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Religião

23/02/2018 | domtotal.com

Justiça social versus individualismo

A superação da desigualdade social passa, primeiro, por uma conversão.

Na afirmação da individualidade, tendemos a romper com a coletividade, resvalando no individualismo.
Na afirmação da individualidade, tendemos a romper com a coletividade, resvalando no individualismo. (Reprodução/ Pixabay)

Por Gilmar Pereira*

Quando se fala de justiça social pode se ter em mente o equilíbrio das relações no interior da sociedade bem como a igualdade de direitos dos que a compõem. O bem estar individual, nesse sentido, dependeria da felicidade coletiva, principalmente quando se tem conta que o humano é um ser social por excelência.

Somos fundados pelo rosto do outro e, como seres de linguagem, por nossa comunidade. Sei de minha existência a partir daquilo que não sou eu – em linguagem filosófica, trata-se do problema do eu que gera o não-eu e do não-eu que gera o eu - e cada um significa aquilo que apreende da realidade conforme o sistema cultural herdado. Nossa realização como indivíduos não se separa de nossa realização como seres sociais.

O problema é que, na afirmação da individualidade, tendemos a romper com a coletividade e tal ruptura pode ser mais ou menos drástica, resvalando no individualismo. O centramento da pessoa no próprio eu faz com que se perca o tu, o rosto do outro. Ele deixa de ser alguém com dignidade própria e passa a ser algo em função de outra coisa, como uma mera engrenagem num sistema que precisa funcionar para a satisfação pessoal. Assim, o atendente da lanchonete, o motorista do ônibus, o professor que leciona, todos só são importantes à medida que prestam seus serviços com qualidade atendendo minhas necessidades ou não me prejudicando mesmo que indiretamente. Esse retrato do individualismo se sente quando, por exemplo, a violência no Rio só é problema quando se quer viajar para lá ou quando a valorização salarial dos policiais só é considerada quando se tem em vista que sua motivação é importante para manter a própria segurança e não da sociedade.

O individualismo gera uma bolha onde o bem-estar pessoal é o que importa e, para isso, costuma-se, inclusive, prejudicar ou destruir quem atrapalha. Nessa lógica, fingir não ver o idoso de pé no ônibus para não ceder lugar, bem como desviar verbas a custo da saúde dos outros se justifica. “Primeiro tenho que amar a mim mesmo”, dizem, esquecendo-se que a soberba, essa absolutização do eu é a mãe de todos os pecados. Aliás, o próprio santo Agostinho definia pecado como “amor de si mesmo até o desprezo de Deus”.

A superação da desigualdade social passa, primeiro, por uma renovação espiritual da inteligência, mudança de mentalidade, metanoia, conversão. Ela, contudo, não consiste em simples mudança pessoal. Já que se trata de descentramento do próprio amor, querer e interesse; ela repercute social e politicamente: fazer aos outros aquilo que gostaria que fizessem a si. Essa regra de ouro, presente em diversas culturas e testemunhada nos Evangelhos encontra eco no primeiro artigo da Declaração Universal dos Direitos Humanos: "Todos os seres humanos nascem livres e iguais em dignidade e em direitos. Dotados de razão e de consciência, devem agir uns para com os outros em espírito de fraternidade".

Apesar de nascermos iguais em dignidade, nem todos conseguem gozar dos mesmos direitos, nem todos têm as mesmas oportunidade. Só seremos iguais quando assim formos tratados. Portanto, além da mudança pessoal, há de se mudar as estruturas que corroboram a injustiça.


Élio Gasda traça um panorama sobre a justiça social, buscando ampliar seu significado e compreender a influência da lógica do capital na injustiça. A partir do olhar da doutrina social da Igreja, no texto Meu Deus, está extinta a escravidão? Retrocessos na Justiça Social, o autor reflete sobre o cenário atual.

Jaldemir Vitória, no texto Justiça social: horizonte do agir cristão, busca olhar para Jesus como modelo de justiça social. Embora seja comum a leitura de seu ministério de modo espiritualista, sua insistência não estava nas práticas religiosas senão na misericórdia para com o próximo, a reinserção social do marginalizado e a superação dos preconceitos, pontos fundamentais para a edificação de uma sociedade justa e igualitária.

Refletindo sobre privilégios e direitos, Felipe Magalhães Francisco, no texto O pedregoso caminho para a justiça social, trata dos pilares cristãos necessários para uma sociedade justa: o amor e a renúncia. Segundo o autor, a vivência desses fundamentos tem o poder de realizar esse novo mundo, a utopia é lugar possível.

Boa leitura!

*Gilmar Pereira é mestre em comunicação e semiótica, teólogo, bacharel e licenciado em filosofia e fotógrafo. Gosta de ministrar aulas, dar palestras e de arte.

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