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Religião

22/05/2018 | domtotal.com

LGBTfobia mata

O ódio cultivado por muitos pais, mães, irmãos e irmãs, professores, colegas de trabalho, etc., pode ser sentido de diversas maneiras pelos LGBTs.

Nosso tradicionalismo conservador está muito relacionado a uma fé muitas vezes não esclarecida.
Nosso tradicionalismo conservador está muito relacionado a uma fé muitas vezes não esclarecida. (Charlotte Butcher by Pixabay)

Por Tânia da Silva Mayer*

É necessário um esforço intelectual muito grande para entender uma mesma pessoa que se posiciona contrária ao aborto, mas corrobora o assassinato das pessoas LGBTs através do uso de uma linguagem – gestos e ações – de morte e exclusão. O diferente de nós sempre nos assusta porque é, no fundo, nosso semelhante. É espelho no qual nossa imagem refletida se volta para nós. O outro é alguém fundamental em nosso processo de autoconhecimento e revelação, uma vez que não somos uma ilha. O ódio e aversão por esse tão diferente semelhante é incompreensível. A Psicologia certamente nos ajudaria a compreender como isso pode ocorrer. Mas é a partir da Teologia que queremos pensar o ódio contra as pessoas que não correspondem afetiva e sexualmente à heterossexualidade.

No relato bíblico do Gênesis há uma pluralidade de histórias transmitidas pelos antigos às gerações futuras e que conservam a crença do povo sobre como se deu a origem de todas as coisas. Dentre essas histórias está a dos irmãos Caim e Abel. Essa narrativa é bastante conhecida entre nós. Caim assassinou seu irmão Abel, tirou-lhe a vida injustamente por ciúme ou inveja, porque sua oferenda agradou menos ao Senhor que a de seu irmão. Um crime comum entre nós foi utilizado para explicar o fato de que todos estamos gabaritados para dar fim a vida uns dos outros. O motivo pode parecer banal, mas não é. A inveja pelo sucesso da oferenda do irmão inflamou de ciúmes Caim, que, não sendo capaz de controlá-lo, lançou-se contra Abel o matando. No fundo, Caim queria ter tido os mesmos resultados exitosos que o do irmão e receber a mesma atenção que ele. Não compreendeu sua diferença e desejou estar no lugar de preferido que ocupava o irmão. A inveja foi gasolina no fogo do ciúme, a combustão suprema é o assassinato.

Mas o que a história de Caim e Abel tem a ver com a cultura de violência que se expande entre nós? O que essa narrativa nos ajuda a pensar sobre a fobia e o ódio que muitos têm contra as pessoas LGBTs? A LGBTfobia também pode ser lida à luz das nossas origens. A inveja do outro, daquilo que ele é, sente e pensa, das relações que constrói, das experiências que vivencia e das visões de mundo que compartilha, provoca em nós o desejo de querer ser e parecer esse semelhante, que é também tão diferente de nós. Mas a inveja, como dissemos acima, é combustível para o ciúme, que, em condições extremas, por não podermos ser e possuir aquele objeto de nosso desejo, afeta o ódio que nos autoriza a eliminar e matar aqueles que, no fundo, admiramos doentiamente. A LGBTfobia é o esquecimento de si próprio. Desejo de ser o outro. Irrealização. Assassinato.

No último dia 17 de maio celebramos o Dia Internacional contra a homofobia, entendida hoje como LGBTfobia, isto é, o ódio e a aversão contra as pessoas cujas sexualidades variam da heterossexualidade. Esse dia celebra a retirada do termo “homossexualismo” da Classificação Estatística Internacional de Doenças e Problemas Relacionados com a Saúde (CID), da Organização Mundial da Saúde (OMS), ocorrida no 17 de maio de 1990. Esse entendimento descortinou o paradigma plural das sexualidades humanas, ao mesmo tempo em que contribuiu para uma visão mais humanizada das relações entre pessoas LGBTs e de como suas vidas são comuns como a de todas outras pessoas.

O ódio cultivado por muitos pais, mães, irmãos e irmãs, professores, colegas de trabalho, etc., pode ser sentido de diversas maneiras pelos LGBTs. Ele vai desde piadinhas mortíferas, a xingamentos, discursos enraivecidos, chegando a torturas psicológicas e físicas e até mesmo à morte. Minas Gerais é o Estado no qual a população LGBT é alvo de maior violência. Não nos espanta que também sejamos um Estado de imagem conservadora e tradicional, com séculos de repressão sexual, transmitida de geração em geração. Nosso tradicionalismo conservador está muito relacionado a uma fé muitas vezes não esclarecida. Será que nossas crenças religiosas não estão assassinando os filhos e filhas LGBTs de nossas famílias? Nós, os cristãos e as cristãs, não devemos promover a vida plena e abundante? Oxalá não sejamos irmãs e irmãos invejosos que levam para o campo aquelas vidas que, por enciumá-las, desejamos ceifar.

*Tânia da Silva Mayer é mestra e bacharela em Teologia pela Faculdade Jesuíta de Filosofia e Teologia (FAJE); graduanda em Letras pela UFMG. Escreve às terças-feiras. E-mail: taniamayer.palavra@gmail.com.

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