;
Engenharia Ensaios em Engenharia

27/02/2018 | domtotal.com

Queijo, ratos, populismo e politicagem

Espero que na Ratolândia haja eleições livres onde as urnas sejam realmente seguras.

Espero também que na Ratolândia se compreenda que urnas são feitas para contar votos.
Espero também que na Ratolândia se compreenda que urnas são feitas para contar votos. (Reprodução)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Caros leitores,

Esta estória não é nova nem no sentido figurado nem no sentido literal. Certamente inspirado em diversas versões de fábulas mais antigas e acessível para adultos e crianças (e também para a combinação de ambos) inclusive no YouTube, ela não pede licença para, no contexto do Brasil atual,  passar diante de nossos olhos como um filme de realidade tão explícita que atropela a própria metáfora. Os termos populismo e politicagem no título deste texto se devem simplesmente ao fato de que, no meu entendimento, eles terem sido as principais ferramentas dos protagonistas do poder no país nos últimos anos. Populismo e politicagem não estão à altura dos nobres objetivos da política, embora seus agentes façam um pouco de tudo para fazer parecer que estão. Ou pior ainda, que são a própria e verdadeira política.

 “Era uma vez um bando de ratos que vivia no buraco do assoalho de uma casa velha. Havia ratos de todos os tipos: grandes e pequenos, pretos e brancos, velhos e jovens, fortes e fracos, da roça e da cidade.

Mas ninguém ligava para as diferenças, porque todos estavam irmanados em torno de um sonho comum: um queijo enorme, amarelo, cheiroso, bem pertinho dos seus narizes. Comer o queijo seria a suprema felicidade…Bem pertinho é modo de dizer.

Na verdade, o queijo estava imensamente longe porque entre ele e os ratos estava um gato… O gato era malvado, tinha dentes afiados e não dormia nunca. Por vezes fingia dormir. Mas bastava que um ratinho mais corajoso se aventurasse para fora do buraco para que o gato desse um pulo e, era uma vez um ratinho…Os ratos odiavam o gato.

Quanto mais o odiavam mais irmãos se sentiam. O ódio a um inimigo comum os tornava cúmplices de um mesmo desejo: queriam que o gato morresse ou sonhavam com um cachorro…

– O queijo é grande o bastante para todos, dizia um.

– Socializaremos o queijo, dizia outro.

Todos batiam palmas e cantavam as mesmas canções.

Era comovente ver tanta fraternidade. Como seria bonito quando o gato morresse! Sonhavam. Nos seus sonhos comiam o queijo. E quanto mais o comiam, mais ele crescia. Porque esta é uma das propriedades dos queijos sonhados: não diminuem: crescem sempre. E marchavam juntos, rabos entrelaçados, gritando: “o queijo, já!”…

Sem que ninguém pudesse explicar como, o fato é que, ao acordarem, numa bela manhã, o gato tinha sumido. O queijo continuava lá, mais belo do que nunca. Bastaria dar uns poucos passos para fora do buraco. Olharam cuidadosamente ao redor. Aquilo poderia ser um truque do gato. Mas não era.

O gato havia desaparecido mesmo. Chegara o dia glorioso, e dos ratos surgiu um brado retumbante de alegria. Todos se lançaram ao queijo, irmanados numa fome comum. E foi então que a transformação aconteceu.

Bastou a primeira mordida. Compreenderam, repentinamente, que os queijos de verdade são diferentes dos queijos sonhados. Quando comidos, em vez de crescer, diminuem.

Assim, quanto maior o número dos ratos a comer o queijo, menor o naco para cada um. Os ratos começaram a olhar uns para os outros como se fossem inimigos. Olharam, cada um para a boca dos outros, para ver quanto queijo haviam comido. E os olhares se enfureceram.

Arreganharam os dentes. Esqueceram-se do gato. Eram seus próprios inimigos. A briga começou. Os mais fortes expulsaram os mais fracos a dentadas. E, ato contínuo, começaram a brigar entre si.

Alguns ameaçaram a chamar o gato, alegando que só assim se restabeleceria a ordem. O projeto de socialização do queijo foi aprovado nos seguintes termos:

“Qualquer pedaço de queijo poderá ser tomado dos seus proprietários para ser dado aos ratos magros, desde que este pedaço tenha sido abandonado pelo dono”.

Mas como rato algum jamais abandonou um queijo, os ratos magros foram condenados a ficar esperando. Os ratinhos magros, de dentro do buraco escuro, não podiam compreender o que havia acontecido.

