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Religião

15/05/2018 | domtotal.com

Beijo é beijo, mas não é só isso

O ato de beijar é polissêmico e, nesse sentido, também é um ato político.

Como reação ao beijo entre pessoas do mesmo sexo, uma enxurrada de palavras mortíferas é dirigida contra as pessoas que não se enquadram nos padrões heteronormativos da sociedade.
Como reação ao beijo entre pessoas do mesmo sexo, uma enxurrada de palavras mortíferas é dirigida contra as pessoas que não se enquadram nos padrões heteronormativos da sociedade. (Rawpixel by Unsplash)

Por Tânia da Silva Mayer*

Definitivamente, é sábio o ditado que diz que “quando um não quer, dois não brigam”. Reinterpretando para corroborar nosso tema, diremos que “quando um não quer, dois não se beijam”. Há muitos estudos científicos sobre o beijo que mostram como nosso corpo atua quando beijamos outra pessoa. Tais estudos apontam inclusive os benefícios que o beijo traz ao nosso organismo. Agregados a esses, também poderíamos dissertar sobre os benefícios psicológicos e espirituais que um beijo apaixonado pode nos oferecer. E quem já beijou a pessoa que amava sabe, por experiência, o que é que estamos dizendo e sabe ainda o que é sentir um vale de borboletas na própria barriga. O ato de beijar é polissêmico e, nesse sentido, também é um ato político.

É fato que não beijamos somente com a boca. Um beijo pode ser dado por meio de olhares, toques e palavras que funcionam como preparação ou são incorporados ao próprio gesto. Mas é importante salvaguardar o valor da boca que beija e é beijada. A boca humana é caminho para a entrada e saída de ar. Através dela é que nos mantemos vivos. Ela é também a porta por onde entram os alimentos que sustentam nosso organismo. Mas não é só para as funções vitais que serve a boca. Ela é ainda a passagem da palavra, da linguagem, característica que nos distingue dos outros animais. Pela boca sai a palavra que nos liga uns aos outros numa grande família humana e que torna possível sermos com os outros no mundo. Mas também a boca é lugar através do qual sentenciamos a morte do outro. A sabedoria ensina que a palavra fere e mata. Quantos de nós entramos em conflitos e rompemos com as pessoas por causa de uma palavra dura, infeliz ou mal-dita?

O próprio Jesus já havia indicado que a boca fala exatamente aquilo que o coração acolhe e guarda. De modo que nossas palavras são capazes de revelar nossas intenções diante das coisas, das pessoas e dos fatos. Na esteira do profetismo bíblico, a própria Palavra de Deus foi compreendida como “palavra de dois gumes”, assemelhando-se a uma espada afiada para o corte. Quanto aos ímpios, suas palavras podem aniquilar os justos. Nesse sentido, é feliz a canção católica que suplica a Deus pedindo “a palavra certa, na hora certa e do jeito certo e pra pessoa certa”. Na esteira do ensinamento de Jesus, nossas palavras de amor são também palavras de vida capazes de comunicar esperança e salvação para quem enfrenta ou vive situações de morte. E quantas palavras pronunciadas por nossas bocas promovem a exclusão e a morte dos outros?

Poderíamos nos perguntar o que o beijo tem a ver com a palavra e se essa relação se dá somente no sentido de ambos acontecerem através da boca, mas não é só isso. Nossos gestos carnais são ambíguos, de modo que cada gesto acontecido tem potencial em si mesmo para comunicar seu maior sentido. O beijo pode comunicar, por exemplo, vida ou morte, mas para alcançar o maior sentido desse gesto dependeremos da experiência dos sujeitos participantes. Numa compreensão mais fenomenológica, o beijo é um gesto extremamente íntimo entre duas pessoas que, por meio dele, doam e recebem o sopro, o ar que dá vida e sem o qual morremos. Como comunicador de vida e morte, o beijo é também político, pois pode ultrapassar as conotações de amorosidade, paixão, erotismo e intimidade para alcançar, na esteira dessas esferas, a esfera pública e política. Duas pessoas de mesmo sexo se beijando numa novela de horário nobre, por exemplo, é um ato revolucionariamente político, pois convida ao diálogo sobre os afetos, o amor, a entrega da vida, a intimidade, a cumplicidade, a paixão e o erotismo vivido nas relações homossexuais. E juntamente com o diálogo, o beijo público entre dois homens ou duas mulheres reclama o direito desses corpos no interior das sociedades heteronormativas e fascistas.

E como reação ao beijo entre pessoas do mesmo sexo, uma enxurrada de palavras mortíferas é dirigida contra as pessoas que não se enquadram nos padrões heteronormativos da sociedade brasileira, cultivados no âmbito das religiões para a manutenção do status quo. Isso é percebido, sobretudo, pelo fato de que tal gesto se torna notícia mais impactante que aquelas que mostram o alarmante número de pessoas desempregadas e que também vivem o drama da fome, carecendo do mínimo para sobrevivência. Aqui a palavra mortífera não só reage a uma cena comum de novela, mas autoriza politicamente o assassinato de pessoas LGBTs por homofobia e a negação dos seus direitos duramente conquistados. Por isso, a fim de que nenhuma outra vida seja ceifada e para que haja vida plena e abundante para todos e sem restrições, outros beijos precisam ser dados nesses ambientes nos quais a ficção se aproxima das narrativas existenciais de muitas pessoas. Beijo é política, é teologia e é beijo também.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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