;
Mundo

12/02/2018 | domtotal.com

Como lucrar com a cadeia produtiva sem produzir

A simplificação e o embaratecimento das comunicações e dos transportes tornou possível que as mercadorias atravessem o globo, entre o fabricante e o consumidor.

Graças às maravilhas da globalização, hoje em dia qualquer um pode fazer negócio.
Graças às maravilhas da globalização, hoje em dia qualquer um pode fazer negócio. (Reprodução)

Por José Couto Nogueira*

Todo o mundo quer ficar rico ou, pelo menos, ganhar para viver. A qualidade que permite fazê-lo, quando não se trabalha para outrem, é o empreendedorismo. Mas para ser empreendedor é preciso inventar algo vendável e ter capital para produzir, certo?

Errado. Isso era dantes. Graças às maravilhas da globalização, hoje em dia qualquer um pode fazer negócio. A simplificação e o embaratecimento das comunicações e dos transportes tornou possível que as mercadorias atravessem o globo, entre o fabricante e o consumidor, sem passar pelo vendedor. Este ganha pela transação sem tocar no produto. Parece impossível mas é uma realidade que movimenta milhões diariamente.

Quando se fala em globalização, pensa-se logo nas grandes multinacionais que produzem em países mais favoráveis e vendem no mundo inteiro – como a Apple, por exemplo, que fabrica os iPhone na China, exporta-os para os 193 países registados na ONU e arrecada os lucros em países de baixa fiscalidade, como a Irlanda ou a Holanda.

Todavia a Apple, a maior empresa do mundo (em cotação de bolsa), tem existência física. Na sua sede recém inaugurada em Cupertino, na Califórnia, um mega edifício mirabolante, trabalham 12 mil pessoas em pesquisa, desenvolvimento e funções estratégicas e administrativas. A Apple não produz o que vende, mas inventa os seus produtos, armazena-os (em centenas de locais pelo mundo inteiro) e distribui-os através de uma rede de lojas e retalhistas autorizados.

Numa outra escala, nano escala, digamos assim, o Sr. Nirlando, da tendinha do bairro não cria produtos ,mas vai comprá-los aos distribuidores e produtores, armazena-os, e depois vende-os ao clientes que lhe entram pela loja dentro.

A esta realidade centenária, se não milenar, junta-se agora, na era digital, outro tipo de actividade que, em termos físicos é apenas uma pessoa sentada em frente dum computador. E pode facturar milhares, milhões de dólares.

Como é isto possível? Muito simples, tão simples que se calcula que haja atualmente mais de quinhentas mil pessoas, um pouco por todo o mundo, sentadas em frente aos seus computadores a vender cobras e lagartos – que é como quem diz, de facas a canhões, ou de t-shirts a BNWs. E quinhentos mil é um número por baixo, baseado apenas nos clientes da plataforma Shopify (como adiante se verá). O número real poderá ser bem acima do milhão.

Como é que se processa este negócio? Vamos supor que o Nelinho, jovem de 17 anos que vive em Piracicaba e tem um computador ligado à Internet, está a precisar de uns troquinhos para arredondar a mesada do pai. A primeira coisa que faz é utilizar um programa canadiano chamado Shopify (há outros: Magneto, Hybris, Netsuit, etc.). Por nove dólares por mês (primeiras duas semanas grátis), o Nelinho pode usar os modelos de página (templates) sugeridos pela plataforma para montar um site legítimo, com bom aspecto. Mas precisa de ter alguma coisa para vender, evidentemente. Vai ao site AliExpress, onde milhares de fabricantes chineses estão disponíveis para vender gatos e sapatos, passando por roupa, electrônica, pulseiras de charme – tudo o que possa ser vendido. Para limitar a procura infinita, escolhe um tema: roupa íntima, por exemplo, ou “vegan”, ou Bossa Nova, ou qualquer outra coisa. Esses fabricantes praticam um negócio chamado “dropshipping”; ao receber o dinheiro do Nelinho e o endereço do destinatário, enviam a mercadoria para qualquer parte do mundo. Nelinho usa uma extensão do Shopify chamada Oberlo que lhe permite colocar no seu site qualquer produto do AliExpress, com fotos, características e preço. Segundo os últimos números, Oberlo já comercializou 85 milhões de itens.

Mas Nelinho vai precisar de receber dos compradores e pagar aos fornecedores – por esta ordem, uma vez que só depois de receber do cliente é que compra, peça a peça, ao fabricante. Para isso abre gratuitamente uma conta no Paypall, o sistema de transferências monetárias comerciais que em 2016 processou 193 transacções por segundo – seis mil e cem milhões por ano.

Agora Nelinho precisa de tornar o seu negócio conhecido, para atrair compradores. Abre contas no Instagram e no Facebook, onde coloca imagens atractivas para o segmento de consumidor que procura. Se o tema for, seguindo um dos exemplos acima, Bossa Nova, coloca fotografias de Vinícius, clipes de espectáculos de Tom Jobim, fotos de Ipanema nos tempos do preto e branco, citações, etc. Entre o que publica, inclui os produtos que quer vender; t-shirts, violões, souvenirs falsos, areia de praia... juntamente com o link para a sua página Shopify. Ambas as redes têm ferramentas de medição que indicam, por exemplo, quantas pessoas clicaram nas promoções do Nelinho, mesmo que não tenham comprado. Essas pessoas passam a figurar no algoritmo das redes para receber mais promoções. E, para animar turma, o nosso empreendedor tem também uma série de extensões do Shopify que permitem, por exemplo, criar uma janela a dizer “Neste momento Joe Smith, de Akron, está a comprar” ou então “Só tem mais três horas e dez minutos para encomendar”. Para processar as encomendas, o que dá um certo trabalho, não precisa de ter trabalho nenhum; basta-lhe contratar tarefeiros na plataforma UpWork, onde escolhe Nelinhos espalhados por muitos países de baixíssimo rendimento que estão disponíveis para tratar dessas burocracias por um salário de seis a oito dólares por dia.

Se for esperto e fizer boas escolhas, em breve será o Nelinho a dar uma mesada ao pai.

Agora, não diga que a globalização não dá oportunidades a todo o mundo!

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas