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25/04/2018 | domtotal.com

Nem sempre as linhas são retas

"Hoje é meu aniversário, a gente pode ficar mais à vontade, né?"

Bastou um único beijo para Jorge nunca mais voltar para casa.
Bastou um único beijo para Jorge nunca mais voltar para casa. (Amira Hissa/PBH)

Por Pablo Pires Fernandes*

Depois de assistirem a Arábia e ainda comovidos pelo filme, Cláudio e Flora desceram a Rua Espírito Santo rumo ao Edifício Maletta para abraçar o amigo que lançava sua antologia poética. Estacionaram junto ao canteiro central da Avenida Augusto de Lima. Foi inevitável notar, logo ali, os dois homens fazendo churrasco naquele pedaço de calçada entre as duas vias, alheios ao ruidoso frenesi que os circundava.

Ambos tinham os cabelos desgrenhados e roupas sujas, deviam ter uns 30 anos. Tomavam cachaça numa garrafa de plástico enquanto vigiavam o pedaço de carne sobre a lata preta de fuligem. A lenha estalava, lançando faíscas na tarde seca. Muito limpa, uma tábua aguardava a refeição ao pé da árvore.

Diante da cena inesperada, o casal os saudou com curiosidade e admiração. Jorge sorriu desdentado e, orgulhoso, anunciou: “Hoje é meu aniversário, a gente pode ficar mais à vontade, né?”. Cláudio e Flora o parabenizaram, ato correspondido por um longo salamaleque. Seu amigo Zé sequer desviou os olhos da carne que manobrava sobre a churrasqueira de lata.

No segundo andar do Maletta, gente inteligente recitava poemas, fazendo ecos pelas galerias. Uns versos – “nuvem que ensombra um canto do céu” – fizeram Cláudio rever o encontro. A imagem da luz azul do fim da tarde, o brilho da pele e dos olhos azuis de Jorge, as chamas e faíscas que saíam da lata.

No canto da livraria, Cláudio se deteve em frente à estante abarrotada de dicionários. Observava as tantas línguas, no entanto, era incapaz de traduzir a visão de Jorge e Zé fazendo churrasco no meio da avenida, muito menos o que sentia a respeito daquela cena. Como era fotógrafo, as cores e formas do instante não lhe saíam da cabeça e, sem se dar conta, começou a imaginar como seria a vida de Jorge.

Em seu devaneio, aquele homem tinha nascido no interior, alguma cidade pequena com uma igreja antiga e ruas de pedras – capistranas, talvez?. A severidade do pai e as constantes surras o levaram a deixar a escola e o lar ainda menino e tomar o rumo da capital. Para ganhar a vida, fez de tudo um pouco e foi uma desilusão amorosa o motivo de Jorge viver na rua.

Só que a vida de Jorge foi outra e, exceto por um fato, não batia com a narrativa construída por Cláudio. Nascido em Contagem, a mãe morreu no parto do irmão mais novo. O pai, operário da fábrica de cimento, lutava para sustentar os três filhos com dignidade. Jorge sempre foi bom aluno, especialmente em matemática, gosto que o fez mergulhar em teoremas e fórmulas. Aos 15 anos, via a realidade composta de números, a aritmética ou a geometria lhe bastavam.

Mas a vida nunca segue uma linha reta e Inês foi a curva que o fez perder a razão. A paixão não fazia sentido e Jorge se embaralhou buscando entender se o que lhe ardia o peito e acelerava o coração era soma ou subtração. Inês era ímpar. Bastou um único beijo para Jorge nunca mais voltar para casa.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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