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Religião

22/03/2018 | domtotal.com

Em nome de Deus e do povo sofrido: Parem a repressão!

O defensor dos explorados e torturados pela ditadura das oligarquias também foi taxado de marxista.

A execução de pessoas como Romero e tantos outros defensores da justiça social é uma prova de força do conservadorismo.
A execução de pessoas como Romero e tantos outros defensores da justiça social é uma prova de força do conservadorismo. (Rodrigo Arangua / AFP)

Por Élio Gasda*

“A história da Igreja na América Latina divide-se em antes e depois de Monsenhor Romero” (Gustavo Gutierrez). Era um dia 23 de março 1980, missa das 8hs. Catedral superlotada, centenas de pessoas reunidas do lado de dentro e de fora acompanhavam a celebração. Aquele sermão entrou para a história. Depois de relatar o catálogo de barbáries e violações de direitos humanos, com execuções extrajudiciais pelo exército e pelas milícias, dom Romero disse que se os soldados recebessem ordens para matar civis inocentes, deveriam desobedecer, porque nenhum soldado está obrigado a obedecer a uma ordem contra a Lei de Deus. “Em nome de Deus e deste povo sofrido, cujos lamentos sobem para o céu cada dia mais tumultuosos, eu lhes suplico, lhes imploro, lhes ordeno, em nome de Deus: Parem a repressão!”. A catedral rompeu em demorado aplauso. No dia seguinte, o bispo foi executado enquanto presidia a eucaristia para enfermos e freiras no hospital da Divina Providência.

O assassinato de Romero tocou nas estruturas do país. Em 1979 o presidente eleito sofreu um golpe militar financiado pelos Estados Unidos. A Comissão da Verdade da ONU descobriu que os militares e os esquadrões da morte haviam cometido 85% das atrocidades durante a guerra civil (1972-1992) que matou mais de 75 mil pessoas e expulsou mais de 1,5 milhão de refugiados. O assassinato do jesuíta Rutílio Grande impactou na vida de um bispo apegado às fórmulas doutrinais. Ver como seu povo era tratado pelo governo o transformou porque “os pobres são carne de Cristo” (Papa Francisco).

Por isso o mataram. Assim, “com Dom Romero Deus passou por El Salvador” (Ignácio Ellacuría). Afinal, o que é conhecer a Deus senão praticar sua vontade (1Jo 2,3ss) e fazer justiça ao pobre (Jr 22,16; Mt 25, 31-46)? A Igreja não modificou a definição de mártir, mas ampliou a definição da “fé que é odiada” para incluir sua Doutrina Social sobre a justiça e a opção pelos pobres. Portanto, sua morte “não apenas politicamente motivada, mas deveu-se também ao ódio pela fé que, combinada com a caridade, não ficaria em silêncio quando confrontada com as injustiças que cruelmente afligiram os pobres e aqueles que os defendiam” (Vicenzo Paglia, Presidente do Pontifício Conselho para a Família). A luta pela justiça é real.

Doutrina social da Igreja em movimento. Assim se escreveu a mais bela página da história da Igreja de El Salvador. O defensor dos explorados e torturados pela ditadura das oligarquias também foi taxado de marxista. Papa Francisco o qualificou de “bispo-mártir, ilustre pastor e testemunha do Evangelho e defensor da Igreja e da dignidade humana, porta-voz do amor de Cristo entre todos, especialmente entre os pobres, os marginalizados e excluídos da sociedade".

Como estar à altura dos acontecimentos? Os poderosos odeiam a fé que se opõem à injustiça. Um mundo de pobres e milionários, vítimas e carrascos, uma civilização gravemente, mortalmente doente. Conhecer a realidade, responsabilizar-se pelos injustiçados, encarregar-se da realidade social. A inteligência não foi dada ao ser humano para ele fugir dos compromissos, mas para responsabilizar-se pelas coisas como elas realmente são e pelo que realmente exigem. Um assassinato representa o sentido dessa responsabilidade. Responsabilizar-se pelo sofrimento do povo até o fim.

Cada execução é um tiro na esperança. Fuzis estão apontados para as periferias do mundo. A execução de pessoas como Romero e tantos outros defensores da justiça social é uma prova de força do conservadorismo. Marielle é mais uma inscrita neste contexto, tornou-se um acontecimento que desmascara o inferno da violência e explorações. Exige pensar a realidade das maiorias e minorias que tem nome próprio. Esquadrões se multiplicam, executando Romeros e Marielles que se levantam contra os senhores da morte. Recordam-nos que ainda somos humanos e que os pobres não aguentam mais. O futuro possível da humanidade depende deles.

“Jesus também tentou melhorar o mundo e foi assassinado precocemente. O Evangelho fala que o grão cai na terra e dá frutos. Quando se mata uma pessoa parece que tudo termina, mas não. No caso de Jesus, ele influenciou toda a humanidade. Frutos também são aquelas pessoas que tentam seguir esse exemplo” (Mário de França Miranda). Fermentos na massa, grãos de trigo. Deus continua passando... Das “crias da Maré”, do Palmital, do Aglomerado da Serra, da Pedreira, do Morro do Papagaio, do Dandara e tantas outras vilas e aglomerados pode vir a salvação. Extra pauperes nulla sallus.

*Élio Gasda é doutor em Teologia, professor e pesquisador na FAJE. Autor de: Trabalho e capitalismo global: atualidade da Doutrina social da Igreja (Paulinas, 2001); Cristianismo e economia (Paulinas, 2016).

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