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Religião

19/02/2018 | domtotal.com

Demissões de trabalhadores LGBT da Igreja Católica levantam questões difíceis (e novas)

Funcionários de instituições católicas dos EUA são demitidos após assumirem seus relacionamentos homoafetivos, colocando em cheque a acolhida da Igreja.

Vida privada e trabalho em instituição confessional conflitam quando a orientação sexual entra em jogo.
Vida privada e trabalho em instituição confessional conflitam quando a orientação sexual entra em jogo. (Reprodução/ iStock/ América Magazine)

Por Michael J. O'Loughlin

Poucas semanas antes do Natal, um funcionário da Arquidiocese de Edmonton, em Alberta, Canadá, colocou uma pasta sobre a mesa frente a Mark Guevarra, um agente de pastoral contratado de uma grande paróquia na periferia da cidade. O Sr. Guevarra, que possui mestrado em educação religiosa, diz ter sido informado que a arquidiocese estava coletando informações sobre ele há oito anos, inclusive arquivando no escritório do arcebispo queixas de clérigos e leigos que o acusavam de ser gay e estar em relacionamento com outro homem. Ele relata que foi informado de que não poderia examinara pasta, mas que fora solicitado a confirmar ou negar as acusações, ao que se recusou, crendo se tratar de um inquérito injusto e excessivamente invasivo.

Na última terça-feira, foi demitido de seu posto e pedido para desocupar seu escritório.

Enquanto isso, uma professora de uma escola católica em Miami voltou ao trabalho na semana passada, logo após se casar com sua parceira no arquipélogo Florida Keys. Jocelyn Morffi era professora do Ensino Fundamental na Escola Católica Saints Peter and Paul, onde também era treinadora de basquete e dirigia uma organização voluntária chamada #teachHope70x70 que leva estudantes ao centro de Miami aos fins de semana para distribuir refeições a pessoas em situação de rua. Porém, em vez de saudar seus alunos após o tempo de recesso, conta que lhe foradito que ela havia quebrado seu contrato e, também, foi demitida. Ela não teve a chance de juntar seus pertences, acrescentou o pai de um de seus alunos .

Os dois são apenas os mais recentes casos de trabalhadores da igreja a serem demitidos por questões ligadas à sexualidade e casamento homoafetivo, conflito que aumentou nos últimos anos, já que o casamento entre pessoas do mesmo sexo se torna mais comum, mesmo quando a igreja mantém a linha fechada em questões L.G.B.T. De acordo com o New Ways Ministry, pelo menos 80 pessoas foram despedidas de paróquias, escolas e outras entidades católicas em casos relacionados à orientação sexual na última década - embora apontam que essa afirmação é baseada somente em casos individuais que se tornaram públicos.

"A cada nova demissão, a injustiça dessas ações torna-se mais clara para a assembleia dos fieis", disse Francis DeBernardo, diretor executivo do grupo, à America Magazine. O Sr. DeBernardo acrescenta que o "destaque de que funcionários L.G.B.T. da igreja sejam o único grupo cujas vidas devam estar em plena conformidade com a ética sexual do magistério representa uma discriminação flagrante".

"Essas ações prejudicam não só os que são expulsos e as comunidades que servem, mas também à igreja como um todo, porque nossa credibilidade como vozes da justiça fica enfraquecida e nossa imagem de comunidade de amor e compaixão é destruída".

A Igreja Católica nos Estados Unidos não tem uma política nacional sobre funcionários L.G.B.T., muitos dos quais não possuem proteção contra a discriminação devido a isenções religiosas estendidas aos empregadores. Mesmo líderes da igreja que a conclamara a a ser mais acolhedora aos LGBTs católicos resistem à ideia de uma política uniforme, preferindo uma abordagem caso a caso.

Cathleen Kaveny, que ensina direito e teologia no Boston College, disse que, legalmente, instituições católicas dentro de seus direitos quando se trata de contratar e demitir com base em questões relacionadas à orientação sexual. "Mas há muitas coisas que você pode fazer que são legais e não sábias", disse ela à America.

"Esta é uma maneira prudente e caritativa de comunicar a mensagem católica, ou é algo que vai dificultar a recepção do ensino católico e o evangelho?", perguntou sobre as questões.

O Sr. Guevarra escreveu sobre sua experiência em uma longa publicação em sua página pessoal no Facebook na última sexta-feira. Ele disse que a investigação da arquidiocese começou depois que iniciou um grupo de oração para católicos L.G.B.T.

"Foi-me perguntado diretamente se estou em um relacionamento com um homem e tenho uma filha. Recusei-me a responder", escreveu o Sr. Guevarra. Ele disse ter pedido uma reunião com o arcebispo de Edmonton, mas foi recusado pelaarquidiocese . (Incluído em um pacote de cartas de seu empregador sobre a sua rescisão, existia uma carta de um bispo auxiliar que enviou um convite para se encontrar e discutir o ministério L.G.B.T., o que o Sr. Guevarra  planeja aceitar).

Ele disse que não responderia a perguntas sobre sua vida pessoal porque o inquérito era muito invasivo. Além disso, conta que outros trabalhadores da igreja não enfrentam o mesmo nível de escrutínio quando se trata de suas vidas pessoais, o que diz ser devido à homofobia na Igreja.

A Sra. Kaveny fez eco a esse sentimento, dizendo: "Se você está levando seriamente a ética sexual da igreja, vai entrevistar casais heterossexuais para descobrir se eles estão dormindo juntos antes do casamento ou se estão usando controle de natalidade? As questões tendem a cair injustamente em um grupo de pessoas que talvez não estejam aceitando o ensino sexual católico em toda a sua plenitude".

