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13/02/2018 | domtotal.com

O Golem, o mudo!

Era um pequeno livro escrito pelo grande homem, Nobel da Paz, Elie Wiesel.

O Golem, também chamado pelos judeus de Praga de “Yossel, o mudo”.
O Golem, também chamado pelos judeus de Praga de “Yossel, o mudo”. (Lev Chaim)

Por Lev Chaim*

Estava trabalhando em meu escritório em casa, dando as últimas correções no texto que teria que enviar amanhã, segunda, para a redação. Foi neste momento que ouvi o meu cão latir e, pelo tom, devia ser a campainha da porta. Do segundo andar, onde trabalhava, não dava para ouvir alguém batendo à porta. O meu cãozinho também fazia o seu papel de arauto das boas novas, que estavam me esperando lá fora.

Desci os dois lances de escada depressa e fui direto à porta da frente. Bingo, lá estava uma senhora e que senhora. Esta grande dama, membro do conselho administrativo de várias organizações, era uma coisa interessante e curiosa. Sempre com os cabelos grisalhos presos em um coque, com óculos de grau forte, ela dava a impressão de alguém que conseguiu sempre o que queria. Era também do Conselho da Igreja Protestante, há poucos metros da minha casa: uma igreja gótica, linda, onde, as vezes, aos domingos, eu ouvia o sermão do pastor Frans Verbaas. Ele era um eclético e dava boas vindas a todos que iam a sua igreja.

A dama disse que tinha quinze minutos apenas para me convencer a comprar algumas rifas da igreja, para caridade. Sorri, ofereci-lhe um café, o que ela recusou, pois o serviço dominical começaria logo mais. Depois de sua explicação rápida, comprei cinco rifas de 4 euros cada uma – no total, de 20. Ela agradeceu muito e disse que o sorteio seria no salão da casa paroquial, no próximo sábado. Despediu-se contente e se foi em direção à Igreja.  Cerca de 90% dos moradores de Heusden, eram protestantes.

E não é que eu fui sorteado com o primeiro premio: uma viagem à Praga, na República Tcheca, de avião, com hotel e tudo pago, para duas pessoas, por 3 dias. Estava com sorte. Eu já conhecia a cidade, mas há muito tempo: foi numa viagem com os estudantes de Cambridge, Inglaterra, em 1979, ano em que lá morei após o término da minha universidade. Cheguei em casa alegre e fui direto a minha estante de livros. Tinha ali guardado uma preciosidade impar. Era um pequeno livro escrito pelo grande homem, Nobel da Paz, Elie Wiesel, com ilustrações do famoso desenhista Mark Podwal.

Era uma edição traduzida para o português de 1986. Trata-se de uma das mais fascinantes criaturas do saber e da fantasia judaicos: o Golem, também chamado pelos judeus de Praga de “Yossel, o mudo”. Ele teria sido criado do barro em 1580 pelo grande e famoso Rabi Yehuda Lowe de Praga, conhecido como Maharal, que significava: o maravilhoso, o milagroso. Era uma pessoa respeitada por todos, inclusive pelo Rei do país, que se maravilhava com a sua perspicácia e conhecimento. Muitos diziam que o Maharal estava muito acima de todos aqui na Terra, pelo seu saber, bondade e perseverança em salvar a comunidade judaica de Praga, de todos os perigos da época, que não eram poucos.

Elie Wiesel, como o narrador deste livro encantado, diz que todos sentem falta do Yossel - o mudo, de tudo que ele fez para proteger a sua comunidade em Praga. Muitos, invejosos, inventavam mentiras a respeito do ritual dos judeus durante a Pascoa, que dura 8 dias. Mas, daquela vez, eles ocultaram um cadáver de uma criança cristã, no porão da casa de Shmuel, o mercador: imediatamente, os judeus todos foram acusados de ‘assassinato ritual’, insinuando que eles estivessem usado o sangue cristão para o preparo do pão, não fermentado de páscoa, os Matzo.

A sorte foi que a multidão de furiosos querendo linchar a todos os judeus de Praga foi contida pela intervenção deste santo Rabi, ou Rabino, Yehuda Lowe de Praga. Ele enviou a sua criação, Yossel, como diz a ‘lenda’, e encontrou o túmulo de onde eles haviam tirado a criança morta e colocado na casa de Shmuel. Pura maldade. Como escreve Wiesel, é perfeito: “Os imbecis! Sua maldade se equivale à sua ignorância. Nossa Escritura o afirma, nossos sábios repetem e nossos Mestres provam: desde que o povo judeu é judeu, nunca cometeu este tipo de crime. O assassinato ritual não tem lugar na tradição judaica. O próprio Abraão não chegou ao fim de seu ato: seu filho sobreviveu à provação do Pai”.

Essas histórias e muitos outras a respeito da comunidade judaica de Praga, do seu maravilhoso sábio, o Maharal, começaram a borbulhar novamente em minha cabeça. Comecei a fazer planos para esta próxima viagem à Praga, onde com certeza passarei umas boas horas no cemitério judaico mais antigo da Europa, com túmulos prensados, um ao lado do outro, já que o terreno era pequeno. Ali está o tumulo do Rabi Yehuda Lowe e a Sinagoga onde ele teria levantado do pó e do barro, o defensor de toda a Comunidade Judaica de Praga daquela época, Yossel, o mudo. Com certeza estarei levando um papelzinho com pedidos para ser colocado nas rachaduras do túmulo deste sábio homem. E com certeza, na minha volta, estarei contando mais desta maravilhosa aventura a todos vocês. Tchau!   

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

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