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Mundo

17/04/2018 | domtotal.com

O desconforto ocidental

Não existe mais a confiança, a segurança e a execução de uma política coerente.

O documentário “Desconforto”, chama a atenção para certas coisas que se iniciaram truncadas já há algum tempo, agravando ainda mais o conflito.
O documentário “Desconforto”, chama a atenção para certas coisas que se iniciaram truncadas já há algum tempo, agravando ainda mais o conflito. (Reprodução)

Por Lev Chaim*

Sempre me senti atraído por pensamentos que explicam o caos do mundo atual de uma forma convincente e lógica. Isto traz uma paz imensa ao meu coração agitado, pelo tamanho da oferta de opiniões e argumentos que passam aos nossos olhos diariamente, muitos tão falsos quanto dizer que Lula seja um condenado político.   

O meu foco de hoje vai para o excelente ensaio do colunista do jornal holandês NRC Handelsblad, Bas Heijne. Ele escreveu seu texto “Desconforto” (2016), logo depois do ataque terrorista em Paris à sede do tabloide satírico Charlie Hebdo. Com uma lucidez de cortar a água, esse ensaio acabou virando um documentário de quatro capítulos para a televisão holandesa.  

Para o autor, algo se move rapidamente neste mundo: “ele está globalizado, mas não significa que todos estejam indo para o mesmo lado. A confusão contorce os pensamentos e cria uma sensação de desconforto geral”.  Na narrativa desta série baseada em seu texto, Bas Heijne constata a existência de arautos de ideais conflitantes. O primeiro exemplo: a jornalista Zineb El Rhazoui, que sobreviveu ao ataque de Charlie Hebdo (sobre a qual já escrevi num artigo anterior) totalmente a favor dos ideais iluministas e contra os islâmicos radicais. Para ela, os críticos de esquerda são seletivos na defesa desses ideais quando algo tem a ver com o Islã radical. Para Zineb, a esquerda teria que sair do casulo e criticar esses ataques terroristas.   

Por outro lado, Bas Heijne, cita o ideólogo da extrema-direita russa, Aleksandr Doegin, inspirador de Putin, que apoia a luta de seu país contra a globalização e é a favor de uma cultura homogênea, centralizada. Ele reforça com bastante lucidez o conflito dos dois pontos de vista: um, a favor da globalização, dos ideais iluministas, e o outro a favor de uma cultura centralizada, fechada para o mundo afim de garantir total soberania sobre o povo (totalitarismo). Com isso, ele ilustra a total falta de compreensão desses intelectuais, quando se trata da complexidade do mundo atual e o choque permanente de pensamentos antagônicos, sem qualquer consideração para com os possíveis pontos comuns existentes entre as diversas correntes do pensamento.   

O documentário, “Desconforto”, chama a atenção para certas coisas que se iniciaram truncadas já há algum tempo, agravando ainda mais o conflito. Cita-se ali um exemplo histórico: logo após a queda do muro de Berlim, a primeira-ministra britânica, Margaret Thatcher, rodeada pelo líder soviético Gorbachov e pelo chanceler alemão Helmut Khol, fez uma extrema apologia da vitória do liberalismo democrático e do livre mercado sobre o comunismo.  

O líder Soviético Gorbachov, por sua vez,  fez um comentário que poucos entenderam, mas que agora se mostra de uma sabedoria infinita: “Os governantes da globalização não reconheceram as particularidades das diversas sociedades no mundo e, ao gritarem vitória para o liberalismo, esqueceram-se  totalmente de estender a mão para o outro lado, que ainda não estava preparado para ouvir tudo isto”. Para Gorbachov, esse pronunciamento categórico de Thatcher só fez aumentar ainda mais o isolamento de certas sociedades do mundo atual em que ocorre uma globalização permeada por diferentes grupos que defendem ideias antagônicas.

Nada foi feito para a convergência de pensamentos diferentes, nada está sendo feito para um maior uso da diplomacia do entendimento e, cada vez mais, diferentes grupos tentam aniquilar uns aos outros. E todos se dizem favoráveis à globalização.  

Nos Estados Unidos temos outro dilema mas que advém também da total falta de preparo de um presidente para o seu cargo. A ameaça que Trump vinha fazendo há alguns dias contra a Síria se concretizou com bombardeamentos em cima de áreas retomadas pelo governo Assad, com o apoio da Grã-Bretanha e da França. Isto porque eles acusam Assad de ser o responsável pelo uso recente de armas químicas contra o seu próprio povo. Qual é a estratégia de Trump. Jogar mísseis? E depois? Ele não disse! Assim, muitos já começam a pensar que Trump esteja realmente querendo desviar a atenção do povo norte-americano, para com a investigação que o acusa de ter fraudado as eleições presidenciais, com a ajuda dos russos. E muitos se perguntam: será um teatrinho internacional?  

Portanto, como disse o colunista holandês, este é o grande desconforto do mundo ocidental: não existe mais a confiança, a segurança e a execução de uma política coerente. Todos estão atentos para o fato de que não se pode governar um país, como os Estados Unidos, através de Twitters.

 Já Putin, que todos reconhecem ser um ditador, agiu de forma mais diplomática e recebeu em uma cerimônia as credenciais dos novos embaixadores junto ao Kremlin, sem ao menos mencionar diretamente o que era então apenas uma a ameaça de Trump de jogar mísseis na Síria. Ali, Putin exaltou o poder da diplomacia.  Com isto, Putin se promove como a pomba da paz, enquanto Trump, chefe da nação que teria que promover os ideais liberais, toma a atitude de um ditadorzinho que governa com o celular na mão – o grande “desconforto ocidental”, mencionado por Bas Heijner.

*Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

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