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16/04/2018 | domtotal.com

O que irá acontecer ao Partido Republicano dos EUA?

Existem possibilidades que o partido perca a maioria em novembro.

A situação do Partido tem sido simultaneamente ambígua e focada desde que Trump foi eleito.
A situação do Partido tem sido simultaneamente ambígua e focada desde que Trump foi eleito. (Reprodução)

Por José Couto Nogueira*

Paul Ryan, o presidente (speaker) da Câmara dos Representantes, do Partido Republicano, anunciou esta quarta feira que não se candidata nas próximas eleições parlamentares, a 6 de Novembro. Embora haja outros representantes que já declaram que não continuarão, a desistência de Ryan tem um significado que ultrapassa em muito a sua decisão.

A Câmara dos Representantes (câmara baixa no sistema bicameral norte americano) tem 435 lugares, eleitos de dois em dois anos; a próxima eleição, sendo a meio do mandato presidencial, é chamada de intercalar. Neste mandato o Partido Republicano tem a maioria, contudo, dado o desgaste que Trump tem causado dentro do partido e que o partido está a sofrer na opinião pública, mesmo republicana, existem possibilidades que perca a maioria em Novembro – que só não são certezas porque o Partido Democrata ainda não encontrou um rumo coerente para aproveitar a conjuntura.

A situação do Partido tem sido simultaneamente ambígua e focada desde que Trump foi eleito. Ambígua porque Trump, um outsider do Partido, não tem uma postura que coincida com os valores republicanos, o que tem levado os parlamentares (tanto na Câmara como no Senado, cujo speaker é Mitch McConnell) a ignorar ou aceitar envergonhadamente as decisões mais contraditórias do Presidente; mas este embaraço coexiste com um foco nos objetivos do partido a longo prazo, aproveitando a situação ímpar de ter o Governo e maioria no Congresso para fazer avançar legislação que há muito almejava. Esta dualidade, criticada por muitos eleitores republicanos, sobretudo os mais preocupados com os chamados “valores” conservadores, levou a que 38 representantes anunciassem que não concorreriam em Novembro – o maior número desde 1930. Não concorrem porque não concordam com a orientação do partido, ou muito simplesmente porque sabem que têm poucas hipóteses de ganhar e não querem perder a face.

Mas a desistência de todos eles não tem o mesmo peso que a decisão de Paul Ryan. Para lá da admissão da sua incapacidade de conjugar valores e decisões, abre uma luta dentro do partido para preencher o seu lugar na pior altura – quando é necessário angariar fundos e contatar as bases para concorrer – e ainda abre espaço para que Trump escolha para próximo speaker alguém mais sintonizado com ele do que com o partido.

Há poucos anos atrás, Paul Ryan era a estrela incontestada dos valores republicanos mais conservadores, tanto que conseguiu angariar um recorde de fundos quando foi candidato a vice-presidente em 2012. Em 2016 atacou duramente Trump, argumentando basicamente que o magnata tinha objetivos opostos aos do partido. Por exemplo, Ryan sempre defendeu uma política pró-imigração e o comércio livre global.

Quando foi eleito speaker, esperava-se (dele, e dos parlamentares republicanos em geral) uma fiscalização apertada sobre Trump, recusando as propostas mais radicais, como a construção do muro na fronteira com o México ou a saída do Tratado Ásia-Pacífico. Mas Ryan mudou 180 graus e, com a maior naturalidade, passou a defender as decisões do Presidente, muitas vezes tomadas sem ser sequer consultado. Viu-se assim em situações constrangedoras, a justificar o dificilmente justificável. Se sentia incômodo, escondeu-o sobre uma aparente impassibilidade, como se tal mudança de princípios fosse uma evolução natural da vida política.

Agora, ao anunciar que não se quer reeleger, com a desculpa pouco original de que quer dedicar mais tempo à família, Ryan dá a entender que realmente não mudou e não aguenta mais fazer um papel que não só o contraria pessoalmente mas também pode queimar uma carreira eventualmente presidencial.  Com 48 anos, não faz sentido abandonar um percurso que segue desde a juventude.

A atitude do speaker também tem um efeito psicológico negativo – é como se o general abandonasse as tropas nas vésperas da batalha. Provavelmente mais parlamentares republicanos sentirão que é melhor abandonar o campo, e os democratas estão exultantes.

Mas o mais importante é que esta decisão representa a desistência do partido de controlar Trump, dando inversamente uma oportunidade única ao Presidente de colocar os seus preferidos em lugares chave, a começar pelo speaker. Ou seja, o establishment republicano vai ser substituído pela nomenclatura trumpiana.

Embora tenha deslizado cada vez mais para a direita nas últimas décadas – desde a candidatura de Barry Goldwater, em 1964 – o Partido Republicano sempre defendeu os mesmos princípios políticos, econômicos e morais.

É interessante que o nível intelectual dos presidentes que elegeu também deslizou para baixo no mesmo período, cada um sendo tão desconchavado que parecia impossível o seguinte ser pior: Richard Nixon, Gerald Ford, Ronald Reagan, Bush pai, Bush filho. Apenas Reagan e Bush pai conseguiram acabar os mandatos sem vergonha ou ridículo, embora se tenham metido em situações mirabolantes, como o escândalo Irão-Contras ou a I Guerra do Iraque. Esta última teve consequências desastrosas que ainda hoje não foram sanadas – e provavelmente nunca serão.

É difícil prever o que irá acontecer ao Partido. Por um lado, é altamente provável que perca a maioria na Câmara dos Representantes e, até, no Senado. Por outro, fica dominado pelos bajuladores do Presidente, que gosta de se rodear dos yes-men que o olham como uma figura resplandecente.

Nesta situação, poderá haver uma luta interna violenta, ou mesmo uma cisão. Seria uma situação inédita nos Estados Unidos. Mas o inédito já aconteceu quando os americanos elegeram um narcisista psicótico para Comandante em Chefe.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

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