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10/04/2018 | domtotal.com

Sapiens x Big Data

A grande preocupação neste novo mundo e nesta nova realidade seria o potencial aparecimento e a ascensão de ditaduras digitais.

O que é preciso para
O que é preciso para "hackear" um ser humano? (Reprodução)

Por Jose Antonio de Sousa Neto*

Há poucas semanas o escândalo do uso inapropriado de dados dos usuários do Facebook pela empresa britânica Cambridge Analytica trouxe novamente à superfície um assunto muito sério. Digo novamente porque questionamentos e a grande preocupação sobre a concentração de dados por empresas como o Facebook, Google e similares já estão presentes há um tempo razoável e de maneira consistente. Esta questão vai muito além do indivíduo e hoje se tornou um tema central no que se refere ao atual, mas sobretudo, e com uma importância para a qual é difícil até achar adjetivos apropriados, sobre o futuro poder geopolítico no mundo. Líderes dos países ocidentais mais avançados, da China e da Rússia podem ser acompanhados falando com frequência e abertamente sobre o tema na mídia internacional.

Apesar disso, talvez ninguém tenha apresentado uma perspectiva mais instigante sobre estas questões do que o professor Yuval Noah Harari do departamento de história da Universidade Hebraica de Jerusalém. Harari tem influenciado com suas ideias líderes em todo o mundo, sejam nos governos, nas empresas e nos mais variados tipos de organizações. Para se ter uma ideia, em um evento bem recente de lideranças globais, a chanceler alemã, em meio a um número enorme de pessoas, se desviou de seu trajeto para ir ao encontro do professor Harari, cumprimentá-lo e dizer: "eu li o seu livro!"

Na verdade ele já tem dois grandes best sellers publicados, Sapiens: Uma breve história da humanidade e Homo Deus: Uma breve história do amanhã e estará publicando em breve o livro 21 lições para o século 21. O tema central e recorrente é sobre a questão dos dados e o que nós fazemos e vamos fazer com eles.

No momento em que o assunto é o Facebook, Harari tem uma percepção bastante provocativa do tema. Um tópico muito alarmante e sobre o qual as pessoas deveriam prestar muita atenção, tanto de ponto de vista pessoal como profissional. Algo que vai muito além do fato de que uma vez que você, caro leitor, abriu uma conta no "Face", nunca mais você poderá deletar os dados, fotos, etc., que colocou lá. Você poderá suspender a conta, mas não encerrá-la! Já tentaram....?

Enfim, para Harari os dados ou o Big Data tem a ver na sua verdadeira essência como futuro da espécie humana e com o futuro da própria vida. Para ele somos provavelmente uma das últimas gerações de homo sapiens. Em um ou dois séculos, a terra será dominada por "entidades" que serão mais diferente de nós, do que nós somos de neandertais e chipanzés. Segundo ele, nas próximas gerações aprenderemos como, através da engenharia, construir corpos, cérebros e mentes. E estes serão, segundo ele, os principais novos produtos da economia nos séculos vindouros e não carros, tecidos, etc.

E com o que se parecerão os novos mestres / donos do planeta? Isto será decidido por quem controlar os dados. Quem controlar os dados controlará não apenas a humanidade, mas o próprio futuro da vida. Da vida como um todo, muito além da própria espécie humana. Os dados que fundamentam a informação e o conhecimento são e serão os mais importantes ativos do mundo. Harari apresenta neste sentido uma análise única: "No passado a fonte de poder foi a terra. A concentração de terra era poder e dividiu a sociedade entre  aristocratas e plebeus. Nos últimos dois séculos máquinas substituíram a terra e a sociedade foi dividida entre capitalistas e proletários. Os dados vão substituir as máquinas como ativo mais importante. Com os dados e a concentração dos mesmos não teremos, no entanto, duas classes, mas duas espécies diferentes". Isto porque hoje e cada vez mais nós podemos "hackear" não apenas computadores, mas pessoas e organismos. A questão é, de fato, muito mais profunda.

O que é preciso para "hackear" um ser humano? Muito poder computacional e muitos dados, especialmente dados biométricos; muito além do que eu compro e onde eu vou; muito além da manipulação de intenções de votos ou de regimes políticos. Isto não existia até recentemente:  How do you feel? what do you feel? what do you think? what do you want?  E este caminho só se abriu em função de duas extraordinárias revoluções simultâneas:

1) Capacidade computacional, machine learning e A.I (inteligência artificial).

2)  Avanços na biologia e nas ciências que estudam o cérebro humano.

Para Harari a grande "epifania" (ou o grande insight:) foi a "compreensão"  de que os organismos são algoritmos bioquímicos e nós estamos aprendendo a decifrar estes algoritmos. Em outras palavras, Revolução 1+ Revolução 2 = Habilidade para "hackear" seres humanos. Na verdade mais ainda! Revolução 1 + Revolução 2 = Habilidade para "hackear" todas as formas de vida! Harari argumenta que os computadores, a ciência da computação, e a engenharia poderão analisar e criar novos algoritmos que vão nos analisar e "nos conhecer melhor do que nós mesmos". Ele dá como exemplo a possibilidade de que algoritmos venham a ser capazes de identificar, por exemplo, como cada pessoa se encaixa no espectro de gênero; pelo movimento dos olhos, reações do cérebro, etc. Propagandas poderão manipular pessoas pelo que elas saberão não apenas dos hábitos, mas das reações biométricas e esta informação valerá bilhões.

