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Brasil

23/04/2018 | domtotal.com

O Brasil, visto por um estrangeiro apaixonado

A Lava Jato procura investigar todos. Hoje temos políticos de 14 partidos sob investigação no STF.

Vladimir Netto, o cronista da corrupção:
Vladimir Netto, o cronista da corrupção: "A Lava Jato mudou o Brasil". (Pedro Marques/ MadreMedia)

Por José Couto Nogueira*

Não é próprio do jornalista falar da sua pessoa, mas neste caso torna-se necessário. Sou português, vivi e trabalhei dez anos em São Paulo, em duas épocas, tenho amigos brasileiros de todas as cores, família brasileira. Quando morei em Nova Iorque trabalhava para publicações brasileiras; e continuo seguindo a situação politica diariamente.

Saí do Brasil contrariado, expulso pelo Plano Collor. Até hoje me dá asco ver Fernando Collor no noticiário, senador, arrogante. É surpreendente como o sistema lhe deu uma segunda oportunidade. Mais me surpreende ainda o José Sarney, que navega por todos os sistemas e esquemas políticos desde 1955, entre ditaduras de direita e democracias de esquerda. Conseguiu ser Presidente da Arena e Presidente da Democracia. Mas isso é outra história. Todos temos ódios de estimação.

Quis o destino que em dias seguidos entrevistasse, aqui em Lisboa, dois brasileiros: Guilherme Boulos, dirigente do MTST, e Vladimir Netto, autor do livro “Lava Jato”.

Não podia encontrar visões mais contraditórias do “processo brasileiro” – visões essas por demais conhecidas, mas uma coisa é ler sobre elas, outra é ter os protagonistas à frente, prontos para responder às nossas questões.

Porque, simplificando muito, mas também zerando bem no alvo, há hoje duas trincheiras na sociedade brasileira: os que estão certos que os acontecimentos provam um complot da direita contra as conquistas dos trabalhadores, e os que acham que o que está acontecendo é a luta do Estado de direito contra a corrupção. São visões irreconciliáveis, porque nenhum dos lados está disposto a ouvir sequer os argumentos do outro. Não há razões, há opiniões.

Boulos se crispou apenas por eu fazer certas perguntas, a certa altura tive de lhe dizer que estava apenas querendo saber como respondia a críticas públicas, não a criticar pessoalmente. É a função do jornalista. Mas reagiu sobriamente, respondendo com precisão. Está convencido que Sérgio Moro é o braço armado dos privilegiados, dos que odeiam os pobres, dos que querem que o país mantenha a estrutura social que sempre existiu. Quando lhe fiz a pergunta mais óbvia, porque é que os governos do PT em 16 anos não deram terra aos sem terra, a resposta foi taxativa:

“Houve uma escolha. Quando o Lula chega ao governo, em 2002, a opção foi por fazer uma aliança, um pacto, em que pela conformação desse pacto, os mais pobres, os trabalhadores, “o andar de baixo” ganharia algo como resultado do crescimento econômico que estava sendo estimulado naquele momento no país, ou seja, ganhou programas sociais, aumento da valorização do salário mínimo, políticas públicas... Milhões de pessoas saíram da miséria, mas ao mesmo tempo, não se mexeria nos principais privilégios do “andar de cima”, nas questões estruturais, digamos. Essa é a natureza do pacto, da estratégia que foi montada.”

Justificado assim o fato de o PT se ter aliado aos poderosos para beneficiar os fracos, perguntei se Moro está a favorecer a direita. A resposta não surpreende:

“Em relação à Lava Jato e à forma como o Ministério Público tem agido, veja, na medida em que uma operação se propõe a combater a corrupção, tem de faco revelado muitos esquemas, bota gente rica na cadeia, que é coisa que a justiça brasileira não está acostumada a fazer, isso já é bem-vindo. Onde começam os problemas é quando o juiz Sérgio Mouro e outros promotores e juízes começam a politizar o processo das investigações, e a desrespeitar garantias constitucionais básicas. Veja a politização na forma como tratam esse processo do Lula e como trataram o de outras pessoas. Não é o mesmo critério que usa para outros políticos: a investigação de forma arbitrária, com vazamento de provas, gravações áudio, para a imprensa. O Moro fez isso de maneira contínua durante toda a Lava Jato. Isto nos leva a crer que o intento, objetivo, do Sérgio Moro e de outras pessoas, não é o objetivo maior de combate à corrupção, mas o menor de engajar o judiciário numa luta política e atacar todos os políticos com os quais ele não simpatiza.”

