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23/02/2018 | domtotal.com

Estado de Sítio

A olhos vistos, a tradicional autoestima e o alto astral carioca vão dando lugar ao receio, ao desassossego, ao pavor das ruas.

Presságio do que virá e dura clareza das consequências para os mais desprotegidos e fragilizados socialmente.
Presságio do que virá e dura clareza das consequências para os mais desprotegidos e fragilizados socialmente. (Wilton Junior/AE)

Por Eleonora Santa Rosa*

Imagens recentes de crianças, pobres e mulheres em revista ostensiva por tropas militares chocam ainda mais do que as cenas de barbárie de assaltos covardes e selvageria destrutiva nas ruas do Rio de Janeiro durante o Carnaval. Presságio do que virá e dura clareza das consequências para os mais desprotegidos e fragilizados socialmente.

Sitiada cidade com a vã esperança de segurança externa militarizada em guerra aberta contra si mesma. Não há de dar certo repressão em medida agressiva e ostensiva sem qualquer investimento em sólidas políticas públicas sociais, sem garantias de acesso ao básico exigido para o exercício de cidadania, sem a mudança de costumes e hábitos (a droga chega para quem mesmo? Quem consome é tão responsável quanto quem distribui), sem uma imensa ‘consertação’ de esforços de todas as entidades de representação de mobilização popular, de moradores, de interlocutores de todos segmentos da sociedade, dos poderes instituídos, mesmo que hoje destituídos de crença e crédito, complexíssima engenharia para um complexíssimo rosário de problemas do agravadíssimo estado da antiga Guanabara.

A olhos vistos, a tradicional autoestima e o alto astral carioca vão dando lugar ao receio, ao desassossego, ao pavor das ruas, dos cruzamentos, dos túneis, da orla, dos morros, do centro, da zona sul e das demais zonas, da periferia. A barra pesou para todos os lados. O respiro do Carnaval, a trégua esperada, foi por água abaixo, literalmente. Sitiados e submersos, moradores assistiam em rede nacional o martírio passado há pouco na vida real das esquinas.

Sentimento-resumo: medo! Medo da violência, da agressão gratuita, do roubo covarde, da bala perdida, do infortúnio. Traumas agravados pela impotência individual, pela descrença em relação às autoridades, pelo alastramento da corrupção, pela falência dos serviços públicos, enfim, um desalento sem fim.

Iniciativas do bem existem, pessoas de bem também, assim como ações modelares e dignas estão em curso, sobretudo por parte das organizações da sociedade civil, de lideranças comunitárias, de mobilizadores, de entidades humanitárias, de personalidades, de artistas, de empresários, religiosos, professores, gente de fundamental importância comprometida com a transformação do quadro de mazelas e violência em escala abismal, reside aí a esperança de melhores dias, da fundação de uma cadeia de paz, generosidade e prosperidade em detrimento à cadeia-jaula de violência, discriminação e deformação.

* Jornalista e produtora cultural.

EMGE

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