;
Mundo

22/05/2018 | domtotal.com

Os 100 anos de Ingmar Bergman

Irá a obra de Ingmar Bergman sobreviver no imaginário de seu grande público?

Bergman em pensamento! ilustração de Marguerita Bornstein, de New York.
Bergman em pensamento! ilustração de Marguerita Bornstein, de New York.

Por Lev Chaim*

O cineasta sueco Ingmar Bergman faria no mês de julho deste ano 100 anos. Desde seu falecimento, em 30 de julho de 2007, muitos se perguntam: irá a sua obra sobreviver no imaginário de seu grande público? Sim, hoje, ninguém mais tem  dúvidas. Os seus filmes e representações teatrais do início de sua carreira refletiam, quase sempre, o seu estarrecimento frente a temas universais como Deus, angústia, culpa, morte e amor, que atraíam um enorme e variado público, como também refletiam a sua educação severa nos códigos do protestantismo luterano. Seus temas espelhavam sempre uma certa tensão psicológica embutida nos seus personagens, problemas de casamento e a grande pergunta da humanidade: existe vida após a morte?

Peguemos uma de suas grandes obras, um filme de 1978, ‘Cenas de um casamento’, com os atores Erland Josephson e Liv Ullmann. Um casal perfeito cujo relacionamento, aos poucos, vai se trincando até quebrar definitivamente. Lembro-me, de quando ainda muito jovem, ao assistir esse filme, fiquei com a impressão de que os suecos eram frios. Tudo parecia estar bem e, de repente, tudo se espatifava no chão, sem avisos prévios. Aí estava a minha falha na observação desse filme, talvez influenciado pela minha juventude e inexperiência em relação ao casamento. As rachaduras entre o casal estavam embutidas magistralmente nas falas contidas, nos silêncios prolongados, no trabalho de câmera, enfim, nos mil e um detalhes que fizeram de Bergman famoso em todo o mundo, inclusive conquistando a admiração eterna de cineastas também famosos, tais como Woddy Allen e o português Domingos Oliveira. Feito inicialmente para a TV, em 1973, ‘Cenas de um Casamento’ foi responsável por uma enorme onda de divórcios em toda a Suécia, naquele ano.

Hoje em dia, muitos outros cineastas deixam claro que seu filmes foram inspirados em obras de Bergman. Por exemplo, as aventuras sexuais e psicológicas de Lars von Trier em filmes como ‘Melancolia’ e ‘Anticristo’ não poderiam ter sido realizadas sem os filmes do cineasta sueco. O grande diretor russo, Andrej Zvjagintsev, em seu impressionante filme Loveless, sobre ódio e inveja, deixa bastante claro ter sido inspirado pelo fime de Bergman, em ‘Cenas de um casamento’. Os angustiantes e sensuais filmes do grande cineasta David Lynch foram também claramente inspirados em dois filmes de Bergman: ‘Persona’, de 1966, e ‘A hora do lobo’, de 1968. E podemos citar ainda como grandes admiradores públicos de Bergman, o cineasta turco Nuri Bilge Ceylan e o austríaco Michael Haneke, ganhador de dois Oscars. Este último deixou bastante claro que as suas fortes análises cinematográficas, da aparente pobreza da burguesia, foram inspiradas em obras de Bergman. A diversidade de cineastas que tomam Bergman como fonte de inspiração é tão grande que deixa claras a variedade, a complexidade e a universalidade dos temas por ele temas abordados.  

Quem não se lembra da mãe que nunca teve tempo de ser mãe para a filha, que a rejeita e a admira, em ‘Sonata de Outono’, filmado em 1978 ? A grande e talentosa pianista, a mãe ( a atriz Ingrid Bergman) e sua filha ( a atriz norueguesa Liv Ullmann), emocionalmente fragilizada, protagonistas que têm os seus sentimentos contraditórios amplificados pelo trabalho de câmera. É um filme sobre os relacionamentos familiares mal resolvidos. Este é mais um exemplo da temática universal do cineasta sueco, que mostra muito bem porque seus filmes ainda atraem pessoas em todo o mundo. Poderíamos denominá-lo de um arauto dos dramas psicológicos em família, entre amigos, enfim, de traumas que são, de uma forma ou de outra, complicados demais para serem colocados em viva voz.

Não podemos falar aqui de todos os seus filmes, mas apenas citar alguns para mostrar a sua influência, até hoje, em outros cineastas. O que era para ser o seu último filme, na verdade, foi uma série para a TV de cinco horas, realizada em 1980, ‘Fanny e Alexander’, depois encurtada para o cinema, em 1982, com o mesmo título. Mas, como uma caixinha de pandora, Bergman não parou por ai e, o seu último filme, na verdade, foi o desconhecido Sarabande, realizado em 2003, quatro anos antes de sua morte. Sarabande, que não chegou a ser lançado no cinema, mas apenas em vídeos, retrata a relação entre um artista idoso e seu filho, e se percebe claramente o ódio mútuo entre os dois.  

Talvez, como refletem muitos, todas essas íntimas questões de Ingmar Bergman não levem a nada ou, talvez, a maior desespero. Mas, como diria o meu sábio pai, esta não seria uma razão para não se fazer mais tais perguntas,  não é mesmo? De acordo com Bergman, as pessoas não têm, na verdade, uma escolha a fazer, já que uma vida superficial, inconsciente, com uma existência apenas rotineira, não é, de forma alguma, uma vida. Pois é senhor Ingmar Bergman, cineasta sueco, nascido em Upsala, Suécia, e falecido em Fâro, também Suécia: seus filmes me intrigaram, me fizeram pensar, rir e chorar. E quando perguntei à minha irmã mais velha, bem mais velha, pois sou o temporão da família, ela me deu a mesma resposta. Vamos festejar os cem anos de nascimento de Ingmar Bergman com um bom vinho, pois acredito que ele faria o mesmo, apesar da idade.

* Lev Chaim é jornalista, colunista, publicista da FalaBrasil e trabalhou mais de 20 anos para a Radio Internacional da Holanda, país onde mora até hoje. Ele escreve todas as terças-feiras para o Domtotal.

EMGE

*O DomTotal é mantido pela Escola de Engenharia de Minas Gerais (EMGE). Engenharia Civil conceito máximo no MEC. Saiba mais!

Comentários

Instituições Conveniadas