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17/04/2018 | domtotal.com

A maior descoberta de Hawking

O trabalho de Hawking é extenso no campo da física e dentre diversos trabalhos ele é conhecido, em particular, pelas investigações sobre os buracos negros.

Stephen Hawking em ilustração
Stephen Hawking em ilustração (Reprodução)

Por José Antônio de Sousa Neto*

As cinzas de Stephen Hawking  foram depositadas na Abadia de Westminster em Londres perto do túmulo de Sir Isaac Newton. O reitor de Westminster, o reverendíssimo Dr. John Hall, disse: “É perfeitamente apropriado que os restos mortais do Prof. Stephen Hawking sejam enterrados na Abadia, perto dos ilustres colegas cientistas. Sir Isaac Newton foi enterrado na Abadia em 1727. Charles Darwin foi enterrado ao lado de Isaac Newton em 1882. Outros cientistas famosos são enterrados ou homenageados nas proximidades, sendo os enterros mais recentes os dos físicos atômicos Ernest Rutherford em 1937 e Joseph John Thomson em 1940".

De certa forma a Abadia de Westminster está para a igreja anglicana como o Basílica de São Pedro está para a igreja católica. A rainha Elizabeth II é a chefe máxima e Defensora da Fé anglicana. Sir Winston Churchill ali também está enterrado. Este tipo de honraria concedida pela monarquia britânica alcança apenas àqueles que se destacam pelo profundo impacto de suas vidas no total da história humana.

O trabalho de Hawking é extenso no campo da física e dentre diversos trabalhos ele é conhecido, em particular, pelas investigações sobre os buracos negros. Inclusive pelo o fato de que estes "gigantes gravitacionais" que distorcem de forma radical o espaço tempo e do qual nem a luz escapa, um dia, em um espaço de tempo inimaginável à percepção humana, também desaparecerão. Isto ao contrário de que ele mesmo imaginava a princípio posto que, defendeu ele mais tarde, também os buracos negros emitem / perdem energia.

Na sua caminhada científica Hawking percorreu a física relativista de Einstein, caminhou pela física quântica trabalhada antes por Erwin Schrödinger, Werner Heisenberg, Max Born e outros e alcançou a teoria dos multi universos. Esta última parece ficção, mas não é. No contexto da física quântica é, de fato, uma probabilidade real e concreta. Mais recentemente Hawking caminhou pelas trilhas da evolução da Inteligência Artificial e suas consequências para a espécie e civilização humana. Sobre este último tema guardava profunda preocupação.

Nesta longa caminhada o universo ou universos pareceu ou pareceram se tornar mais próximos e paradoxalmente cada vez mais longínquos e infinitos. Tão infinitos que probabilisticamente a própria vida passou a ser uma certeza estatística independente da necessidade de uma força criadora. O planeta Terra e a vida um "acidente" cósmico e inevitável do percurso de um universo que simplesmente é ou universos que simplesmente  são e sempre foram.

Mas aqui chegamos ao que pode ter sido a maior "descoberta" de Hawking. Alguns considerarão esta descoberta uma possibilidade, outros uma probabilidade e outros uma certeza. Tenho a pretensão de achar que tenho o privilégio de estar no terceiro grupo. Também coloquei propositadamente a palavra descoberta entre aspas por uma  razão muito específica que explicarei a seguir.

À medida que o universo ou universos cresceram infinitamente também cresceram infinitamente as probabilidades. E aqui há um paradoxo.  Quanto mais cresce nas nossas descobertas e na nossa compreensão o universo material, incluído a energia escura que ninguém realmente sabe o que é, mais arriscado, e talvez até mais imprudente seja eliminar a possibilidade da existência de uma Providência. Como já argumentei em textos anteriores, se afirmar cientificamente a existência de Deus pode ser uma imprudência, negá-la peremptoriamente pode significar, e cada vez mais, uma imprudência ainda maior. Uma imprudência que talvez esteja crescendo no mesmo ritmo de um universo conhecido que se expande exponencialmente em todas as direções.  

Volto então à palavra "descoberta" levantando a hipótese de que pelo menos inconscientemente o genial cientista, ao contrário de seu consciente, sempre intuiu a presença da Providência. E a forma de encontrá-la talvez tenha sido nega-la peremptoriamente. Como um grito de socorro inconsciente de quem espera o milagre de uma iluminação que viria. Um desafio para justificar seguir adiante frente às duríssimas provações da vida a ele impostas pela sua doença debilitante. Provações que ele venceu, em inúmeros aspectos, com a mais profunda dignidade e de forma absolutamente exemplar.

Assim, se como membro do terceiro grupo a minha certeza a respeito da "descoberta" estiver correta, e eu evidentemente assim acredito, só me resta um sorriso no rosto enquanto escrevo este texto e em cada momento que penso sobre isso. Para mim a maior "descoberta" do Professor Hawking na área da criação e da física veio após deixar este mundo. E não contradiz os seus achados por aqui. Ele deve ter visto que seus achados sobre o infinito são apenas uma parte pequenina de um "infinito infinitamente maior". Perceber a Providência na criação e algumas  limitações e incompletudes de seus pensamentos probabilísticos não o deixará aborrecido. Além e apesar de tudo ele sempre teve um excelente senso de humor e provavelmente não só vai se maravilhar com a "descoberta" como, em algum momento, provavelmente fará uma reflexão bem humorada de tudo isso e de si mesmo. Como disse acima, acho que no fundo é o que ele sempre quis.

Finalmente, filosofias e hipóteses à parte, a Coroa Britânica e o reverendíssimo Dr. John Hall agiram seguindo a tradição do pragmatismo e da razão características da alma Britânica. Mesmo pensando do outro lado da vida, o que importa de forma objetiva e prática  neste momento foi dar a ele o justo reconhecimento que ele mereceu e merece do lado de cá. Afinal de contas, como bem apontou o reverendíssimo Dr. Hall, "acreditamos ser vital que a ciência e a religião trabalhem juntas para buscar responder às grandes questões do mistério da vida e do universo.”

* Professor da EMGE - Escola de Engenharia de Minas Gerais

EMGE

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