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13/03/2018 | domtotal.com

TV e publicidade

No mundo do intervalo comercial, emissoras e muitos artistas acabam deixando a integridade de lado para embolsar algum.

Venda de espaços na televisão: um assunto que deve ser discutido a fundo.
Venda de espaços na televisão: um assunto que deve ser discutido a fundo. (Reprodução)

Por Alexis Parrot*

Os espaços vendidos pelos canais de TV para companhias de vendas ou denominações religiosas, principalmente as evangélicas, são um verdadeiro absurdo. O aviso que antecede a exibição desses programas tenta isentar o canal exibidor de qualquer responsabilidade - como se isso fosse possível.

Se está sendo exibido no canal X, a responsabilidade da exibição é do canal X e não de quem comprou o horário. É de quem vendeu. Principalmente porque está vendendo algo que não lhe pertence.

Apesar de ser uma tecla antiga, infelizmente, é necessário que continuemos a batucá-la: todo canal de televisão no Brasil é uma concessão pública. Ou seja: é nosso. A exploração comercial é prevista, mas os deveres e obrigações dos concessionários não podem ser colocados sobre os ombros de terceiros. A césar o que é de César.

O único fato neste cenário que não soa absurdo é o tratamento equiparado que os dois tipos de empresa recebem do departamento comercial das emissoras. Afinal, tanto as organizações varejistas quanto as de dízimo trabalham de sol a sol com fins estritamente lucrativos.

Se algum dia a defesa do que é público (em detrimento dos interesses pessoais) voltar a ser prioridade para os ocupantes do Palácio do Planalto, este é um tema que deve ser discutido a fundo.    

Mas não são só as emissoras que pecam nesse verdadeiro quarto círculo do inferno. No universo dos espaços comerciais da TV, todo mundo quer faturar um dinheirinho. Os artistas engrossam a fileira.

Por mais constrangedor que seja para o ator, não causa espanto assistirmos  Malvino Salvador dentro de um ofurô em praça pública fazendo propaganda para a Vivo. Será que ele não sabe que as operadoras de telefonia são campeãs nacionais em reclamações no Procon por ferirem sistematicamente todo e qualquer direito do consumidor? Não sabe ou não se importa?

Tanto Tony Ramos quanto Fátima Bernardes, temendo por sua imagem, pularam fora do barco da JBS ao primeiro sinal de naufrágio. Reagiram acertadamente mas, antes disso, passaram anos assinando embaixo do que vendiam os irmãos Batista. Podem sempre alegar ignorância - mas isso diminui o pecado original?

A lábia de Wesley e Joesley deve mesmo ser muito boa... Se até o Robert De Niro fez propaganda para a Seara, não dá mesmo para duvidar que nosso presidente de republiqueta de bananas também pudesse estar na folha de pagamento dos empresários.

Todo mundo tem direito a aumentar a renda (até o presidente?), mas tem faltado discernimento para os artistas que acabam emprestando a cara para vender qualquer coisa na televisão.

No momento, chama atenção a presença do hit da carioca Jojo Todynho no novo reclame do McDonald's. O funk Que tiro foi esse? (polêmico já no nascedouro, por falar de tiros com a segurança pública em cheque no Brasil inteiro) é o condutor do comercial onde a cantora sequer aparece.

Afilhada artística de Anitta, a também funkeira Jojo foi alçada ao estrelato após a participação no clipe Vai Malandra, na laje da amiga. Tanto faz se achamos ou não de mau gosto ou inapropriada a tal música. Jojo é um sucesso.

Aliás, Anitta é outra que não abre mão de aparecer em comerciais e, pelo jeito, Jojo vai seguindo o norte que a madrinha lhe aponta. Mas logo para o McDonald's?

Para quem assume um discurso político pela periferia e a favor do empoderamento da mulher e das minorias, não pode ser difícil saber que o McDonald's tem sido questionado há anos na justiça com acusações de explorar seus empregados em trabalho que pode ser considerado análogo à escravidão.

Igualmente, não é complicado descobrir que a rede de fast food volta e meia sofre com protestos denunciando o problema da obesidade infantil ao redor do mundo (sobre este aspecto da questão, o documentário Super Size Me, de 2004, continua atual e importante).

Concordo que a Jojo pode usar sua música para vender qualquer coisa que quiser. Mas é importante que saibamos que é exatamente isso que ela faz; mesmo que, com a venda acabe por contradizer a si mesma e ao seu trabalho. Falta critério.

No mundo do intervalo comercial, emissoras e muitos artistas acabam deixando a integridade de lado para embolsar algum. Jojo é apenas a mais nova recém-chegada no pedaço.

Mesmo com a carreira ainda iniciando, Jojo Todynho já está no mesmo patamar de Malvinos, Fátimas e Tonys. No aspecto comercial, é uma artista pronta.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

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