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Religião

23/02/2018 | domtotal.com

Justiça social: horizonte do agir cristão

Jesus de Nazaré foi exemplar no empenho de reverter o esquema sociorreligioso excludente de sua época.

A fidelidade ao projeto de Jesus – o agir cristão – passa necessariamente pela justiça social, se se pretende ser honesto com o Mestre de Nazaré.
A fidelidade ao projeto de Jesus – o agir cristão – passa necessariamente pela justiça social, se se pretende ser honesto com o Mestre de Nazaré. (Reprodução/ Pixabay)

Por Jaldemir Vitório, SJ*

A expressão justiça social, largamente usada nos documentos da Igreja Católica, aponta para a ordem social regida pelo imperativo do bem comum, da misericórdia e do cuidado com os mais fragilizados, na contramão do pensamento individualista, centrado no interesse dos privilegiados, insensível aos direitos e à dignidade de largas faixas da sociedade.

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A justiça social preocupa-se com o indivíduo e a individualidade, à margem do individualismo; empenha-se por construir a sociedade querida por Deus, onde todos são irmãos e irmãs e se respeitam mutuamente, recusando toda sorte de igualitarismo massificante, bem como os totalitarismos que impõem aos cidadãos um regime opressor, cujos resultados são bem conhecidos por quem acompanha criticamente a história contemporânea da humanidade.

A situação generalizada de injustiça e de violência, que cresce num ritmo avassalador, sem perspectiva de desaparecer, é um aguilhão na consciência dos homens e das mulheres de boa vontade, preocupados com a construção do “outro mundo possível”, com respeito à integridade de cada ser humano. Empenhar-se nesse processo de reversão da iniquidade, produtora de “massas sobrantes”, é a forma correta de empunhar a bandeira da justiça social.

Jesus de Nazaré foi exemplar no empenho de reverter o esquema sociorreligioso excludente de sua época. Por um lado, abraçou um projeto de vida inteiramente voltado para as causas sociais. Reportando-se ao profeta Isaías 61,1-2, compreendeu que sua missão consistiria em proclamar notícias boas para os pobres, dar liberdade aos prisioneiros, restituir a vista aos cegos, livrar os oprimidos de suas cadeias e proclamar aos endividados, escravizados e a quem foi privado de seus direitos a eliminação dessas situações aviltantes, com a chegada do “ano da graça de Deus” (Lc 4,16-21; Lv 25,8-19). Por outro, ensinava os discípulos a provocarem uma verdadeira revolução das estruturas sociais. “Quem se faz pequeno como uma criança, esse é o maior no Reino dos Céus” (Mt 18,4). “Quem quiser se tornar grande, seja o servidor de todos. Quem quiser ser o primeiro, faça-se servo” (Mt 20,26-27). E se apresentava como exemplo a ser seguido. “O Filho do Homem não veio para ser servido, mas para servir e dar a própria vida como resgate por muitos” (Mt 20,28).

As narrativas evangélicas apresentam aos discípulos e às discípulas de Jesus de Nazaré o testemunho exemplar do Mestre na solidariedade com os pecadores (Lc 15,2), os marginalizados (Mt 9,10), os estrangeiros (Mt 8,5-13), as mulheres (Mc 5,21-43), as crianças (Mc 10,14), os doentes (Lc 5,12-26) e os possuídos pelo espírito mau (Mc 9,14-29). Ele os alertava contra as mentalidades mesquinhas e egoístas, sem comiseração com os carentes de proteção. “Cuidado com o fermento dos fariseus, que é a hipocrisia” (Lc 12,1) e, também, dos saduceus (Mt 16,6) e de Herodes (Mc 8,14). Com facilidade os discípulos poderiam ser cooptados por posturas estranhas ao seu projeto e induzidos a se embrenharem por caminhos tortuosos, cujo fim jamais seria do Reino de Deus. Tais “fermentos” serão atentamente evitados, por suas consequências maléficas, perceptíveis nos frutos de injustiça e de desigualdade na contramão do querer do Pai (Mt 7,15-20; 12,33).

Em momento algum de seu ministério, Jesus insistiu em práticas cultuais ou ritualistas, tampouco criou um rígido sistema de leis, bastando-lhe o mandamento do amor mútuo (Jo 13,34) com a exortação de buscar a unidade (Jo 17,21). Não lhe interessava ser fundador de uma nova religião e, sim, de uma sociedade centrada no trato misericordioso com o próximo, na inserção social dos marginalizados e na superação dos preconceitos. A dupla repetição do profeta Oseias 6,6 – “Quero misericórdia e não sacrifícios” (Mt 9,13; 12,7) – aponta o foco da pregação e da ação do Mestre de Nazaré. O caminho para Deus passa (in obliquo) pelo irmão e pela irmã sofredores. Deus não é encontrado (in recto) pela via do culto. Em outras palavras, o caminho da justiça social é o único que leva a Deus. O apego às imposições legalistas das religiões, sem a contrapartida do cuidado com o próximo, de nada vale. Daí a invectiva de Mt 23,23: “Ai de vós, escribas e fariseus hipócritas! Vós pagais o dízimo da hortelã, da erva-doce e do cominho, mas desprezais as coisas mais importantes da Lei: a justiça, a misericórdia e a fidelidade. Vós deveis praticar estas coisas, sem deixar de lado aquelas”. A solidariedade com o irmão e a irmã necessitados está acima de qualquer prescrição ou tradição religiosa, por mais venerável que seja (Lc 6,6-11).

A fidelidade ao projeto de Jesus – o agir cristão – passa necessariamente pela justiça social, se se pretende ser honesto com o Mestre de Nazaré. Certas tendências de igrejas ditas cristãs destoam completamente do evangelho ao preterirem o agir inerente à justiça social e se centrarem nos cultos barulhentos, no cultivo de liturgias exibicionistas, na exploração dos pobres com a prática intransigente do dízimo, na transformação das igrejas em empresas e casas de shows, na substituição do Evangelho pela cartilha do neoliberalismo e do individualismo moderno e tantos outros desvios.

Pensar o agir cristão sem a justiça social como horizonte resulta em banalizá-lo e torná-lo irrelevante. Haverá quem considere esse pensamento sobre o ethos evangélico um desvio político da fé e, mais radicalmente, sua contaminação pela ideologia marxista. Tratam-se de leituras periféricas e impróprias da tradição cristã, por não se darem ao trabalho de contemplar o exemplo de Jesus de Nazaré dos evangelhos e seu caminho de acatamento radical do projeto do Pai, contrariando os modelos religiosos e políticos de seu tempo. O fato de as instituições ditas cristãs – igrejas – terem se “apoderado” de Jesus de Nazaré resultou na descaracterização de seu projeto, centrado no agir em consonância com o agir do Pai (Mt 6,33; Lc 6,36), substituindo-o por dogmas, doutrinas, devocionalismos e práticas afins, gerenciados por líderes despóticos, quando não insensíveis aos sofrimentos do povo, sem qualquer preocupação com a fidelidade ao Reino que ele proclamou. Aqui não tem lugar para a justiça social! Igualmente não tem lugar para Jesus de Nazaré e para Deus, pois o pretenso agir cristão deixou de lado seu horizonte peculiar.

*Jaldemir Vitório é padre jesuíta, doutor em Exegese Bíblica, professor de Teologia na FAJE (Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia).

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