Uma porta-voz da arquidiocese escreveu em e-mail para a America: "A Arquidiocese não supervisiona seus funcionários ou verifica suas vidas pessoais. A menos que seja aconselhado de outra forma, assumimos que a maioria das pessoas que trabalham para a Igreja em qualquer tipo de liderança ou papel docente estão dispostos a viver de acordo com seus ensinamentos. No entanto, se uma questão for levantada, a Arquidiocese tem a responsabilidade de analisá-la e lidar com ela".

O Sr. Guevarra disse que seu inquérito "envia uma mensagem prejudicial a todos os católicos L.G.B.T.Q., eles não têm lugar na igreja".

De acordo com uma carta de rescisão do pároco, uma cópia da qual o Sr. Guevarra compartilhou com a America, foi expulso porque sua relação é considerada "fundamentalmente inconsistente com os ensinamentos da Igreja na medida em que não é um casamento reconhecido pela igreja". Esse relacionamento, continuou a carta, tornou "impossível" para ele desempenhar seu cargo.

Em entrevista à America, o Sr. Guevarra disse que trabalhou sempre muito bem com o pároco, planejando eventos da comunidade, acolhendo grupos de oração e coordenando o programa do Rito de Iniciação Cristã de Adultos. Disse que tentou separar sua vida privada de seu trabalho paroquial - ele e seu parceiro até decidiram renunciar ao casamento em parte por causa das regras da igreja, mas acabou se tornando muito difícil compartimentar sua vida.

"Então, há cerca de um ano, comecei a divulgar um pouco mais que estava em um relacionamento. Eu senti que era o certo, senti que precisava ser um pouco mais autêntico na minha vida", disse ele. Foi quando o pároco pediu que fosse mais discreto, o que o levou a recuar um pouco.

Independentemente disso, a investigação continuou. Em um ponto, diz que foi questionado por um funcionário da igreja sobre sua "agenda", (referindo-se a uma suposta “agenda gay” por causa do grupo de oração de pessoas L.G.B.T.).

"Bem, é a agenda de todo cristão batizado", ele se lembra de ter respondido ao funcionário. "É sair e fazer discípulos de todas as nações".

Um porta-voz da arquidiocese disse em comunicado: "Qualquer um que venha a trabalhar na Arquidiocese ou em uma das suas paróquias concorda em viver de acordo com os ensinamentos da Igreja Católica e sua teologia sacramental".

E continuou: "É particularmente importante e compreensível que alguém que atue em um papel de liderança ou de ensino na Igreja seja católico praticante e que esteja de acordo com seus ensinamentos. Na legislação em matéria de direitos humanos, isto é referido como uma ‘exigência profissional de boa-fé’ para uma posição específica".

No incidente da Flórida, a porta-voz da outra arquidiocese disse em declaração que a professora havia quebrado seu contrato.

"Como professora em uma escola católica, sua responsabilidade é, em parte, o crescimento espiritual das crianças", disse Mary Ross Agosta. "É preciso entender que, em qualquer corporação, instituição ou organização, existem políticas e procedimentos, ensinamentos e tradições adotados. Se algo ao longo do caminho não continuar dentro desse contrato, então não temos outra escolha".

Mas vários pais dizem que ficaram surpresos e chateados com a forma como foi levado o processo da Sra. Morffi, ao qual foram informados por carta divulgada pela instituição em 8 de fevereiro. Cerca de 20 pais foram para a escola na manhã seguinte para exigir uma explicação.

"Nós ficamos extremamente perplexos. Eles a trataram como uma criminosa e nem a deixaram tirar suas coisas da sala de aula", disse Cintia Cini, mãe de uma das alunas de Morffi. A Sra. Cini disse ao jornal que os pais não sabiam que a Sra. Morffi era gay, mas que não se preocupavam com sua orientação sexual.

"Nossa única preocupação era a forma como ela tratava nossos filhos, da maneira que ela ensinava nossos filhos, e esta mulher, de longe, foi uma das melhores professoras que a instituição tinha", disse Cini.

Ela disse que o diretor falou com cada um dos pais, mas não deu uma explicação clara para a demissão. De acordo com o The Washington Post, a Sra. Morffi postou sobre o casamento nas mídias sociais, fato que a arquidiocese já tinha alertado aos seus funcionários ser contra em 2015, depois que o casamento homossexual foi legalizado na Flórida.

A Sra. Morffi não pôde ser contatada para comentar, mas na sexta-feira publicou um comunicado no Instagram.

"Este fim de semana casei com o amor da minha vida e como resultado, infelizmente, fui mandada embora do meu trabalho ", postou na rede social. "Aos seus olhos, não sou o tipo certo de católica pela minha escolha".

Quanto ao Sr. Guevarra, agora que não está mais empregado pela igreja, disse que está considerando novos estudos teológicos, incluindo explorar mais profundamente sobre o ministério e apostolado L.G.B.T. e talvez até casar com seu parceiro. Ele também está explorando opções legais.

Ele disse ter sido encorajado com palavras de conforto por católicos de todo o mundo e deixou claro que não deixará a igreja.

"Eu cheguei a ouvir um subgrupo em nossa família católica que gritava por aceitação e decidi entrar em contato com eles. E, como resultado, fui demitido", disse ele. "Mas eu sempre serei católico".


America Magazine - Tradução: Ramón Lara

EMGE

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