Não preciso de reproduzir mais, estas posições são conhecidas.

Já Vladimir Netto tem exatamente o ponto de vista oposto. Quando lhe fiz a mesma pergunta, se Moro tem uma agenda política, respondeu:

“Acho que não há parcialidade de Moro. A Lava Jato procura investigar todos. Hoje temos políticos de 14 partidos sob investigação no STF. É quase toda a gama de partidos brasileiros. Só não estão os que não estavam no poder, que não tinham cargos – eram pequenos, pouco expressivos. Mas todos estão a ser investigados.

É natural que uma investigação como esta começasse pelo partido que está no Governo, mas acho que não se limitou à esquerda, como a esquerda alega. Outros partidos estão a ser atingidos também. (...) O PMDB perdeu dois importantes líderes na Lava Jato e tem seu presidente acossado por denúncias. O Eduardo Cunha, que era o Presidente da Câmara de Deputados e mandou no Brasil durante muito tempo - e foi ele que iniciou o impeachment da Dilma -, esse está preso, condenado.”

(A entrevista, foi na véspera de Aécio ser indiciado.)

E sobre a prisão de Lula:

“Quatro tribunais se pronunciaram. Não acredito que todos os tribunais tenham um viés político. O caso foi analisado por toda a estrutura de tribunais brasileiros. Inclusive o habeas corpus, que foi ao Supremo. O caso dele foi analisado na primeira instância, na segunda instância, o Tribunal Federal, onde foi uma decisão unânime, na terceira instancia, que é o Supremo Tribunal de Justiça, e no Supremo Tribunal Federal.”

Poderia dizer muito sobre a situação, não tanto quanto a razões, mas quanto aos sentimentos que me provocam. Mas acho que não o faria tão bem como Contardo Caligaris na “Folha de São Paulo” (https://www1.folha.uol.com.br/colunas/contardocalligaris/2018/04/as-reacoes-a-prisao-de-lula.shtml?utm_source=facebook&utm_medium=social&utm_campaign=compfb)

Tal como eu, Contardo também é estrangeiro e sente na pele a angústia do Brasil. Com o equilíbrio de opinião que, infelizmente, é cada vez mais difícil aos brasileiros praticarem. Citando-o:

“Quando da vitória dos petistas, havia no ar uma enorme esperança, de um país menos desigual, mais digno, onde todos viveríamos melhor.

É o fim dessa esperança que me entristece com a prisão de Lula — tanto mais por ser um fim envergonhado, de rabo entre as pernas.

A tristeza vem com uma ponta de irritação: o governo que carregava a esperança de tantos, se não de todos, não soube (ou não quis) transformar o molde de nossas eternas repetições - por insuficiência, por incompetência e talvez simplesmente por falta de coragem.

(...) Os governos do PT tentaram corrigir a miséria produzida pelas elites saqueadoras; infelizmente, talvez para se manter no poder, eles continuaram usando o Estado como um mercado de interesses privados ou partidários.

E a esperança de um novo Brasil foi para o brejo.”

Só neste último ponto difiro de Contardo. As repúblicas têm a fantástica capacidade de se regenerar. A esperança de um novo Brasil ainda está no meu coração.

*O jornalista José Couto Nogueira, nascido em Lisboa, tem longa carreira feita dos dois lados do Atlântico. No Brasil foi chefe de redação da Vogue, redator da Status, colunista da Playboy e diretor da Around/AZ. Em Nova Iorque foi correspondente do Estado de São Paulo e da Bizz. Tem três romances publicados em Portugal.

EMGE

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