas engenheiros e sim gestores, pessoas comprometidas com a segurança e com a mentalidade da engenharia sustentável.

Posso dizer por experiência própria!

ENGENHARIA SIMULTÂNEA: Método contrário da engenharia sequencial onde há maior diálogo, integração e compatibilização, que geram menos perdas.

Para saber mais:

BBC-Brasil

http://www.bbc.com/portuguese/internacional-39170526

Jornal O tempo

http://www.otempo.com.br/cidades/aterro-de-sabar%C3%A1-vai-receber-lixo-de-44-cidades-1.832494

Estado de Minas

http://www.em.com.br/app/noticia/gerais/2016/08/25/interna_gerais,797170/quantidade-de-lixo-no-centro-de-belo-horizonte-cresce-65-em-11-anos.shtml

Dados SLU

http://portalpbh.pbh.gov.br/pbh/ecp/comunidade.do?evento=portlet&app=amarbh&pg=10265&tax=35376

Revista exame

http://exame.abril.com.br/brasil/o-lixo-que-os-brasileiros-geram-a-cada-dia-por-


* Rafael Augusto Rodrigues Aleixo, Técnico em Edificações e estudante do curso de Engenharia civil da EMGE (Escola de Engenharia de Minas Gerais).

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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