;
Brasil Cidades

12/02/2018 | domtotal.com

Carnaval: o que era profano vira sagrado

Passamos assim o resto da tarde em trotes telefônicos a vontade para afetos, desafetos, ex-namoradas, chatos em geral.

Lembrar do Arakan é lembrar de uma , digamos, certa inocência diante dos
Lembrar do Arakan é lembrar de uma , digamos, certa inocência diante dos "bailes" de hoje em dia. (Reprodução)

Por Ricardo Soares*

Estávamos em quatro ou cinco esparramados no chão do amplo banheiro azulejado na parte de cima do sobradão dos pais de Mirinho no Jardim Paulista, São Paulo , bem perto do parque do Ibirapuera. O nosso carnaval ia a todo vapor e ali largados éramos  verdadeiros mata borrões de todo tipo de substância alcoólica que estávamos  ingerindo há pelo menos 36 horas. Dentro ou fora do sobradão.

Mirinho era repórter policial e naquele ano havia escapado do plantão de carnaval. Nas últimas horas tínhamos feito uma verdadeira “farmácia” misturando numa enorme e fina jarra de cristal da mãe de Mirinho quantidades industriais de gim, “fogo paulista”, vermute claro e Cynar . Chacoalhamos a mistura e servimos em copos longos com muito, muito gelo. Pileque quase imediato em quem já estava mais do que tocado pelas misturas anteriores. Feito isso resolvemos tomar banho de mangueira no quintal do sobradão e todos ali de cuecas frouxas passamos a nos molhar uns aos outros rindo feito hienas descontroladas.

Os pais de Mirinho evidentemente não estavam em casa. Estariam curtindo um carnaval bem mais comportado quiçá em Ubatuba. Fato é que aproveitamos a aprazível ausência para nos esbaldarmos, molharmos, encharcarmos, comermos , arrotarmos ... subimos pois ao segundo andar do sobradão na esperança da sauna do banheiro azulejado estar funcionando. Não estava  mas nos jogamos assim mesmo ali pelo chão, bêbados e cansados. Mirinho entrou na banheira vazia e puxou o longo fio do telefone do quarto dos pais . Passamos assim o resto da tarde em trotes telefônicos a vontade para afetos, desafetos, ex-namoradas, chatos em geral.

A certa altura a sessão de trotes se esgotou e a diversão passou a ser lembrar da noite anterior onde fomos todos parar no baile do Arakan, um clube que fazia o mais divertido baile de carnaval da cidade na Casa de Portugal, na avenida Liberdade. Na verdade o Arakan era um clube que “alugava” àquela altura os salões de outro clube ( a Casa de Portugal)  para fazer a sua lendária festa de Momo que misturava bandidos, policiais, travestis , prostitutas e jornalistas, boêmios ou não e não necessariamente nessa ordem. O que poderia ser uma explosiva mistura na verdade ficava harmoniosa na medida em que todos –de maneira mais explícita ou não – eram cúmplices das folias  que aconteciam no baile do Arakan. O que se via ali dentro dali não saía.  Ali, sem exceções, todos eram fáceis e desfrutáveis muito embora você pudesse resistir como eu fazia muito mais por medo de doença venérea do que por qualquer outra convicção.  

A parte mais divertida da história era por conta de que aquilo que poderia ser sacana, profano, uma verdadeira porta do inferno no começo dos anos 80 hoje se converte quase em matinê nos tempos modernos. Lembrar do Arakan é lembrar de uma , digamos, certa inocência diante dos "bailes" de hoje em dia quando o profano de antes vira sagrado e nada mais é sagrado diante de tanta profanação.

* Ricardo Soares é escritor, diretor de tv, roteirista e jornalista. Dirigiu 12 documentários, publicou 8 livros.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas