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Religião

14/03/2018 | domtotal.com

A série 'Pope', da CNN, peca muito nos detalhes - mas também tem seus méritos

CNN lança série sobre o papado. À parte alguns erros, o documentário continua trazendo pontos importantes.

Estátua de São Pedro de Giuseppe De Fabris situada na Basílica dedicada ao santo no Vaticano.
Estátua de São Pedro de Giuseppe De Fabris situada na Basílica dedicada ao santo no Vaticano. (Wikimedia Commons/Lure)

Por Michael Sean Winters*

Eu sempre fico um pouco desconfortável quando vejo os principais meios de comunicação se virando para a Santa Igreja. A CNN sempre fez um ótimo trabalho com suas séries sobre as décadas de 1970 e 1980 quando ainda há um amplo material e as suas narrativas ainda são um misto de história e memória, dada a sua atualidade. Porém, eu me perguntei: como seria o novo seriado lançado esta semana sobre o papado? Em geral, considero o primeiro episódio, intitulado "O Papa: o homem mais poderoso da história", um B-. Em outras palavras, razoável.

As palavras de abertura - "Um dos homens mais poderosos da terra..." - e o subtítulo da série pareciam pouco promissores. O poder na vida da igreja continua sendo incompreendido e mal utilizado, às vezes por aqueles que o possuem, mas ainda mais frequentemente por aqueles que o desejam. Temi que eles estivessem começando a série com o pé errado; acreditava, como muitos, pelo menos intelectualmente, que o primeiro passo para a compreensão é discernir as relações de poder em uma determinada situação, e certamente o papado se beneficiaria de uma lente mais ampla e mais complicada.

Nem foi reconfortante ver que o primeiro especialista entrevistado era Anthea Butler, da Universidade da Pensilvânia. Lembro-me dos comentários de Butler antes da viagem de 2010 do Papa Bento XVI ao Reino Unido. Quando ela falou sobre o Papa: "Ele parece diferente de um Charles Taylor ou outra pessoa que teve filhos soldados e crianças abusadas?" Bem, na verdade, Bento parecia diferente do cruel Taylor, e estudiosos e jornalistas informados reconheceram em Bento XVI um campeão no esforço para livrar a igreja do flagelo do abuso sexual do clero.

Poucos minutos depois, o representante de Nebraska, Jeff Fortenberry juntou-se ao circo de horrores! Opa! Mas a maior parte do que Butler tinha a dizer neste primeiro episódio foi inofensivo, um pouco perspicaz, mas os comentários de Fortenberry não eram nem particularmente iluminantes e nem perturbadores.

Ao explicar as origens do papado na vida de São Pedro, no entanto, dois especialistas atingiram o alvo. O cardeal de Washington, Donald Wuerl, citou Mateus 16 e explicou que Pedro e, portanto, o papado, se tornaram "a voz de autenticação".

Susan Wise Bauer, do Colégio de William e Mary, que não é um estudioso da religião, ofereceu um comentário igualmente reflexivo, dizendo que Pedro se tornou "o símbolo da fé inabalável de que Jesus é o Filho de Deus, que é o centro da vida cristã". Ambas as partes desse comentário são críticas, o papel de Pedro e a centralidade da confissão de fé, e não da ética, na Igreja cristã primitiva.

Bauer também ressalta que, embora muitas cidades desenvolvessem comunidades cristãs no primeiro século, apenas em Roma existia uma dessas comunidades lideradas por um apóstolo e não apenas por qualquer apóstolo, mas pelo melhor amigo de Jesus quando caminhava sobre a Terra.

Na visão típica da TV, o ator que interpreta Nero é pouco atraente e parece encurvado, e o ator que retrata Constantino é mais bonito e forte. Todavia, não sabemos como eram esses homens, nem se seu rosto afetou ou não sua maneira de governar.

O que é mais preocupante: o especialista Allen Callahan, ministro batista e teólogo, errou na história de Constantino, ou o editor do programa assim fez parecer. A narrativa repete a história da visão de Constantino na Ponte Milvian, sua vitória subsequente e sua ligação entre os dois. "Ele decide ser um cristão", diz Callahan. O narrador acrescenta: "Um dos seus primeiros atos oficiais como o primeiro imperador cristão de Roma foi emitir o Edito de Milão".

Não sabemos quando Constantino decidiu se tornar um cristão, mas ele certamente não era cristão quando emitiu o Edito de Milão; ele se recusou a ser batizado até que ele estivesse em seu leito de morte.

No entanto, a discussão sobre a forma como a igreja se tornou próxima da vida do governo durante o mandato de Constantino é principalmente bem feita. Mas a afirmação de Bauer de que "Constantino é a razão pela qual as igrejas que estão nos Estados Unidos têm status isento de impostos" é uma divagação, e Callahan traz luz sobre as diferenças doutrinárias da época. A imagem na tela quando o narrador discute o Conselho de Niceia mostra os cardeais renascentistas e o Papa em sua tiara de três camadas. O narrador afirma que Niceia supôs a "fundação do Colégio dos Cardeais do Papa hoje". Contudo, os cardeais vieram séculos mais tarde, e não havia nenhum Papa em Niceia.

Mas, à parte desses erros, o documentário continua trazendo pontos importantes, pois Bauer explica pela primeira vez o declínio de Roma depois que Constantino transferiu sua capital para Constantinopla, e logo depois aponta: "A igreja é a única instituição em Roma capaz de atender às necessidades do sofrimento das pessoas".

Caroline Goodson, da Universidade de Londres, faz uma das poucas afirmações que parecem anacrônicas. "O povo de Roma era dependente da igreja como um Estado, não como uma igreja que supervisionava a relação entre Deus e o homem, mas como uma igreja que levava ao povo comida, água e segurança", diz ela. Esse tipo de distinção nítida entre o secular e o sagrado é exclusivo da modernidade, e não aconteceu até a metade do primeiro milênio.

Parecia estranho para mim que, enquanto o programa fez um bom trabalho explicando as Cruzadas e como estas foram entendidas como "um ato de piedade", não há discussão sobre o Grande Cisma entre Oriente e Ocidente. Da mesma forma, como é completa a história do papado sem mencionar Gregório O Grande? A história salta diretamente da queda de Roma para o reinado de Leão XIII.

Mais uma vez, Bauer explica a grande narrativa da maneira mais convincente. "Eles [o povo do Ocidente] sabem que alguém está cuidando deles, e todas as instituições terrenas estão, por outro lado, falhando, mas ter uma instituição que se dedica a olhar de maneira paterna para as pessoas que estão perdidas, desviadas e sofrendo, aquelas em que a necessidade, nunca vai embora".

Se eu estivesse fazendo um documentário sobre a história da Igreja Católica, a última pessoa que eu gostaria que o revisasse seria eu mesmo. Não quero me focar demais nos detalhes - a grande narrativa aqui é muito melhor do que a habitual. Ainda assim, na parte introdutória, as imagens dos papas contemporâneos começam com Pio XII, depois João XXIII, e depois pulam para João Paulo II. Espero que no momento em que chegarmos ao final do século 20, o Papa Montini receberá o seu devido reconhecimento.

 De uma perspectiva geral, para pessoas cujo conhecimento do papado é limitado ou tendencioso, este primeiro episódio é equilibrado e reflexivo; seus erros não são de modo algum fatais, e aguardo ansiosamente o próximo episódio.


National Catholic Reporter - Tradução: Ramón Lara

*Michael Sean Winters cobre a seção de religião e política na NCR.

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