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17/04/2018 | domtotal.com

A morte como ela é

A morte é inegociável. Quintessência do calcanhar de Aquiles e força contra a qual resta inútil lutarmos.

Cena do filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman.
Cena do filme O Sétimo Selo, de Ingmar Bergman. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Em 1897, o grande escritor norte americano Mark Twain respondeu com ironia ao ler a publicação de seu obituário no jornal (fake news já naquela época?). Para quem se surpreendeu ao vê-lo firme e forte depois do desastrado anúncio, o ainda bem vivo pai de Tom Sawyer e Huckleberry Finn declarou que "as notícias sobre minha morte foram manifestamente exageradas".

Mesmo na iminência de nova e perigosa guerra global entre ocidente e oriente, como aponta a situação da Síria, a notícia que não queremos mesmo ler no jornal ou assistir na TV será aquela sobre a morte de pessoas a quem nos sentimos ligados.

Por mais que choque e revolte (e deve mesmo chocar e revoltar) a manchete sobre os rebeldes sírios que morreram em ataque de armas químicas ordenado pelo psicopata Bashar al-Assad, nos sentimos genuinamente traídos é quando perdemos alguém próximo - quer seja um amigo, um familiar ou mesmo um ídolo.  

Porque a morte é inegociável. Quintessência do calcanhar de Aquiles e força contra a qual resta inútil lutarmos. A partida de xadrez do Sétimo Selo bergmaniano é jogada ininterruptamente, desde a primeira lufada de ar que nos enche os pulmões - e não apenas na hora H. Pode demorar, mas o xeque-mate é sempre contra nós no final.

Nem todo mundo vai ganhar parada fúnebre com direito a ser levado pelo caminhão dos bombeiros do velório ao túmulo, como houve com o corpo da diva Hebe Camargo - mas não importa. No momento em que nos damos conta da falta (que passa a ser permanente) daqueles que amamos, parece que o caminhão está passando é por cima da gente. E nenhuma homenagem será suficiente para tapar o buraco que fica.

Mas tentamos. Por isso ritualizamos a morte. Por isso milhares de pessoas foram ao cemitério para se despedir de Paulo Gracindo, em 1972. Quem morreu foi o bicheiro Tucão, protagonista da novela Bandeira 2, mas a legião de fãs confundiu ator e personagem, transformando uma gravação de novela em ocasião de luto nacional. E Gracindo, que só viria a morrer vinte e três anos depois, ganhou seu dia de Mark Twain.

Além do rito, há o riso. Porque exaustos de tanta dor e choro, acabamos rindo - como que para desafiar o que não se desafia. Não por acaso, Odorico Paraguaçú (novamente Paulo Gracindo bulindo com os desígnios do além) acabou ele mesmo, de corpo presente, inaugurando o cemitério que foi a bandeira principal durante grande naco de sua carreira política em Sucupira. Justiça poética com rigor mortis.

E misturamos mesmo vida real com dramaturgia - porque as boas histórias podem nos provocar nesse sentido. Foi bonito ver os então senadores Eduardo Suplicy e Benedita da Silva atendendo ao velório do colega de legislatura, assassinado por defender o direito à terra de todos, o político Caxias (Carlos Vereza), em O Rei do Gado.

Inspirado pela literatura, Benedito Ruy Barbosa fez com que Zé Leôncio (Claudio Marzo) assumisse a missão do pai, tornando-se o novo Velho do Rio. Ao reescrever Guimarães Rosa, dando um desfecho de redenção para o narrador de A Terceira Margem do Rio, o autor de Pantanal nos fez pensar o quanto não devemos temer essa outra margem; antes encará-la como o próximo capítulo natural da novela que é a vida de cada um de nós.  

Além da vida ser sonho, como queria Calderón de la Barca, a vida é sim novela. Somos o taxista Carlão de Pecado Capital sempre que nos vemos frente a um dilema ético. Somos a Helena de Vera Fischer em Laços de Família e a de Regina Duarte em Por Amor sempre que obrigados a abrir mão de algo para a felicidade de um filho. Somos a Tancinha de Sassaricando sempre que divididos entre dois amores. Somos Babalu, Auxiliadora, Tatiana e Abigail sempre que movidos por algum sentimento de vingança, como em Quatro por Quatro. Somos Tony Ramos na Próxima Vítima - sempre que nos deixamos levar pelo preconceito.

Se nos identificamos na vida com as novelas, na morte também somos parecidos - cheios de perguntas que CSI nenhum poderia responder. E se as coisas tivessem corrido de outra maneira?

E se Escobar não tivesse morrido? Bentinho acreditaria com tanta certeza na traição (inventada ou não) de Capitu? E se Roque Santeiro tivesse permanecido morto? E se Odete Roitman não tivesse sido assassinada? (Nesse caso teríamos perdido uma das cenas finais de novela mais emblemática de todos os tempos.)

Depois da morte, não há mais espaço para o condicional, apenas certezas. Baseados na fé religiosa, ou sabemos o que nos aguarda ou sabemos que nada há para esperar (nem Good Place, nem Bad Place). Morrer funciona como marco para aqueles que ficam por aqui, os que sobrevivem: significa o fechar de um ciclo, mas também o inicio de um novo tempo - porque nada mais será como antes.

Se pudermos olhar em retrospecto após realizarmos a passagem, tanto faz se nos identificamos com Brás Cubas, com o Vadinho da Dona Flor ou com William Holden no Crepúsculo dos Deuses. Entenderemos, afinal, o que já sabíamos - graças às perdas que vamos colecionando com o passar dos anos: é o único momento em que desaparecem todas as diferenças. Desamparados e ineficazes, diante da morte somos todos iguais.

E é bobagem cultivá-la antes da hora. Senão, corremos o risco de acabar nos tornando um Numa Pompílio de Castro (Hugo Carvana, em Fera Ferida) ou mesmo uma Dercy Gonçalves. Ele na ficção e ela na vida real mandaram construir um túmulo grandioso, do qual cuidavam com zelo excessivo, para ter certeza que entrariam com o pé direito na próxima etapa. Como se fosse isso o que realmente importa.

No país basco, ao final das histórias passadas de geração para geração, ninguém diz "...e foram felizes para sempre", como nos contos de fada (tanto faz se de Perrault, de Walt Disney ou de Walther Negrão).

Lá, eles encerram todas as narrativas com um vaticínio muito mais apropriado: "E se viveu bem, morreu bem."

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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