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24/04/2018 | domtotal.com

Um domingo de erros com Datena

O arriscado desafio de permanecer seis horas no ar ao vivo concretizou-se apenas como uma decepção sem pé nem cabeça.

O Agora com Datena pode ter uma chance de melhorar, se entender que espontaneidade e improviso são duas coisas bem diferentes.
O Agora com Datena pode ter uma chance de melhorar, se entender que espontaneidade e improviso são duas coisas bem diferentes. (Divulgação)

Por Alexis Parrot*

Em um cenário muito pequeno e muito escuro para uma atração vespertina, José Luiz Datena estreou seu novo programa na Band, o Agora é com Datena, no último domingo.

O experimentado apresentador policial de atrações sensacionalistas decidiu abandonar o que sabe fazer para se jogar nas águas inóspitas do entretenimento. Trocou o certo pelo ego e o resultado não foi dos melhores.

O arriscado desafio de permanecer seis horas no ar ao vivo, rivalizando com Faustões, Faros e Silvios na programação domingueira da nossa TV, concretizou-se apenas como uma decepção sem pé nem cabeça.

A entrevista com o pré-candidato a presidente Jair Bolsonaro poderia ter sido um ponto alto do programa, pela polêmica que o troglodita da direita deixa como rastro por onde quer que passe. Mas, para começar, foi gravada (e editada); além disso, o repórter Datena não reporta e nem informa.   

Ele é o tipo de entrevistador que não se interessa pelas respostas do entrevistado. Cada pergunta, geralmente, vem no vácuo de uma longa preleção, onde sua opinião é de fato o que importa. A entrevista com Bolsonaro não trouxe nada de novo e deixou no ar, sem maiores cobranças de explicação, a afirmação do pré-candidato de que se o voto na urna eletrônica for impresso ele ganha no primeiro turno.

Um entrevistador sério não perderia a chance de deixar impune um entrevistado que diz tamanha bobagem. Mas, como Datena realmente não está nem aí para o que seu entrevistado fala ou deixa de falar, fica tudo por isso mesmo.

Outro momento inexplicável na verdadeira maratona de enganos que se mostrou o Agora com Datena foi a exibição de uma entrevista com Marina Silva, feita para o programa que o apresentador mantém diariamente na Rádio Bandeirantes. 

Qual o sentido de colocar no ar o áudio de uma conversa com a sonhática realizada dias antes, sem nenhuma novidade, em um programa de televisão ao vivo? Se fosse uma conversa pelo telefone realizada naquele instante, ainda vá lá. Afinal, o programa diz que é ao vivo.     

A opção de ancorar-se em atrações musicais de forte apelo popular (Bruno e Marrone, Amado Batista e Zezé di Camargo deram o ar da graça na estreia) que permanecem uma eternidade no palco, cantando no formato acústico e conversando com Datena, poderia até funcionar - se nessa conversa alguma informação útil, relevante ou no mínimo interessante surgisse.

Mas não foi o caso, infelizmente. O que imperou foi a rasgação de seda explícita entre apresentador e convidados e uma vontade sempre presente do dono da atração de exibir-se como pessoa íntima dos artistas convidados.   

Zezé di Camargo não estava em um bom dia. Desafinou como nunca e só se emocionou mesmo com a "homenagem" que o programa fazia para ele ao final, ao revelar que seu pai está com graves problemas de saúde. Novamente, a promessa de ser ao vivo da atração foi quebrada, com inúmeros trechos de um programa antigo do próprio Datena e a exibição de um longo trecho de DVD de carreira do sertanejo e seu irmão Luciano.

Foi de Amado Batista o grande momento de humor (provavelmente o único, mesmo que involuntário)  desse domingo em companhia de Datena, quando as horas pareciam não passar. Ele cantou a música Secretária, sobre assédio sexual:

... Secretária, que trabalha o dia inteiro comigo
Estou correndo um grande perigo
De ir parar no tribunal

Secretária, às vezes penso em falar contigo
Mas tenho medo de ser confundido
Por um assédio sexual.

Machista e bobo, Amado Batista confunde alhos com bugalhos e joga no lixo a gramática para nos brindar com essa pequena aberração, certamente um dos momentos mais ridículos do cancioneiro popular brasileiro. Ter tido a oportunidade de conhecer essa pérola é mais uma que o Datena fica me devendo. 

O atraso de Zezé di Camargo obrigou a repetição de matéria sobre venezuelanos que estariam sendo "vendidos" em Roraima. Foi a estreia de um quadro com uma câmera escondida genérica, mas com o nome de Agente Oculto - uma tentativa impossível de diferenciar-se de todos os outros programas de todas as emissoras que usam expediente semelhante.

A matéria mais confundiu que explicou. O tal agente oculto negociava a ida de sete imigrantes de Boa Vista para São Paulo. Os venezuelanos pareciam estar cientes de toda a negociação e dispostos a aceitar a proposta e o "agenciador" lucraria a fábula de 450 reais no final. Nada que lembrasse uma quadrilha do crime organizado sendo desbaratada - como sugeria a chamada grandiloquente do quadro.

Antes do completamente dispensável game show A Fuga (baseado em formato israelense), mais um momento gravado do programa que se diz ao vivo, a etapa do palco com auditório foi encerrada com uma longa (e chata) conversa com um dos patrocinadores do programa. O dono da rede de farmácias foi tratado como celebridade por Datena, outra situação surreal que o Agora nos ofereceu.

Faltou um pouco de tudo nessa estreia do Datena tentando ser o que não é, mas a bagunça que imperou durante todas as longas horas em que liderava o show é reflexo de desorganização e de falhas básicas de produção. O buraco que o atraso de Zezé di Camargo causou deixa clara a falta de preparo com que o programa foi ao ar.

Dava pena ver as duas assistentes de palco, ao fundo do cenário. As datenetes não sabiam porque estavam ali, não sabiam o que fazer e nem para onde olhar. Faltou direção.

Junte-se a isso o fato da atração não ter um formato, desejando sustentar-se apenas sobre a personalidade de seu apresentador. Não dá mais para simplesmente ligar a câmera e deixar o barco correr - como nos programas policiais em que o falastrão Datena, com sua forte presença, de fato, reinava.

O Agora com Datena pode ter uma chance de melhorar, se entender que espontaneidade e improviso são duas coisas bem diferentes.

Ninguém pode ir para o ar querendo improvisar durante seis horas e achar que tudo vai correr bem - porque não vai, como pudemos ver claramente na estreia de domingo.

*Alexis Parrot é diretor de TV e jornalista. Escreve sobre televisão às terças-feiras para o DOM TOTAL.

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