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16/04/2018 | domtotal.com

A síndrome do cinzeiro de ferro

Chego a súbita certeza de que passamos grande parte de nossas vidas correndo atrás de cinzeiros de ferro.

Nas menores relações da vida, das amorosas às profissionais, estamos sempre atrás dos cinzeiros de ferro achando que eles estão ali.
Nas menores relações da vida, das amorosas às profissionais, estamos sempre atrás dos cinzeiros de ferro achando que eles estão ali. (Iwasaki Yudai /Flickr)

Por Ricardo Soares

Nem seI há quanto tempo o cinzeiro redondo de ferro estava na família. Tinha belos alto relevos, estava lindamente gasto pelo tempo e já não sei se foi uma quinquilharia que me veio às mãos do que sobrou das tralhas do meu avô materno ou dos meus pais. Só sei que andava comigo faz muito tempo.

Desde que mudei pra casa onde habito há quase 16 anos o cinzeiro de ferro ficava na área de serviço, num parapeito na janela ao lado da combalida máquina de lavar. Não me perguntem porque ali ficava, não encontrarei resposta lógica. Mas era ali que eu o achava quando chegava em casa algum amigo fumante que precisasse depositar suas bitucas num cinzeiro. Aí eu ostentava, orgulhoso,  meu poderoso cinzeiro de ferro.

Pois dia desses quando recebi em casa a visita do meu filho e alguns amigos dele que vinham usar a área externa para um churrasco corri atrás do cinzeiro de ferro e não o achei. Havia sumido. Aliás  havia irremediavelmente sumido e eu passei parte do domingo revirando a casa atrás do cinzeiro de ferro sem o achar. Como poderia não ter sentido a falta dele antes ? Me senti culpado por não haver notado até então  a ausência do velho amigo cinzeiro de ferro.

Agora passo para a segunda parte da crônica, inapelavelmente com aquela tola proposta de “moral da história”.  Mas vocês hão de me perdoar porque no momento em que escrevo essas linhas chove um pouco, inclusive no meu tempo de menino, sinto-me só na bolha do meu escritório de escritor tardio e chego a súbita certeza de que passamos grande parte de nossas vidas correndo atrás de cinzeiros de ferro.  Nas menores relações da vida, das amorosas às profissionais, nas interpessoais e até nas casualidades do cotidiano. Estamos sempre atrás dos cinzeiros de ferro achando que eles estão ali , seguros e sólidos , no parapeito de alguma janela. E quando vamos procurar lá já não estão. Se é que um dia estiveram. Então por lá não estarem mais nos fazem uma imensa e intensa falta. Espero ter sido claro com a intenção do “gesto-crônica” que cometi  pois confesso a todos vocês que perder o cinzeiro de ferro me deixou um tanto nublado.

Ricardo Soares é diretor de tv, escritor, roteirista e jornalista. Publicou 8 livros, dirigiu 12 documentários.

EMGE

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