Meio Ambiente

07/06/2018 | domtotal.com

Sociedade do consumo estético: a busca pela perfeição

Consumir não é propriamente um problema, mas com o desenvolver da sociedade, após a Revolução Industrial, a forma como o consumo se dava sofreu modificações.

A indústria de cosméticos e dermatológica, de culto ao corpo, ganhou força nas últimas décadas.
A indústria de cosméticos e dermatológica, de culto ao corpo, ganhou força nas últimas décadas. (Divulgação)

Por Vanessa de Vasconcellos Lemgruber França

O consumismo seria o consumo que se dá de forma compulsória, que ultrapassa os limites daquilo que é indispensável para satisfazer as necessidades básicas de um ser humano. Consumir não é propriamente um problema, mas com o desenvolver da sociedade, após a Revolução Industrial, a forma como o consumo se dava sofreu modificações. Nesse momento, as pessoas não produzem aquilo que elas consomem com a finalidade de subsistência, mas sim consomem aquilo que o mercado proporciona, instigando através das mídias e novas tecnologias a busca por produtos que não tenham só uma finalidade utilitária, mas que também carreguem em si valores, a procura do alcance de um status social ou da satisfação de desejos perfeccionistas. Assim, a indústria de cosméticos e dermatológica, de culto ao corpo, ganhou força nas últimas décadas, prometendo o alcance de um ideal de corpo perfeito, de vida perfeita, que só existe na propaganda.

O ato de consumir foi ressignificado, não só para o consumo do produto em si, mas também daquele ideal que é vendido junto a ele, um modelo hedonista moderno, de gozo Maximo com satisfação plena e uso com tudo aquilo que lhe traga felicidade. Esse novo modo de consumir se tornou compulsório na medida em que há um ideal a ser perseguido e, sendo ele atendido momentaneamente, surgirão outros, de novas formas e modalidades.

É perceptível que há uma insatisfação constante daquele que consome um vazio existencial necessitando ser preenchido, pois sempre sobrevirão novos produtos, com novas fórmulas e novas promessas. Todas as culturas possuem padrões de beleza próprios do patrimônio genético que carregam. E, aproveitando-se disso, o sistema capitalista faz com que esse padrão seja, de certo modo, “aperfeiçoado” com seus produtos. As mídias têm grande força na manutenção desse sistema de consumo, uma vez que ela é a responsável pela reiteração dos valores não só econômicos atribuídos aos produtos, influenciando no modo como a sociedade se constrói e, ainda, em suas relações interpessoais.

Não só a mídia é responsável pela propagação de um padrão de beleza estético, como ela também manipula aquilo que mostra através do uso de tecnologias, tais como photoshop. Com esse programa se faz possível a alteração de uma imagem, transformando-a naquilo que se quer ofertar através do produto aos seus consumidores. O uso desse mecanismo é muito questionado, tendo em vista que sua função seria a retirada das consideradas “imperfeiçoes” das imagens, principalmente sobre os corpos humanos, fazendo com que o público alvo do produto a ser vendido acredite naquela imagem como sendo possível de alcança-la para si. Nas redes sociais é muito fácil de se encontrar críticas ao uso dessa tecnologia, pois ela além de incentivar o consumismo de produtos estéticos e dermatológicos com uma promessa que não necessariamente será cumprida, influencia no aumento do número de cirurgias estéticas em busca do corpo perfeito. Não se faz aqui um julgamento de valor sobre essas cirurgias, mas vale a pena questionar o que faz com que elas sejam tão bem aceitas na sociedade.

Recentemente, a França resolveu tratar dessas questões como um problema de saúde pública, uma vez que sua população, ao ser influenciada por essas manipulações imagéticas, desenvolve distúrbios alimentares em busca de uma magreza idealizada, com base no fomento da baixa autoestima da autodepreciação de seus cidadãos, já que aquele ideal demonstrado pelas mídias é impossível de ser alcançado. Assim, a partir dessa lei, deverá constar o aviso "photographie retouchée", que significa “fotografia retocada” em português, em todos os anúncios que utilizarem tecnologia de retoque, alterando a realidade das fotos para uma idealização de perfeição. A padronização de um corpo perfeito, além de poder desencadear em distúrbios alimentares, fomenta estigmas e preconceitos contra aqueles que não se encaixam nos padrões preestabelecidos. Aqui no Brasil, pode-se dizer que a padronização estética fomenta a “gordofobia”, que é a aversão às pessoas gordas, atribuindo a elas uma condição de subjugação e de inferioridade.

Além das questões já levantadas, podemos falar de um paradoxo de representatividade midiática no Brasil, uma vez que esse é um país que, pelo seu histórico de colonização, resultou em uma forte mistura étnica, o que não é demonstrado pelas grandes mídias. Apesar de 54,9% da população brasileira se declarar como negra ou parda (IBGE, 2016), não é isso o que se vê nos programas de grande circulação. Há uma incidência de um padrão de beleza europeu, o que talvez seja resultado de uma colonização inclusive cultural que sofremos.

Apesar de o consumo de produtos de beleza ser exacerbado, pouco era direcionado à população negra. As recentes lutas sociais por reconhecimento forçaram o mercado a produzir mais materiais destinados à essa população, como, por exemplo, mais produtos para cabelos crespos e cacheados, reforçando uma ideia de que há vários tipos de beleza e não só a do cabelo liso. A postura de assumir o cabelo crespo se tornou um ato de resistência frente ao padrão de beleza europeu imposto e, inclusive, reforçando uma ideia de identidade negra.

Mais uma vez, reitero que o ato de consumir não é de todo um mal, mas sim uma atividade necessária para a nossa sobrevivência como humanidade. No entanto, vale a pena questionar o modo como esse consumo se dá, para que possamos enxergar melhor como nos determinamos como indivíduos e como coletividade. A postura da França em relação ao uso do photoshop talvez seja apenas simbólica, mas o mero apontamento da manipulação da realidade já é algo a ser considerado pelo nosso inconsciente. E, ainda, uma vez levantadas todas essas questões, que passemos de alguma forma elucidar sob influência de que estamos, se isso é bom ou não para a nossa sociedade e, a partir daí possamos aprimorar o modo como nos colocamos no mundo.

O padrão de beleza e juventude imposto para a sociedade deve ser repensando. As características culturais, a fisiologia de cada pessoa deve ser levada em conta, isso não quer dizer que devemos parar de utilizar os cosméticos e cuidar do corpo, apenas, não deixarmos levar pelos exageros estéticos colocados pela mídia. Dessa forma, enfrentando o modelo estético atual, há uma possibilidade de se repensar seu consumo, levando a uma possível utilização sustentável desses produtos e dos recursos empregados na sua elaboração.

*Mestranda. Membro do Grupo de Pesquisa “Por Uma Justiça Ambiental”. Eco-feminista, advogada.

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