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Religião

04/05/2018 | domtotal.com

Religião e individualismo: do ópio à libertação

Numa religião que estava sendo ópio para o povo, Jesus aponta um caminho libertador

É somente sendo libertadora que a religião não será ópio.
É somente sendo libertadora que a religião não será ópio. (Reprodução/ Pixabay)

Por César Thiago do Carmo Alves, FMI*

No dia 05 de maio de 1818 nascia Karl Marx. Um pensador que deu uma guinada na reflexão filosófica ocidental. A celebração de seu bicentenário consiste num verdadeiro convite para aprofundar suas teses. É justamente numa de suas obras, a Crítica da Filosofia do Direito de Hegel (1843), que Marx refletirá de forma contundente sobre a religião e a importância da crítica sobre ela. Reconhece que a crítica da religião é o pressuposto de toda crítica. Em sua análise conclui que a miséria religiosa é expressão e ao mesmo tempo protesto da miséria real. Ela consiste num respiro da criatura oprimida bem como um ânimo num mundo sem coração. Em síntese, a religião é o ópio do povo. As análises de Marx possuem, no entender de Bento XVI, uma pontual precisão e uma grande capacidade analítica (Spe Salvi, n.20). Tendo em conta essa capacidade de descrever a situação de seu tempo é que se arvora a necessidade de compreender no tempo presente a relação entre religião e a superação do individualismo. Se para Marx a religião é ópio, poderia ser ela também fonte propulsora de libertação?

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Numa rápida constatação sócio-antropológica, se verifica que a religião exerce uma influência quase que determinante na vida de inúmeras pessoas. Seja positivamente, quando, por exemplo, ela oferece uma palavra de consolo para o alívio do sofrimento, como negativamente, quando seus líderes inspiram a alimentar o ódio e a intolerância. Quando se descortina no horizonte uma forma de viver a esfera do sagrado patrocinado por uma determinada crença religiosa, mais pietista, enclausurada em si mesma, numa busca tão somente pela prosperidade pessoal, importando-se exclusivamente com o “eu”, nota-se aí uma experiência religiosa individualista, uma vez que não se fomenta a vivência da vida fraterna. Diga-se, da koinonia (comunhão) com Deus, com as pessoas e o universo.  O ter tudo em comum como tarefa (cf. At 2,44) é simplesmente excluído.

Mas, afinal, como a Revelação de Deus nos ajuda a compreender a relação entre religião e a superação do individualismo? Considerando que, em Jesus, Deus se revelou totalmente, num olhar para os textos dos evangelhos, que são escritos pós-pascais, vê-se a relação de Jesus com a sua religião, o judaísmo. Quando em seu tempo o judaísmo havia se tornado uma religião autorreferecial, sem se preocupar, a partir de suas lideranças conforme narram os textos sagrados, com as pessoas, colocando-as em segundo plano, Jesus muda de perspectiva. O ser humano é o ponto de partida. Quando o judaísmo se preocupava de forma dogmática com as normas, que por vezes eram fontes de opressão, Jesus apresentou a importância do espírito diante da lei. Quando o judaísmo estava voltado para uma esfera ad intra eclesial, Jesus apontou um caminho ad extra. Desse modo, constata-se que o Mestre de Nazaré foi um crítico da religião. Numa religião que estava sendo ópio para o povo, Jesus aponta um caminho libertador. Assim fica claro que Jesus de Nazaré, ao estabelecer essa relação com a religião mostra que ela, necessariamente, tem um caráter libertador. É somente sendo libertadora que ela não será ópio. Não colaborará com o individualismo.

Na história da Igreja latino-americana, em 1968, aconteceu um grande pentecostes. Foi a conferência do episcopado latino-americano em Medellín. Esse ano celebram-se os 50 anos daquele evento que marcou por todo o sempre o caminho da Igreja Católica nesse continente. Lá, os bispos afirmaram uma opção pelos pobres. Um documento profético. Carregado de esperanças. Desse modo, os pastores da Igreja apontavam o itinerário de uma Igreja que não se fechava em si mesma, mas que vai ao encontro das pessoas. No fundo, era um convite para que as pessoas católicas se vissem como irmãs. Que as comunidades fossem verdadeiras bases eclesiais para a vivência da fraternidade e superação das opressões impostas pelo sistema econômico-político. Vale lembrar que na América Latina, vários países estavam sob ditaduras, inclusive o Brasil. Nesse cenário, muitos irmãos e irmãs, em nome da fé num Deus que é pleno amor, fizeram oblação de sua própria vida, derramando por vezes sangue, em vista da vida em abundância de tantas pessoas que viviam oprimidas. A práxis era o ponta-pé inicial para se poder pensar a fé. Da práxis ia-se à reflexão da fé; e, sucessivamente, da fé se retornava à práxis. A mística estava profundamente articulada com a vida. Com isso, pode-se afirmar que uma espiritualidade encarnada e libertadora constitui num impulso para estabelecer a relação da religião com a fraternidade. Passa-se do ópio à libertação.

Quando a religião se põe na escola do serviço, quando não tem medo de ser criticada, quando não se coloca numa postura apologética, mas sim evangélica, ela colabora com a superação do individualismo. Não é possível conjugar uma verdadeira fé cristã com individualismo. E quando se vê nas igrejas posturas individualistas, preocupação tão somente com prosperidade, uma preocupação exacerbada com a instituição levando ao desrespeito, ou ainda, a oprimir pessoas em nome de um deus que não se coaduna com o Deus apresentado por Jesus, nada mais é que uma nova forma de heresia nascendo.

*César Thiago do Carmo Alves pertence à Congregação Religiosa dos Filhos de Maria Imaculada (Pavonianos). É doutorando e mestre em Teologia Sistemática pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE). É graduado em Filosofia pelo ISTA e Teologia pela FAJE. Possui especialização em Psicologia da Educação pela PUC Minas.

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