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16/05/2018 | domtotal.com

Certas memórias são leves

Encaixotados às pressas, os livros proporcionaram diálogos curiosos entre Umberto Eco e João Antônio e até um flerte entre Jamie Oliver e Hilda Hilst.

Cortázar e seus personagens foram passear em Lisboa.
Cortázar e seus personagens foram passear em Lisboa. (Pixabay)

Por Pablo Pires Fernandes

As caixas dominavam todos os cômodos da casa de Sara. Objetos acumulados ao longo dos 40 anos. Compartimentados em cubos de papelão e divididos por afinidades utilitárias, formavam improváveis aproximações, quando pensava sobre a origem de cada um. Memórias distintas e distantes.

No mesmo cubículo, uma antiga estatueta boliviana namorava um ventilador dos anos 1960, o relógio de bolso do avô se ressentia da aspereza da boina verde-oliva cubana, a miniatura de plástico de um Trabant se sentia ameaçada pelo canivete suíço. Encaixotados às pressas, os livros proporcionaram diálogos curiosos entre Umberto Eco e João Antônio e até um flerte entre Jamie Oliver e Hilda Hilst.

Sara abriu a porta com uma fita adesiva na boca e sua mãe entrou reclamando sobre a dificuldade de encontrar uma vaga na rua, mas escancarou um sorriso ao ver os netos surgindo do corredor. A avó mencionou a bagunça, perguntou pelo genro, mas, sem demora, partiu rumo à sorveteria.

Sozinha onde tinha vivido os últimos 10 anos, a casa lhe encheu de lembranças, Sara observou o reflexo do sol e as sombras da samambaia na parede da sala. A saudade antecipava o sentimento que lhe seria recorrente nos meses seguintes em Lisboa.

Respirou fundo para afastar a ponta de receio de se aventurar, pela primeira vez, longe da casa, da cidade, dos amigos e de tudo tão familiar. Seguiu empilhando livros e papeis. Ao retirar da estante O jogo da amarelinha, do Cortázar, não resistiu e, ao folheá-lo, o volume se abriu na página 125. Sara reconheceu o trevo, reparando o espectro de quatro cabeças tingido no papel.

Marcava exatamente o capítulo 28, em que Maga e Gregorovius ouviam Schoenberg na vitrola, o vizinho dava pancadas no piso e entraram em cena Lúcia, Rocamadour e, por fim, Horácio, seguido de Ronald, Etiene e Babs, e depois Oliveira. “O escorpião cravando seu ferrão, cansado de ser um escorpião, mas necessitando da escorpianidade para acabar com escorpião” era um dos diálogos do capítulo 28, que termina com alguém batendo no chão no andar de cima.

Sara lembrou-se de outro diálogo, ocorrido há muitos anos numa barraca, quando ela e Diego liam o autor argentino compulsivamente. A conversa foi muda e escrita numa folha de papel. Sem coragem de pronunciar qualquer verbo, tateavam palavras à luz da lanterna buscando entender aquele sentimento adolescente, intenso no desejo e na dúvida.

Acendeu um cigarro, o primeiro desde que ficara grávida de Irene, há seis anos. Durante a fumaça contemplou as caixas, esses compartimentos cheios de objetos e memórias. Sara sabia da impossibilidade de levar todas elas até Lisboa. Deixaria-as bem guardadas, mesmo sem saber se voltaria a viver no Brasil.

A sombra da samambaia se alongava e, por um instante, acreditou ter visto um trevo de quatro folhas projetado na parede, mas o vento desfez a imagem e ela voltou à função de encher caixas. Dois dias depois, Sara e sua família cruzaram o Atlântico. Cortázar e seus personagens foram passear em Lisboa.

*Pablo Pires Fernandes é jornalista, subeditor do caderno de Cultura do Estado de Minas e responsável pelo caderno Pensar.

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