A grande preocupação neste novo mundo e nesta nova realidade seria o potencial aparecimento e a ascensão de ditaduras digitais. Algo que faria o clássico livro 1984 de George Orwel parecer ingênuo apesar de imensamente intuitivo. Pela perspectiva de Harari, até agora as democracias foram melhores do que as ditaduras porque foram melhores no processamento de dados. Isto porque a distribuição de informação e do poder para tomar decisões permitiu, em um mundo com limitada capacidade de processamento de dados e informação, que as democracias e regimes liberais fossem capazes de tomar melhores decisões, mais eficientes e eficazes na geração de riquezas e desenvolvimento da humanidade. No século 20 distribuição era mais eficaz do que concentração do processamento de dados e criação de informação. Um exemplo clássico seria a contraposição do sucesso dos EUA e o fracasso da União Soviética. por causa da tecnologia do século 20. Mas a A.I. (inteligência artificial) pode mudar esta realidade. A centralização no processamento de dados pode se tornar mais eficiente do que o processamento distribuído de dados.

Neste contexto, apareceria o risco de vivermos sob ditaduras digitais. Mesmo governos democráticos estão criando já no tempo presente grandes Data systems centralizados. Elites poderão  ganhar o poder de alterar através da engenharia (ou da "reengenharia") o próprio futuro da vida. E isto será, como argumenta Harari, a maior revolução na história da humanidade. A maior revolução da biologia desde o início da vida há 4 bilhões de anos, uma vez que nos últimos 4 bilhões de anos nenhuma mudança fundamental nas regras básicas do jogo da vida, das leis da seleção natural e bioquímica orgânica, ocorreu realmente. Em outras palavras, tudo isto levará a uma mudança da seleção natural para o design inteligente artificial. Do orgânico para o novo orgânico, para o orgânico mais o inorgânico ou, quem sabe, para a prevalência do inorgânico.

Por isso o controle de dados é tão importante. Precisa ser regulado e não pode ficar nas mãos apenas de poucos. Mas como fazer isso? Regular terras, propriedade e máquinas é uma coisa, regular dados que estão em todos os lugares, nas nuvens e metaforicamente em lugar nenhum e na velocidade da luz é outra coisa bem diferente e em um outro patamar de complexidade. Como comentamos no início deste texto, grandes empresas como o Google e Facebook armazenam e processam dados em escala nunca imaginada até há poucos anos e estão sendo profundamente questionadas pela sociedade. Mas qual a alternativa para isso? Passar este controle e este dados para as mãos de governos? Mas se isto passar para governos centralizados isto não criará ditaduras digitais?

Como exemplo vamos imaginar a política. Ela, devemos reconhecer, já manipula as emoções e processos bioquímicos das pessoas... Aceitaremos dar mais poderes aos políticos (quaisquer que sejam suas ideologias)? Imaginem pelo exemplo que temos no Brasil. Isto seria uma insanidade com certeza! Quando vejo políticos brasileiros da esquerda propondo, em pleno ano de 2018, o controle da mídia, o controle dos dados e da informação (sob o nefasto disfarce da regulação) vejo algo muito pior do que a criação de um Ministério da Verdade como o proposto e criado em um dos filmes de Harry Potter. Vejo passar diante de meus olhos um verdadeiro filme de terror.

Quem deve então organizar os dados? Vejam que estas são questões que vão muito além da tecnologia da engenharia, da ciência da computação ou das ciências biológicas. São questões que vão além da multidisciplinaridade e alcançam a transdisciplinaridade. Aqui temos profundas questões filosóficas, éticas e morais. Pouquíssimas pessoas realmente entendem o que está em jogo. A esmagadora maioria nem sonha a dimensão e amplitude do desafio. Mas há ainda um impressionante paradoxo neste contexto. Pode ser que as pessoas no final das contas se sintam compelidas a disponibilizarem seus dados mais importantes por vontade própria! Como? Os dados biométricos são a chave. Sabem por quê? Porque eles são e serão essenciais no melhoramento dos corpos biológicos em busca de ter uma vida saudável, sem doenças. As pessoas irão querer disponibilizar dados para curar doenças ou prevenir-las.

O que vai acontecer daqui a algumas décadas? Ninguém sabe! Mas é certo que teremos uma revolução na engenharia, na computação e em todos os ramos das ciências e mesmo em disciplinas como o direito. E o ensino será profundamente incompleto sem uma visão holística que enfrente o futuro que nos espera ou, como procurei deixar explícito, já está aqui.

* Professor da EMGE - Escola de Engenharia de Minas Gerais

EMGE

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