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Religião

16/05/2018 | domtotal.com

'Meu Reino não é desse mundo' como disfarce para indiferença

O reino que se inaugura com Jesus Cristo é aquele que traz consigo a esperança de uma transformação da sociedade atual naquela que haverá quando da nova criação de todas as coisas.

Assumir que o reino de Deus não é desse mundo é reconhecer que o sistema que vivemos não é aquele querido por Deus.
Assumir que o reino de Deus não é desse mundo é reconhecer que o sistema que vivemos não é aquele querido por Deus. (Reprodução/ Pixabay)

Por Fabrício Veliq*

Um dos discursos mais utilizados por diversos/as cristãos/ãs para tentar se eximir de todo e qualquer envolvimento com os aspectos políticos da sociedade onde se está e ao mesmo tempo assumir uma postura indiferente frente a realidade do mundo é usar a fala de Jesus que consta na narrativa evangélica, em que diz: “Meu reino não é desse mundo”. Esse versículo é um exemplo claro de que todo texto, quando tirado de seu contexto, torna-se pretexto para se dizer o que quiser a respeito de qualquer situação.

Essa fala, como relatada no Evangelho segundo João, capítulo 19, versículo 16, encontra-se na narrativa da condenação de Jesus por parte de Pilatos. Nessa cena, Pilatos pergunta a Jesus se ele seria o rei dos judeus e Jesus responde: “O meu reino não é desse mundo. Se o meu reino fosse desse mundo, meus servos teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus”. Dessa forma, entender o que João quer dizer por mundo se torna tarefa imprescindível para compreender aquilo que ele quer mostrar com essa fala que atribui a Jesus.

Em todo Novo Testamento, o termo mundo não tem a ver com o mundo físico, antes, com um sistema que é vigente e que está em total contraposição àquilo que é desejado por Deus para a humanidade. Quando Jesus diz que seu reino não é desse mundo o que quer dizer é que a forma como seu reino vem a nós não é pelas forças da guerra e pelos meios pelos quais os poderosos chegam ao poder. Antes, quer nos dizer que o reino que inaugura vem da parte de Deus e, por isso mesmo, subverte toda a ordem vigente, trazendo um novo sistema para o mundo que não se baseia na força física, mas na força do amor.

Para que haja um novo sistema é necessário que o antigo seja, portanto, destituído de seu lugar. Contudo, o lugar onde esse novo sistema é estabelecido não é em um além no céu, fora do mundo em que habitamos. Muito pelo contrário, o reino que se inaugura com Jesus Cristo é aquele que traz consigo a esperança de uma transformação da sociedade atual naquela que haverá quando da nova criação de todas as coisas. Assim, ainda que não seja por meios políticos que o reino de Deus seja instaurado, sua conotação política enquanto luta contra o sistema individualista e mundano que vivemos é presente em toda narrativa evangélica, culminando com a própria crucificação de Jesus que também foi política.

Dizer “meu reino não é desse mundo” não implica afastar-se das lutas políticas em prol dos marginalizados, esquecidos e maltratados na nossa sociedade, visando um reino celestial que haverá em algum lugar no além. Muito pelo contrário, assumir que o reino de Deus não é desse mundo é reconhecer que o sistema que vivemos não é aquele querido por Deus; que o lucro exacerbado que consome a vida da natureza e leva milhões para a pobreza não é algo que agrada ao Pai de Jesus Cristo, o qual dizemos também ser o nosso Pai. Mas, é reconhecer que, enquanto filhos de Deus, somos também responsáveis por lutar em favor daqueles que não tem pão e terra para sobreviverem. Em outras palavras, é assumir o compromisso de ser uma palavra de boa nova para aqueles e aquelas que a precisam ouvir. Boa nova essa que, na maioria das vezes, não está em um discurso dogmático sobre o que se precisa fazer para ser salvo, mas no dar de comer ao que tem fome, auxiliar os que passam necessidade, lutar pela igualdade e justiça social. Lutar pela subversão do sistema mundano vigente é que é entender a fala de Jesus de que seu reino não é desse mundo.

 Assim, usar esse versículo para se eximir do envolvimento político é não compreender seu real sentido e distorcer a mensagem cristã, trazida por Jesus, o condenado politicamente e morto pelo Império Romano.

*Fabrício Veliq é teólogo. Mestre e doutorando em teologia pela Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte (FAJE), doutorando em teologia na Katholieke Universiteit Leuven - Bélgica, formado em matemática, graduando em filosofia pela UFMG e graduando em Teologia pela UMESP. Membro do grupo de pesquisa Fundamental and Political Theology em KU Leuven e do Grupo de Pesquisa Estudos de Cristologia da FAJE. Ministra cursos de teologia no cursos de Teologia para Leigos do Colégio Santo Antônio, ligado à ordem Franciscana, no Centro de Formação e Cultura em Divinópolis e é também professor voluntário no CITEP na Faculdade Jesuíta de Belo Horizonte. É protestante e ama falar sobre teologia em suas diversas conversas por aí, tanto presenciais, como online. Seu blog, caso queiram conhecer mais de seus textos, é www.fveliq.blogspot.com. Seu e-mail, caso queiram entrar em contato, é fveliq@gmail.com

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