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Religião

13/02/2018 | domtotal.com

É melhor ser alegre que ser triste

A alegria nos provoca o sabor de eternidade e, mesmo sabendo que ela irá passar, marca-nos profundamente ao nível do sentido, dando outras possibilidades para a existência.

A alegria nos salva da morte.
A alegria nos salva da morte. (Paula Fróes/GOVBA)

Por Tânia da Silva Mayer*

Vivemos tempos difíceis, não é incomum encontrar pessoas com o rosto entristecido nas ruas. No âmbito social, enfrentamos muitos problemas que nos desafiam e exigem de nós agilidade na resolução. Há muitos sinais de morte à nossa volta. É crescente o número de pessoas abandonadas e desprotegidas ao longo de nossas avenidas. Também cresce o número de desempregados e dos que recomeçam a enfrentar o drama da fome. Pessoas são discriminadas e violentadas por causa da cor, do gênero e da orientação sexual. Crianças são mortas à luz do dia, vítimas de uma guerra que só executa os inocentes. Uma lástima. Uma olhada mais atenta para a realidade tende a mostrar quão corrompidos nos tornamos e quão imersos estamos num processo de desumanização. Infelizmente, além de poucos, os gestos de bondade, bem e beleza não repercutem tal como os outros de violência, esta que nos circunda. Diante da vida é que nos perguntamos: há lugar para a alegria e para a festa?

O poeta brasileiro cantou em seus versos a primazia da alegria sobre a tristeza. “É melhor ser alegre que ser triste”. Um coração entristecido entregou-se à dor e à morte, já não pulsa com vigor. Só por isso já vale a pena cultivar a alegria, que nem sempre concorda com a ausência de sofrimentos. A alegria é sinônima da vida e da mais vida. Precisamente, ela tem a força para nos arrancar do imediato e nos colocar em relação com o que há para além dos acontecimentos. Também, a alegria nos provoca o sabor de eternidade e, mesmo sabendo que ela irá passar, marca-nos profundamente ao nível do sentido, dando outras possibilidades para a existência. De outro modo, a alegria nos salva da morte.

Para a teologia cristã, a alegria é dom de Deus para o mundo. É a salvação que ele está sempre oferecendo à humanidade. E a salvação se dá num movimento pascal, na passagem da morte para a vida plena e abundante que o Senhor oferece. Os cristãos e as cristãs sabemos que a alegria que experimentamos nos pequenos acontecimentos do dia a dia é já a participação na alegria definitiva de Deus, que nos oferece um Reino no qual “ninguém mais vai sofrer, ninguém mais vai chorar, ninguém mais vai ficar triste” (Oração Eucarística para missas com crianças). A promessa que herdamos é a de que o pranto, a dor e a tristeza terão seu fim quanto antes se consume o Reino de Deus, e é precisamente isso que deve motivar os momentos de alegria ao longo da vida.

E como a alegria é sinônimo de vida, torna-se possível distinguir a verdadeira alegria daquela exaltação eufórica na qual muita gente reivindica uma falsa felicidade e sensação de bem-estar. Sobretudo no Carnaval, muita gente põe o bloco na rua com o coração entristecido no peito, aguardando a quarta-feira para tornar a viver uma vida acinzentada. Assim não se pode ser verdadeiramente feliz. Por isso, a energia e o ânimo deste dia devem cumprir a empresa de ser escape de eternidade no agora sofrido da vida. Deve ser espaço de respeito e valorização das pessoas e, ainda, o gás que alimenta o compromisso de tornar possível uma vida em comum com os outros. Tão logo a banda passe “cantando coisas de amor”, os dias duros nos sobrevirão com suas tiranias. Que as fantasias e os sonhos de agora não sejam sepultados, nós sabemos que “a alegria é a melhor coisa que existe”, é por ela que iremos lutar.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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