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Religião

17/04/2018 | domtotal.com

Conviver é possível

Até que ponto nossas ações têm corroborado para uma convivência menos caótica?

As relações tendem a entrar em atrito à medida que os espaços de convivência se tornam menores.
As relações tendem a entrar em atrito à medida que os espaços de convivência se tornam menores. (Reprodução/ Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

Definitivamente, o ser humano não é uma ilha. Não conhecemos histórias de pessoas que tenham nascido e se desenvolvido humanamente sem o auxilio e companhia de outras pessoas. Daí decorre o achado filosófico de que o ser humano é um ser com os outros no mundo. Nossa existência está amparada na de outras pessoas, sem as quais não nos conceberíamos como humanos. Apartados uns dos outros não possuiríamos cultura, não elegeríamos símbolos e não desenvolveríamos ritos e linguagem. Estaríamos condenados ao “ilhismo” ou ao “bolhismo”, condições segundo as quais não seria possível pensar em vida humana, tal como concebemos hoje. Mesmo as experiências do nascer e do morrer não estão alheias da relação com outros, contrariamente, implicam todos aqueles que ao nosso lado tornam a existência possível. E se há relação, então já não estamos sozinhos.

O outro é sempre alguém que nos afeta, positiva ou negativamente, é claro. Desde o abrir dos olhos até o deitar-se somos confrontados pelas pessoas que cruzam nosso caminho e por aquelas que têm seus caminhos atravessados por nossa existência. Um turbilhão de sensações, sentimentos, gestos e posturas emergem desses encontros e dessas relações que podem durar questões de segundos ou a vida inteira. O fato é que tudo o que somos ou fazemos da nossa vida tem consequências sobre a vida dos outros: “a borboleta bate as asas, o vento vira violência”. Nada está alijado de responsabilidade. Nesse sentido, torna-se importantíssimo rever nossas relações e o que temos sido para e com o outro. Até que ponto nossas ações têm corroborado para uma convivência menos caótica?

As relações tendem a entrar em atrito à medida que os espaços de convivência se tornam menores. As pluralidades logo são percebidas e as diferenças de pensamento, opinião e postura ganham contornos mais realçados. Isso pode ser facilmente percebido em nossas casas, junto às pessoas de nossa família, nos ambientes de trabalho, nas filas do banco, no trânsito, na escola, na comunidade de fé, etc. Nesses ambientes menores corremos sério risco de desencadear conflitos por causa de nossas diferenças. Nos espaços nos quais estamos com outros que não são os de nossas famílias, tais conflitos tendem a serem maiores ainda, pois não estamos motivados a abrirmos mão de nossas crenças para vermos sanados os problemas e dificuldades que só surgiram porque estamos interligados. Daí surge graves brigas e desentendimentos que decorrerão em relações frustradas.

 Nenhum grupo humano está livre do rompimento das relações. Até entre os discípulos de Jesus havia desentendimentos, disputas, rivalidades e inveja. Entre nós e nos ambientes que frequentamos não seria diferente. Não há uma receita para diminuir os conflitos. Somos seres com os outros no mundo e o fato de não sermos uma ilha já indica que enfrentaremos a força e os desafios do mar. É imprescindível cultivar a temperança e o respeito que garantem uma convivência não violenta, não animalesca, mas possível. Reconhecer o outro como semelhante e sabê-lo dotado de história e sujeito às experiências é exercer empatia, que já é um passo a mais para não nos encerramos numa existência mesquinha e solitária.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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