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Religião

19/02/2018 | domtotal.com

Cristãos ferro e fogo: a tentação do 8 ou 80

Onde há excesso de legislação, falta sabedoria.

É preciso elaborar a experiência religiosa e não ficar presos a ela.
É preciso elaborar a experiência religiosa e não ficar presos a ela. (Reprodução/ Pixabay)

Por Felipe Magalhães Francisco*

Discernimento é uma palavra pouco presente no vocabulário cristão. Os leitores e leitoras de espiritualidade inaciana que me perdoem, mas creio estar sendo fiel à realidade eclesial. Também a prática do discernimento, em si, está ausente. Discernir é distinguir, com alguma sabedoria. Distinguir, aqui, corresponde a uma atitude espiritual: movimento do espírito. Recordo-me da Prece da Serenidade: Concedei-nos, Senhor, a serenidade necessária para aceitar as coisas que não podemos mudar; coragem para mudar as que podemos; e sabedoria para distinguir umas das outras.

Cristãos e cristãs mais “fervorosos” tendem ao radicalismo. A linha entre esse fervor sob aspas e o fanatismo é muito tênue. É preciso elaborar a experiência religiosa e não ficar presos a ela. Para isso o discernimento é imprescindível. O que acontece, geralmente, é que no lugar do discernimento, que coloca a consciência do sujeito sob o risco da tomada de posição, o caminho mais fácil assumido por muitos é o da negação das realidades, como fuga da responsabilidade de posicionarem-se. Condena-se tudo, de antemão, como pecaminoso e contrário à vontade de Deus.

Se pararmos para observar as duras críticas de Jesus feita ao farisaísmo, ela está para além da hipocrisia: ela toca também esse aspecto do radicalismo, como fuga da concretude da vida. Grande parte das leis bíblicas surgiram como escrúpulo para garantir o cumprimento de outras leis: criava-se uma lei para promover o cumprimento de outra, anterior. Onde há excesso de legislação, falta sabedoria. O cânon bíblico já foi fechado, mas cristãos e cristãs continuam a criar leis, por pura covardia de tocar o mundo, lugar concreto onde há que se viver o Evangelho com radicalidade e não com radicalismo.

Muitos cristãos e cristãs criaram a ilusão de que vivem uma vida santa, porque criaram uma bolha que os separam do mundo. A santidade está, exatamente, em tocar o mundo e não se apartar dele: o mistério da encarnação do Filho de Deus – radicalizada em sua morte – é sinal inconteste disso: o véu da separação entre sagrado e profano se rasgou. O trabalho da vida de muitos cristãos e cristãs consiste em reatar o véu partido, na busca por garantir uma separação que não é saudável, porque não alcança o real da vida nem os dramas concretos que ela contém.

Orar e vigiar, incessantemente, é caminho para o discernimento e não para a fuga em nome de uma santidade irreal. “Sede santos, como vosso Pai é santo” não corresponde a uma fuga do mundo, mas a uma apropriação dele, envolvendo-o com a santidade que vem de Deus, pois é isso mesmo que ele faz, quando assume a vida humana em seu Filho. Viver no mundo, mas sem estar preso a ele, porque o Reino de Deus o extrapola. Mas é no mundo que é preciso ser sal e luz: o sal precisa estar entranhado; e a luz irradiada. Não é sábio acender uma lâmpada para colocá-la debaixo da cama. Quando os cristãos e cristãs demonizam o mundo, sem mais, em nome da fé e da fidelidade a Deus, estão fazendo justamente isso, escondendo a lâmpada do Evangelho e privando o mundo do seu sabor.

 Jesus não se pautou no 8 ou 80. O que não significa que ele não tenha sido firme e fiel em sua missão e vocação e, mais que isso, a seu Pai. O seu “sim” era “sim” e o seu “não” era “não”, não no sentido de fugir do mundo, mas na coragem de tocar no que havia de mais belo e de mais horrível nele. Ele sabia que seu lugar era junto de seu Pai, mas isso não significava viver alienado de seu lugar histórico. Muito pelo contrário: ele fez sua história no testemunho de quem é fiel a seu Pai e à sua missão, sem a covardia travestida de santidade. Afinal, quem quiser salvar a própria vida, precisa correr o risco de perdê-la...

*Felipe Magalhães Francisco é teólogo. Articula a Editoria de Religião deste portal. É autor do livro de poemas Imprevisto (Penalux, 2015). Escreve às segundas-feiras. E-mail: felipe.mfrancisco.teologia@gmail.com.

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