O mais inexplicável era a transformação que se operara no focinho dos ratos fortes, agora donos do queijo. Tinham todo o jeito do gato o olhar malvado, os dentes à mostra.

Os ratos magros nem mais conseguiam perceber a diferença entre o gato de antes e os ratos de agora. E compreenderam, então, que não havia diferença alguma. Pois todo rato que fica dono do queijo vira gato. Não é por acidente que os nomes são tão parecidos.

“Qualquer semelhança com fatos reais é mera coincidência!” “

O queijo e os ratos. Da “Estórias de Bichos”. Rubem Alves. Ed. Loyola, p.16-18

O título deste breve artigo foi adaptado do texto original de Rubem Alves para explicitar os últimos quinze anos de história da esquerda brasileira, mas poderia ser facilmente estendido, por exemplo, para toda a esquerda latino americana nas últimas quase duas décadas. Não precisa falar muito. Basta olhar a Venezuela, dentre outros países, cujas imagens já lhes vieram certamente aos olhos.

Mas para aqueles leitores que estiverem inferindo que este é um texto hemiplégico e com viés ideológico segue uma observação importante. Evidentemente a metáfora não se aplica exclusivamente à esquerda. Basta acompanhar os fatos e ter um pouco de curiosidade de ler e entender história. Se estivesse escrevendo este texto no século passado poderia ter escolhido uma miríade de outras siglas partidárias embora realmente acredite que a escala dos acontecimentos mais recentes não tem precedentes na história. A avidez pelo poder não tem diferenças. Os desvios para mantê-lo a qualquer custo têm, entretanto, as suas nuances, sobretudo no que refere à própria existência e evolução das instituições democráticas, das liberdades individuais e da gestão responsável da economia para uma distribuição sustentável de riquezas. E estes desvios inexoravelmente resultam em tragédias e alguns vieses ideológicos conseguem ser mais perigosos e danosos do que outros.

Aqui cabem algumas considerações:

  • O gato sumiu. Sumiu como? Ora, pode ter ficado rico, pode ter percebido que é mais forte que um rato, mas não que milhões e pode ter sido alijado de seu poder ou pode simplesmente ter morrido. Sim, gatos não são eternos. Eles morrem assim como qualquer rato que vire gato ou gato que vire cachorro. Impressionante que esses animais não tenham consciência disso, exceto talvez na intuição que pressente a aproximação do fim.
  • Não existe queijo público. Existe apenas a contribuição de queijo feita por cada rato a partir do queijo produzido por cada um destes ratos através de seu trabalho e de seu esforço. Por outro lado se os gestores do queijo não procuram facilitar os meios e as condições para a fabricação de queijos, ou se a contribuição de queijos para a formação do queijo público é quase do tamanho do próprio queijo individual fabricado, ou se a contribuição acaba digerida apenas para sustentar legalmente ou não uma casta de ratos, não há Ratolândia que se sustente ou sobreviva! Imaginem todas estas coisas combinadas... E eu aposto que na estória acima, embora não esteja explícito no texto, deve ter um monte de ratos dispostos a deixar tudo isso acontecer e, mais ainda, promover tudo isso para ser dono do queijo público que tratará como seu.
  • Queijo artificial faz mal a saúde e não enche a barriga. Fabricá-los para cobrir demandas sem controle de uma política fiscal de queijos sempre leva a uma inflação de queijo que come o próprio queijo fazendo-o desaparecer e trazendo mais fome

Enfim, tudo isso posto, só me resta um consolo. Como se sabe de longa data, é possível enganar um indivíduo o tempo todo, é também possível enganar muitos indivíduos por muito tempo, mas não é possível enganar todos os indivíduos o tempo todo.  Espero que na Ratolândia haja eleições livres onde as urnas sejam realmente seguras. Espero também que na Ratolândia se compreenda que urnas são feitas para contar votos e não substituem ou se sobrepõe a processos legais contra eventuais candidatos. Tomara, pois ao contrário a Ratolândia nunca deixará de ser uma “ratolândia”.

Finalmente meus alunos de engenharia podem estar se perguntando o que tudo isso tem a ver com o curso de engenharia. A resposta é simples: Em “ratolândias” não há setor de infraestrutura que se sustente. O setor é uma vítima e um meio de perpetuação de “ratolândias” e isso é uma coisa que não podemos aceitar para o nosso Brasil e temos os meios para eliminar. Aliás, não podemos aceitar nenhum tipo de “ratolândia”, seja de esquerda, de direita, uma combinação de ambas ou, pior ainda, uma “ratolândia” que não tenha forma nenhuma!

Jose Antonio de Sousa Neto é professor da EMGE.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas