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Religião

21/04/2018 | domtotal.com

Um novo tipo de padres e leigos na Igreja: vivem de ódio

Religioso denuncia grupo de católicos que fomentam aberta e publicamente o ódio, a intolerância, o desrespeito e a guerra nas redes sociais e pregações.

A sociedade espera de nós cristãos,  pelo menos, um pouco mais de equilíbrio e sensatez.
A sociedade espera de nós cristãos, pelo menos, um pouco mais de equilíbrio e sensatez. (Josh Applegate/ Unsplash)

Por Pe. Geraldo Natalino (Gegê)

Há um fenômeno novo na Igreja Católica: padres, leigos e leigas intregristas que se movem em violentas campanhas contra tudo o que represente um risco para a idealização de uma igreja branca, “pura”, “imaculada”, misógina.  Olham os pobres com repulsa e aqueles que se levantam para  Ignoram o Evangelho, hostilizam a teologia latino-americana e guiam-se por  documentos de recorte medieval/europeu. Católicos e católicas assim sempre existiram, mas com as redes sociais e o aprofundamento da luta de classes no Brasil e no mundo, saíram a público e empunham a bandeira do catolicismo como uma religião em plena Cruzada contra os “infiéis”.

Perseguiram dom Oscar Romero, dom Paulo Evaristo Arns, dom Hélder Câmara, dom Luciano Mendes de Almeida no passado, com base em intrigas e maledicências pronunciadas a meia voz. Entre outros, são perseguidos hoje,  xingados e ameaçados de agressões e morte: frei Leonardo Boff, Frei Betto,  a freira Ivone Gebara, padre Júlio Lancellotti, padre Paulo Sérgio Bezerra , leigos, leigas, padres, freiras e bispos que defendem os indígenas, os sem terram os sem teto, os favelados país adentro, além dos franciscanos e da própria CNBB. Dom Pedro Casaldáliga foi perseguido no “velho estilo” e hoje, aos 90 anos, sofre também com a onda de ódio estridente.

Padre França e o então bispo Bergoglio Foto: Blog Caminho Pra CasaPadre França e o então bispo Bergoglio Foto: Blog Caminho Pra CasaEm 17/03, o padre e teólogo Mário de França Miranda  foi xingado em altos brados por dois homens durante missa na Paróquia  da Ressurreição, em Ipanema (Rio), ao comparar o martírio de Marielle  Franco aos de Martin Luther King e dom Oscar Romero.  Aos 81 anos, é um  teólogo de referência no mundo. Graduado em Filosofia pela Faculdade de  Filosofia Nossa Senhora Medianeira,  mestre em Teologia pela Faculdade  de Teologia da Universidade de Innsbruck, Áustria, e doutor em Teologia  pela Universidade Gregoriana de Roma, Itália. Amigo do Papa Francisco,  ambos jesuítas, atuou no grupo de trabalho como o que elaborou o  Documento da Conferência de Aparecida, em 2007, sob a coordenação do  então Cardeal Jorge Mário Bergoglio. Foi membro da Comissão Teológica  Internacional durante 11 anos, de 1992 a 2002. 

Tive o sagrado  privilégio te ter como professor e orientador de mestrado na PUC-RJ a  figura reconhecida internacionalmente do padre, pastor e intelectual  França Miranda. Seguramente, uma das personalidades teologicamente mais  importantes da igreja do Brasil e da América Latina. Com lamentável  tristeza li a notícia de que foi durante a missa chamado de “padre filho  da p…” por dois homens depois de se referir a Marielle (também a Mather Luther King e dom Oscar Romero) como defensora dos socialmente banidos. Lamentável, estimado França!

Porém, em meu escrito de solidariedade e repúdio, não posso, em estado de PROTESTO,  deixar de dizer que essa ação insana sofrida pelo ilustre e  respeitadíssimo sacerdote, não constitui uma atitude isolada no contexto  atual da IGREJA.  Há um grupo crescente de padres e leigos(as) no interior da Igreja  fomentando aberta e publicamente o ódio, a intolerância, o desrespeito e  a guerra nas redes sociais, pregações etc. Repito: há um tipo EMERGENTE  de clero e laicato, intolerantes e beligerantes in extremis. Assim: in extremis,  a despeito do caminho inversamente oposto trilhado e exigido pelo Papa  Francisco. Esse segmento eclesial aguerrido faz da Igreja, sobretudo no  mundo virtual (mas não só), um “PEIXE BETA”, peixe belíssimo e  encantador, mas pouquíssimo capaz de convivialidade.

Com quase 25 anos de  padre desconhecia esse fenômeno preocupante e assustador. Tudo isso em  nome da fé e da doutrina. Creio, pois, que o ocorrido na paróquia em  Ipanema no domingo (17) representa o SINAL MÁXIMO DE ALERTA.  Não podemos, pois, minimizar a gravidade do fato, não refletir sobre o  que ele representa, tampouco fingir que nada aconteceu. Afinal de  contas, se um padre do quilate do França foi tratado assim, em plena  missa, o que não serão capazes de fazer com os outros (dentre os quais  eu) no vasto território diocesano?

Por fim, da minha parte, creio profundamente que já passamos da hora de darmos um BASTA. Mas, urge perguntar:

De onde está nascendo tanto fogo intolerante no interior da igreja?

Quem está pondo brasas na fogueira do desrespeito e do ódio?

Quais e quantas bocas, inclusive clericais, estão por detrás das bocas que te xingaram?

Diletíssimo professor, quem amansará “cavalos xucros” que vicejam?

Não falta ao  cristianismo um número infinitamente grande de testemunhos maravilhoso  de cristãos (clérigos e leigos). São homens e mulheres(conhecidos e  anônimos) que traduzem na vida o amor extraordinário de Deus. Por que  não seguirmos esse caminho? Ademais, a sociedade espera de nós cristãos,  pelo menos, um pouco mais de equilíbrio e sensatez. Bom, acho que isso é  o minimo, se tratando de ser humano.

Santa Páscoa, Mário França Miranda, homem bom e necessário para a minha cabeça e para o meu coração.

Vossa bênção, meu Velho!!!

Obrigada por existir no coração do Mundo!!!


Instituto Humanista Unisinos - IHU

Padre Gegê é pároco da Paróquia Santa Bernadete, que abrange parte das comunidades de Higienópolis e Manguinhos, dois dos focos da ocupação militar em curso nas favelas do Rio de Janeiro. Membro do grupo Fé e Politica pe. João Cribbin, doutorando em Ciência da Religião pela PUC/SP. Negro, vive numa região comunidades de descendentes dos escravos que serviram aos donos do Rio de Janeiro de 1550 até 1888 (mais de 300 anos) e, depois, como escravos libertos sem direitos -situação que se prolonga até hoje. Celebrou as exéquias de Marielle Franco em 15 de março de 2018.

EMGE

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