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Religião

04/05/2018 | domtotal.com

A família e a vida em comunidade: o ser humano como ser em construção

Ao cuidarmos da família, estamos, simultaneamente, cuidando do indivíduo e da sociedade.

Com famílias socialmente bem assistidas, poderemos avançar na concretização de processos educativos que capacitam as futuras gerações.
Com famílias socialmente bem assistidas, poderemos avançar na concretização de processos educativos que capacitam as futuras gerações. (Reprodução/ Pixabay)

Por Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães*

No atual contexto de nossa civilização, quando analisamos os desafios da convivência humana, ainda que em alguns lugares mais do que outros, podemos afirmar que os avanços e as conquistas do ser humano, nas diversas áreas de conhecimento com suas inúmeras tecnologias, não garantiram a superação de nossos problemas básicos: ódio, violência, guerra, exploração, escravidão, desigualdade, exclusão social, miséria, fome, intolerância, discriminação, preconceito, desonestidade, corrupção etc.

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Se a base da vida humana é definida na família, não é nela que devemos nos concentrar para discernir pistas para a concretização de um futuro melhor para todos?

Não é tarefa simples conceituar, definir e delimitar as potencialidades e as possibilidades da vida em família, quando temos como objetivo pensar o ser humano inserido na vida em comunidade. Ainda assim, cremos que não se possa negar que o que vivemos no seio familiar afeta, direta e profundamente, o modo como construímos a nossa identidade e a nossa escala de valores; como lidamos com a afetividade em nossas relações. Por isso é inegável que a vida em família tem tudo a ver com o nível de qualidade que conquistamos em nossa vida em comunidade.

Cada pessoa nasce completamente dependente de atenção, carinho, proteção e educação cultural. Quando iniciamos a nossa jornada histórica, e vamos crescendo, essa necessidade primigênia nos acompanha por muito tempo, mesmo depois de já termos concretizado diversos passos ou experiências de convívio social. Por isso, quando temos como ponto de referência central a criança – gestação, lactação e infância – concebemos família, independente de sua forma ou de seu arranjo, como o núcleo estruturante, a fonte básica de oferta de atenção, carinho, proteção e educação cultural. A condição humana é a de ser carente de amor-cuidado para se constituir como tal: um ser dotado de autonomia, sempre aprendiz e em construção.

Neste sentido, uma sociedade não deve medir esforços para garantir o direito de toda criança ter, de fato, uma família com condições dignas de vida, capaz de suprir as suas necessidades básicas vitais de ser humano em desenvolvimento inicial. Antes de nos relacionar com a creche, a escola, a religião ou com qualquer outra instituição social, a família é aquela que lança as bases, o alicerce da vida socio-afetiva de uma pessoa. Ainda que esta, como eterno aprendiz, estará sempre em construção, inacabada em seus processos cada vez mais complexos, a família é fundamental. Isso porque o que em seu seio acontece, em termos de vivência, afeta o nível ou o âmbito mais profundo de uma pessoa.

A vida em família não acontece de forma isolada. Em toda sociedade, seja ela a de um povo indígena, quilombola, cigano, a que vive no meio rural ou urbano, em uma pequena cidade ou metrópole, e primariamente por causa das crianças, precisa-se pensar formas de reconhecer e de proteger o conjunto de seus núcleos familiares.

Em nossa sociedade, depois de muitas lutas travadas, conquistamos, em 1989, uma Constituição Federal que pode ser considerada cidadã, pois garante, no nível da lei, como direitos sociais fundamentais, dentre outros, o acesso de todos os brasileiros  à saúde, à moradia, ao saneamento básico, à educação, ao trabalho, ao transporte, ao lazer. Elaboramos, depois, um Estatuto da Criança e do Adolescente - ECA - para defender a dignidade da infância e combater toda forma de violência ou descaso familiar e social. Ainda não conseguimos criar mecanismos capazes de concretizar na vida sociopolítica o que está definido idealmente nos termos da lei, mas temos um poderoso instrumento para fundamentar as nossas lutas.

Com famílias socialmente bem assistidas, poderemos avançar na concretização de processos educativos que capacitam as futuras gerações, seja pela qualidade das vivências, seja pelos processos de internalização de valores, para uma vida em comunidade sem tantas desigualdades, exclusões e violências. Com pessoas que aprenderam, dentre outras coisas, a:

  • respeitar limites, a ser justas e reconhecer a igual dignidade dos outros;
  • a escutar, a dialogar fraternalmente e, inclusive, a divergir;
  • a acolher o diferente e a reconhecer a sua igual dignidade cidadã;
  • a socorrer aqueles que se encontram em necessidades;
  • a conviver em contexto de pluralismo cultural e religioso.

Tendo tudo isso presente podemos afirmar que ao cuidarmos da família, estamos, simultaneamente, cuidando do indivíduo e da sociedade, pois é na vida em família, sobretudo, que nos capacitamos, como homo socialis, para a vida em comunidade.

Prof. Edward Neves Monteiro de Barros Guimarães é mestre em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia – FAJE, orientado por João Batista Libanio. Atualmente é doutorando em Ciências da Religião na PUC Minas, com uma pesquisa sobre o legado teológico de João Batista Libanio. É professor do Departamento de Ciências da Religião da PUC Minas, onde atua como secretário executivo do Observatório da Evangelização. É assessor das Comunidades Eclesiais de Base – CEBs. Membro do Conselho Arquidiocesano de Pastoral e do Conselho Ampliado de Formação do Seminário Arquidiocesano.

EMGE

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