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Religião

04/05/2018 | domtotal.com

Algumas ideias simples sobre o 'ser relação'

É no movimento dos encontros que realizamos nosso ser, conhecemo-nos a nós mesmos e formamos humanidade.

Ficamos 'próximos dos distantes e distantes dos próximos'.
Ficamos 'próximos dos distantes e distantes dos próximos'. (Reprodução/ Pixabay)

Por Vitor Júnio Félix Fernandes*

Compartilhamos aqui algumas ideias simples para nos ajudar a pensar a existência humana de forma conjunta, de cada pessoa consigo mesma e com os outros, ao mesmo tempo. Neste ponto da História, em que se valoriza amplamente pelo mercado e pela mídia, uma trajetória de vida individualizada ao máximo, recordar a sociabilidade é... necessário.

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Poder-se-ia dizer que o “efeito single” da Modernidade foi uma expressão espontânea dos sapiens e que nós, hoje, apenas reverberamos o retorno da subjetividade renascentista, mas nem tanto. O modus vivendi desta espécie atual, além de formado por esses elementos, está imbricado com o espírito de consumo industrial capitalista e seus desdobramentos de singularização. Basta estendermos o olhar aos avós da geração Z e perceberemos que, de lá para cá, desenrolamos a história preferindo e cultuando o “eu” em detrimento do “nós” sem pensar muitas vezes.

As famílias do século passado não só eram maiores que as de agora. Elas habitavam o mesmo espaço, passavam mais tempo juntas e eram entendidas de forma mais ampla: pais, filhos, tios, avós e primos moravam no mesmo lar. Não é o caso de julgá-las melhores por isso, afinal, cada tempo e cada povo dá sentido e vive a vida de maneira diferente, construindo seus próprios valores, alegrias e dores. O que chama a atenção é perceber um movimento de proporcionalidade inversa quanto às relações humanas nessa história. Se antes predominava, nas culturas em geral, a “proximidade entre os próximos” e a distância (geográfica) entre os povos, hoje somos famílias menores concentradas em grandes cidades, com mais entendimento e percepção da comunidade global e, ainda assim, vivemos mais "embolhados" que nunca. Ficamos “próximos dos distantes e distantes dos próximos”. Você e eu somos capazes de sair de casa, utilizar o transporte público (lotado!), ou um automóvel particular de cinco lugares com quatro ou três vazios, trabalhar todo o dia rodeados de parceiros (alguns amigos), voltar para casa no mesmo transporte público (que então, além de lotado terá peculiar odor) e não alcançarmos dez abraços ou toques afetuosos no mesmo dia. Esse quadro já era uma realidade antes da internet, depois dela consolidou-se ainda mais.

Apesar dessa constatação de distanciamento, tomemos o importante e necessário clichê principal: o ser humano é um ser de relações. Físicas, virtuais, simbólicas, históricas, emocionais, sexuais, econômicas, utilitárias ou gratuitas. O tipo e a forma dessas relações não é determinado nem necessário, como há muito se praticava. Liberdade alcançada pelo ressurgimento do “eu”, paradoxalmente conquistado com a força da coletividade. Recordemos os movimentos contraculturais da década de 1960, que balançaram o mundo, como os hippies pedindo “Paz e Amor” e os estudantes do Maio francês em sua astronômica greve geral. Esse tipo de força social, como tiveram os jovens brasileiros nas ocupações estudantis de 2016, nos ajuda a recordar a importância do ser com o outro para construir o ser eu mesmo. Singularmente, cada um de nós transcende para o outro. Ainda que seja com o pescoço inclinado e olhando uma tela, procuramos a importância do outro, se não no toque corpóreo, no virtual.

Aristóteles assim afirmou a humanidade: o ser social. Habermas nos leu de outra maneira: o ser comunicador. Michel Foucault e Michel Henry recordaram nossos corpos e Heidegger nos "jogou na cara": o ser-aí com os outros no mundo. Ademais dessas filosofias todas, consideremos mais um argumento simples de nosso ser relacional: qualquer humano é fruto de algum encontro, de uma relação, a saber, uma relação de corpos (ainda que in vitro). E que bom sermos assim! É nesse movimento de encontros que realizamos nosso ser, conhecemo-nos a nós mesmos e formamos humanidade.

Nesse sentido, é benéfico trazer à semântica desta reflexão um conceito da ecologia: a sustentabilidade. Você já se perguntou algo do tipo: “como me relacionar hoje de modo a proporcionar às gerações futuras (e ao “eu” do futuro) relações tão boas (ou melhores!) que as nossas de atualmente?” Longe de mim pretender quaisquer respostas prescritivas. Ainda assim, atrevo-me a dizer: pratiquemos o encontro silencioso de cada espírito consigo mesmo e o toque do outro que é como nós e só pode ser conosco. Ajuda bastante se estivermos perfumados por dentro e por fora.

*Vitor Júnio Félix Fernandes, Graduado em Filosofia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia. É professor de Filosofia e Sociologia no Eccellente e integrante do projeto "BH de mãos dadas contra a AIDS", em parceria com a Prefeitura de BH e a ONG ACP Sempre Viva. Atua na formação de crianças e adolescentes para a promoção dos Direitos Humanos.

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