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20/05/2018 | domtotal.com

Hipocrisia, atributo dos humanos

Historicamente, toda revolução é autofágica, pois repousa, quase sempre, na hipocrisia como arma para conquistar o poder.

Hipócrita designa, pois, as pessoas que fingem comportamentos em total desacordo com seu modo de pensar e agir.
Hipócrita designa, pois, as pessoas que fingem comportamentos em total desacordo com seu modo de pensar e agir. (Reprodução)

Por Evaldo D´Assumpção*

Manon Roland – mais conhecida como Madame Roland – guilhotinada em 1793, durante a revolução francesa, teria dito ao subir para a máquina ceifadora de cabeças: “Liberdade, quantos crimes se cometem em seu nome!”. Essa frase foi atribuída por muitos incautos, à rainha Maria Antonieta, criticando a turbamulta que hipocritamente apregoava “liberté, egalité, fraternité”, enquanto fazia rolar as cabeças de quem não pensava como eles. Historicamente, toda revolução é autofágica, pois repousa, quase sempre, na hipocrisia como arma para conquistar o poder. Os líderes pregam uma coisa, mas na prática fazem o oposto, e com isso acabam sendo vítimas de suas próprias mentiras. Isso aconteceu na revolução francesa, com Robespierre – denominado “o incorruptível -, Georges Danton, e o próprio inventor da guilhotina, o médico Joseph Guillotin. Todos perderam a cabeça na roleta hipócrita do poder revolucionário. No Brasil atual, não se cortam cabeças, mas os tribunais ficam lotados pela hipocrisia de tantos “incorruptíveis” que mesmo pegos com a boca na botija, se chafurdam na hipocrisia proclamando-se inocentes e santos, com a cara mais lambida deste mundo....  Em 1962 atribuíram a famosa frase “Le Brésil n'est pas un pays serieux”, ao presidente francês Charles de Gaulle, da França. Contudo ela foi uma afirmação do embaixador brasileiro Carlos Alves de Souza Filho, irritado com a hipocrisia do governo brasileiro nas tratativas com a França, na questão da captura ilegal de lagostas por barcos franceses, nas águas territoriais brasileiras.

Todas essas ocorrências nos exigem um maior conhecimento do real significado da palavra hipocrisia. Sua origem é latina (hypocrisis) e grega (hupokisis), palavras que se referiam à representação dos atores teatrais, que por razões artísticas usavam máscaras para representar um papel que na vida real não era o deles. Hipócrita designa, pois, as pessoas que fingem comportamentos em total desacordo com seu modo de pensar e agir. Ou seja, elas se comportam como o artista que coloca a máscara, para aparentar alguém que ele não é. Também, como afirmava la Rochefoucauld, o hipócrita “imita” comportamentos corretos, virtuosos, sem que eles sejam a sua maneira de ser. Mas, também se usa “hipocrisia” para especificar um “padrão duplo” de comportamento, quando alguém realmente acredita que certos valores morais devem ser impostos às pessoas, mas não exige o mesmo do grupo ao qual pertence.

Deixemos, porém, a robusta hipocrisia específica do mundo político e dos negócios, focando apenas a hipocrisia como atributo dos humanos, de todos os humanos. Com certeza todos nós somos hipócritas, obviamente uns mais, e outros menos. Afinal, a hipocrisia surgiu na metáfora da criação. A serpente colocou a máscara de boa conselheira e, hipocritamente, ofereceu sabedoria à ingênua, porém ambiciosa Eva. E deu no que deu. Daí em diante, há uma sucessão quase infindável de hipocrisias, na história da humanidade. Não há razão para enumerá-las. O importante, me parece ser a reflexão sobre a nossa própria hipocrisia, uma vez que ninguém escapa dessa maldição ancestral. Mas existe um fator que diferencia os hipócritas, e este é o grau de ambiguidade das ações, e o esforço que se faz – ou não faz – para evitá-las.

Comecemos no seio das famílias. O pai, ou a mãe, pauta suas ações no dia a dia de acordo com os valores éticos e morais que preconiza para seus filhos? Quando ensinam que todos devem ser honestos, eles se recordam das burlas que fazem às muitas leis, especialmente às de trânsito quando dirigem? Ou quando atravessam a rua fora da faixa para pedestres, e ainda com o sinal fechado? Quando falam da gentileza para com os outros, eles se lembram da última vez que ajudaram a um necessitado pelo qual cruzaram na rua? Não me refiro simplesmente ao dar esmolas, mas ajudar a um cego atravessar a rua, ajudar a uma pessoa mais fragilizada a entrar num ônibus, ceder o seu lugar a uma pessoa mais necessitada, no banco, no cinema, onde for. Definitivamente, não jogam lixo na rua, fora das lixeiras? E os filhos, fazem sempre exatamente o que se comprometem com seus pais? Nas escolas, cumprem seus deveres de estudante? Relatam aos pais tudo o que lhes acontece, ou o que fazem em seus momentos de lazer? Ou mentem, com frequência? Por sua vez, os professores são exemplos irretocáveis de disciplina, cortesia, compromisso com seus deveres de magistério?

No relacionamento conjugal, os dois são fiéis às promessas feitas na cerimônia matrimonial, seja ela a religiosa ou a civil? Ou aquilo foi mera figura de retórica? Nas relações domésticas, um respeita o outro, um valoriza o outro no que ele faz, ou só sabe reclamar, alardeando suas próprias atividades e menosprezando a do outro? Quando saem com amigos ou amigas, tornam-se artificialmente afetivos entre si, agindo hipocritamente se comparado à maneira como se relacionam em casa, quando estão a sós? Em todas as circunstâncias, comportam-se de maneira que seu cônjuge ou seus filhos nunca se envergonharão deles? Nas conversas com amigos e amigas, referem-se ao outro de maneira gentil e respeitosa, evitando denegri-los e até difamá-los com falsas, ou ainda que justas, reclamações? Quando têm atividades profissionais diferentes, compartilham com honestidade os seus rendimentos, de modo especial para suprir as necessidades da casa? E numa infausta condição de separação, agem honestamente nas questões de divisão de bens, e especialmente na regulamentação financeira? Ou burlam para tirar vantagens indevidas do outro? No trabalho, cumprem rigorosamente seus deveres sem se preocupar com algum fortuito controle dos patrões? Fazem bem todas as coisas, porque essa é a maneira certa de agir, ou porque têm medo?

Este questionamento é infindável, mas serve para nos balizar, a todo momento, qual é o nosso grau de hipocrisia. Até pelas respostas que damos, para nós mesmos, a essas perguntas...

*Evaldo D´Assumpção é médico e escritor

EMGE

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