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15/04/2018 | domtotal.com

Pressa e felicidade

Os negócios e as amizades satisfaziam-se com os velhos telefones de baquelita preta.

Mas a pressa que nos afeta, também nos causa danos, físicos, emocionais e sociais.
Mas a pressa que nos afeta, também nos causa danos, físicos, emocionais e sociais. (Divulgação / Pixabay)

Por Evaldo D' Assumpção*

O apressado coelho, que abre a estória de Alice no País das Maravilhas (Lewis Carrol - 1865) transposta para o filme homônimo passa correndo diante de Alice, repetindo: “É tarde! É tarde! É tarde até que arde! Ai, ai, meu Deus! Alô, adeus! É tarde, é tarde, é tarde!”. Creio ser uma das melhores expressões a refletir a pressa em que vivemos, especialmente nos dias atuais.

Quando li o livro pela primeira vez, pressa não era algo que mobilizava as pessoas. O próprio mundo seguia tranquilo sua heliocêntrica e elíptica jornada, e os dias pareciam mais longos e sossegados. Os anos passaram, a tecnologia cresceu em largos saltos, como se usasse as botas de sete léguas – outra narrativa infantil, reescrita em 1697 pelo francês Charles Perrault, onde a velocidade era uma prerrogativa mágica dada ao personagem Pequeno Polegar.

Nos séculos seguintes surgiram os automóveis e os aviões; as ampulhetas foram substituídas pelos relógios de corda, que por sua vez foram substituídos pelos digitais. Os negócios e as amizades satisfaziam-se com os velhos telefones de baquelita preta, onde as chamadas eram feitas em modorrentos discos numéricos, demorando horas, para serem completadas. Cálculos eram feitos de cabeça, também com lápis e papel. Depois vieram as réguas de cálculo, por sua vez substituídas pelas calculadoras eletrônicas, e hoje pelos computadores. A velocidade ganhou espaço, e sua sócia, a pressa, tornou-se a rainha do pedaço. Hoje, todo muito tem pressa, e até mesmo aqueles que nada têm o que fazer, a têm, pois precisam ganhar tempo, para sobrar tempo, para terem tempo para matar o tempo.

Assim chegamos ao hoje da humanidade: apressada, sempre correndo, com pouco ou nenhum tempo para uma conversa descontraída. Estressados, os humanos passam horas em terapias, engolem gotas e pílulas antidepressivas, ou se desesperam porque não estão dando conta de fazer tudo o que acreditam deveriam realizar. Cansados, reclamam das pessoas, do trânsito, do relógio que teima em girar rapidamente seus ponteiros – ou trocar os dígitos – como se uma força desconhecida estivesse a dispará-los. Pouquíssimos se dão conta de que o tempo continua o mesmo, e somos nós que aumentamos absurdamente nossos compromissos, nossa carga de atividades. E o fazemos em função da tecnologia que nos permite acelerar a produtividade, e por consequência nos rouba o tempo precioso que temos para simplesmente viver. Tempo para contemplar as nuvens no céu, as águas nos rios e no mar, os pássaros que continuam planando no céu azul e trinando melodias, alheios à pressa insana dos humanos.

Mas também existem aqueles que não são capazes de dosar bem o seu tempo, deixando tudo para fazer em cima da hora, ou para quando já não têm tempo suficiente para fazer, sem pressa e sem estresse, aquilo que precisam fazer.

Mas a pressa que nos afeta, também nos causa danos, físicos, emocionais e sociais. Cito um exemplo bastante ilustrativo: nossa pressa em julgar e condenar as pessoas com quem convivemos, seja no âmbito familiar, no social ou profissional.

Maridos – tanto quanto as esposas – reclamam do que o outro deixou de fazer, por vezes até com palavras e atitudes grosseiras, agressivas, sem sequer procurar avaliar as possíveis razões daquela omissão. Muitas vezes não aguardam a explicação do outro, sequer lhe dão a oportunidade para explicar o ocorrido. E o pior é que, quase sempre também ele – ou ela – comete as mesmas faltas (se é que podemos chamar de “falta”) e nunca se dá conta de seus próprios tropeços. Para complicar, com incrível frequência descobre que foi injusto com suas queixas e reprimendas, e por vergonha ou tola vaidade deixa de pedir desculpas, e de buscar corrigir-se, criando assim um clima cada vez pior naquele relacionamento. Afinal, somente quem reconhece seus erros é capaz de se corrigir: se nunca erro, o que tenho de consertar?

Situação idêntica acontece quando se tem empregados, sejam domésticos sejam funcionários de empresas. Acidentes muitas vezes acontecem numa casa, numa loja, numa oficina, falhas ocorrem em qualquer local. E muitas vezes torna-se bastante difícil determinar quem foi o responsável pelo acontecido. Na pressa de localizá-lo, repreendê-lo, ou até puni-lo se for o caso, pode acontecer que se faça uma enorme injustiça, pois nem sempre quem aparenta ser o responsável, realmente o é. E, em outras tantas vezes, não houve propriamente uma culpa a ser apontada, um culpado a ser responsabilizado. Ações involuntárias podem causar acidentes, sem que haja, exatamente, uma “culpa”. O que é bem diferente de um acidente provocado, uma grave negligência, ou uma falta cometida deliberadamente. Por isso é necessário que se avalie bem o acontecido, sem pressa para tomar uma atitude punitiva, seja ela qual for. Assim, evitam-se injustiças e não se criam situações conflitantes e desnecessárias, inclusive envolvendo pessoas que nada tiveram a ver, efetivamente, com aquele fato.

Entre tantos caminhos para se buscar a felicidade, não ter pressa é um dos melhores, e deve ser trilhado com persistência, objetividade e sem açodamento. Diz a sabedoria popular: “a pressa é inimiga da perfeição” E acrescento: principalmente da felicidade!

*Evaldo D' Assumpção é médico e escritor

EMGE

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